Um curso pago de especialização que seria promovido em parceria com a Fundação Instituto de Administração (FIA) teve seu processo arquivado depois de encontrar forte resistência da representação discente e causar protestos de docentes. Caso fosse aprovado, custaria a cada um de seus 40 alunos, ao longo de dois anos, R$ 28.440. A receita prevista, portanto, era de R$ 1.137.600. Deste montante, a FIA receberia pelo menos R$ 180 mil, sem contar a remuneração dos docentes a ela ligados.

O projeto atribuía a coordenação do curso “Gestão de Empreendimentos Habitacionais Sus­ten­táveis” (Cehabs) ao professor Marcelo Roméro, diretor da FAU. O Informativo Adusp enviou mensagem eletrônica ao professor Roméro, indagando sobre o conflito de interesses que o caso envolvia. Em 27/6, o diretor da FAU comunicou, em lacônica resposta: “Quanto ao processo do referido curso, encaminhado à análise da CCEU/FAUUSP, já solicitei a sua devolução para arquivamento.”

O curso seria ministrado por professores da FAU, da Faculdade de Economia e Administração, da Escola Politécnica e por especialistas externos à USP. A FIA, entidade privada, seria a realizadora do curso, cabendo a ela gerir os recursos, fazer as inscrições e a seleção dos alunos.

A representação discente na Comissão de Cultura e Extensão (CCEU) conseguiu adiar a decisão sobre o curso, na reunião de 21/6. “Somos contrários à cobrança de mensalidades em cursos de especialização de instituições públicas como a USP: a igualdade de acesso ao conhecimento é um dos fundamentos do ensino público, como descrito no artigo 206 da Constituição Federal”, afirma documento distribuído pela representação. “Os cursos de especialização nada mais são do que uma modalidade de ensino, estando inclusive enquadrados pelo MEC como pós graduação lato sensu.

“Carimbo da FAU”

Os alunos apontam, no seu parecer, falhas do processo. Embora os proponentes aleguem que o curso “foi solicitado pela “Cátedra ONU-Habitat – Cidade Sustentável”, não existe documento que comprove tal pedido. “Como podemos saber se o curso está de acordo com o que foi solicitado pela ONU? Se este pedido não foi analisado pelos pareceres, por que estes invocam tal argumento de autoridade?”, indaga o documento.

De acordo com membros da CCEU, o Cehabs já era oferecido pela FIA. “Agora tenta-se trazer para a FAU o mesmo curso, que continuará sendo realizado na FIA e administrado pela FIA. Por que conceder o carimbo da FAU a um curso moldado e gerido por outra instituição? Quem se beneficia com isso?”, prossegue a representação discente.

A representação discente aponta, ainda, inconsistência de mérito acadêmico: “Trata-se de uma abordagem da gestão de empreendimentos habitacionais sustentáveis pura e simplesmente mercadológica. Conforme foi cunhado na Conferência Rio 92, o conceito de sustentabilidade possui três focos importantes: o econômico, o social e o ambiental. Aqui, no curso em vias de aprovação, encontra-se apenas o viés econômico, sendo o ambiental e social decorrentes dele. Que sustentabilidade é essa? A mais rentável, certamente”.

O documento dos alunos identificou custos que não convencem: “A previsão de gastos referentes a salas e apoio audiovisual é de R$ 68.750._Qual é a razão de valor tão alto? Por acaso serão comprados novos equipamentos para compor as salas de aula da FIA? R$ 20.000 para monitores? Quantos são, quem são?” O questionamento se estende aos valores que serão repassados à FIA: “Diz-se que o total de R$ 180.181,45 é uma contribuição para a FIA somada a impostos. Mas que impostos são esses?”

 

Informativo nº 348