Discurso da formanda Nara Perobelli frente à ministra da Agricultura atacou “projeto de governo sustentado no capital e na desigualdade” e denunciou modelo agrícola e de meio ambiente hegemônico na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Ao mesmo tempo, a Fealq, fundação privada dita “de apoio” à Esalq, recebeu com pompa Tereza Cristina, que representa a bancada ruralista no Congresso Nacional e liberou quase 400 agrotóxicos em apenas um ano

Continua a repercutir intensamente a manifestação de Nara Perobelli, formanda do curso de Gestão Ambiental da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), durante evento nesta terça-feira (14/1) no campus de Piracicaba da USP que contou com a presença da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, escolhida como paraninfa da turma, e do reitor Vahan Agopyan. A colação de grau, à qual Tereza Cristina não poderia comparecer porque estará em Berlim para participar da “Semana do Verde”, será realizada nesta quinta-feira (16/1).

A ministra, fortemente ligada ao agronegócio, vem se notabilizando por liberar, em poucos meses, o uso no país de quase 400 agrotóxicos, muitos dos quais comprovadamente nocivos à saúde, e por fazer declarações defendendo a alta de preços da carne bovina. Deputada federal (DEM-MS), ela é líder da bancada ruralista e presidenta da Frente Parlamentar Agropecuária, que representa os interesses do agronegócio no Congresso Nacional.

O discurso de Nara foi discutido e preparado com colegas. Dirigindo-se respeitosamente à ministra, sem alterar a voz, a formanda criticou duramente o que chamou de “universo do agronegócio” e o modo ele é imposto no país e na própria escola. Na Esalq, principiou, os estudantes passam “de quatro a sete anos” ouvindo falar de agronegócio, “independentemente do curso que fazemos”.

Prosseguiu ironizando o mote popularizado pela TV Globo: “De um agro que é pop, que é tech, que é tudo. Temos a certeza de que a senhora, ministra, e o governo Bolsonaro como um todo, representam, geram e reproduzem em seu projeto de país esse modelo. Um modelo que é a cara da bancada ruralista. Um projeto de governo fundamentado e sustentado no capital e na desigualdade”.

Em seguida, resumiu de maneira contundente o primeiro ano do governo Bolsonaro: “Que em 2019 gerou incêndios de proporções assustadoras; que prendeu e matou ambientalistas, indígenas, quilombolas, agricultores, mulheres, negros, lgbtqi+; que buscou silenciar cientistas, pesquisadores, professores e todos que com dados escancaravam os problemas trazidos pelo tipo de agricultura que vocês incentivam com palavras e dinheiro”.

Ao chegar a esse ponto, Nara mostrou que também dentro da Esalq há resistência ao agronegócio: “Nós passamos de quatro a sete anos aqui dentro ouvindo de muitos que essa era a única maneira possível de acabar com a fome no Brasil e no mundo. Ouvimos de muitos, mas não de todos. Hoje, segurando este microfone tenho o orgulho de representar quem entende, por meio da ciência, da ética, e do amor sem rótulos, que uma outra agricultura e modelo de sociedade são possíveis”.

Esse grupo de pessoas, continuou ela, “é formado por estudantes, professores e funcionários que fazem pesquisa e extensão fundamentados na agroecologia nesta universidade, que é pública e que deve ser de todos e todas”, e para ele “é intragável que esta Escola, que se diz gloriosa, seja conivente com uma forma de produção e um projeto de país que se baseia no lucro, excluindo as pessoas do campo e as múltiplas funções da agricultura”.

A formanda então voltou a se referir a Tereza Cristina, embora sem citar o seu nome: “Um governo que cerceia a ciência e a autonomia das universidades, que distorce informações, que não se propõe a ouvir as nossas vozes nas ruas, mas que suporta nos escutar por dois minutos em troca de publicidade e uma placa de homenagem. Não, não representa a nenhuma ou nenhum de nós uma paraninfa ou paraninfo que do alto cargo de liderança que possui, escolha fazer política dessa forma” (leia a integra do discurso ao final da matéria).

A ministra ouviu o discurso da formanda e, ao final, respondeu educadamente. “Graças a Deus nós vivemos em um país democrático. Essa é a beleza da democracia: o equilíbrio é que faz. Agroecologia é uma ciência fantástica, desde que seja feita baseada em ciência. O que não podemos é esquecer a ciência, principalmente quem está aqui na universidade”. Mais adiante, comentou sua condição de paraninfa: “Isso é a beleza da democracia. Podemos expressar livremente o que cada um pensa. Eu respeito o seu pensamento, apesar de não concordar totalmente com ele. Apesar de não te representar, eu sinto orgulho por ter sido escolhida por uma parte dos alunos dessa escola que me quiseram aqui como paraninfa”.

Conforme relato da jornalista Andressa Mota, do Jornal de Piracicaba, “a decisão da escolha da ministra para paraninfa das turmas foi feita pela diretoria da universidade e, ao ser proposta, a Comissão de Colação de Grau a aceitou, conforme informou Thaís Alves Sousa, tesoureira da comissão”, e, “como não houve votação direta, os alunos ficaram divididos. Ao todo, são 294 formandos de sete cursos”.

A Diretoria da Esalq emitiu nota sobre o caso, na qual esclarece que “por decisão da Comissão de Colação de Grau da Esalq, desde 2003, a prerrogativa da indicação do paraninfo cabe ao diretor da instituição, enquanto que a indicação dos patronos cabe aos alunos”. Na nota, o diretor Durval Dourado Neto confirma que partiu dele a indicação de Tereza Cristina: “No caso específico da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a indicação para paraninfa foi feita pelo diretor, o qual consultou a Comissão de Formatura da Classe 2019. Ficou evidente durante o encontro que a ministra fez com os formandos que a maioria destes apoia tal indicação, porém, cabe salientar que há uma minoria contrária a essa indicação”.

“Na minha opinião, a estudante expressou os sentimentos de uma parte significativa de estudantes e de profissionais que não aceitam o fato de uma instituição pública passar a imagem de um pensamento único, comprometido com o atual modo de produção e consumo que está degradando o Planeta Terra e a vida”, declarou ao Informativo Adusp, a respeito do episódio, o professor Marcos Sorrentino, do Departamento de Ciências Florestais da Esalq. “Os sentimentos, percepções e trabalhos de todos aqueles e aquelas que se viram representados pela voz de Nara não podem ser menosprezados e agredidos por ideólogos conservadores que não querem que o pensamento divergente se manifeste nem por dois minutos”.

Recepção na Fealq tem troca de gentilezas

A Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), entidade privada dita “de apoio” à Esalq, divulgou texto intitulado “Fealq prestigia visita da Ministra da Agricultura à Esalq”, no qual relata que seu presidente, professor Nelson Sidnei Massola Júnior, “acompanhou nesta terça-feira” a visita de Tereza Cristina à Esalq. A leitura desse press-release confirma os vínculos políticos entre um setor da Esalq e o governo Bolsonaro, já vislumbrados na indicação, pelo diretor da unidade, do nome da ministra para ser a paraninfa da turma de 2019.

Ao cumprimentar o presidente da Fealq, “a ministra lembrou o recente convite que fez ao antecessor de Nelson, o professor Sergio De Zen, para integrar a equipe de assessores diretos” do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Segundo o texto, deu-se o seguinte diálogo: “‘Eu tirei o Sergio de vocês’, brincou Tereza Cristina. ‘A senhora levou nosso estrategista’, respondeu sorrindo o representante da fundação, que completou: ‘A Fealq está à disposição para as iniciativas de apoio à pesquisa e ao agronegócio que possam contribuir com o desenvolvimento do Brasil’”.

Ainda segundo o texto da Fealq, outros dos seus dirigentes “também prestigiaram o evento”. Por fim, relata o press-release: “Após o encontro com formandos em Piracicaba, a ministra seguiu para missão oficial na Europa e na Índia. Ainda nesta semana, ela participa da Green Week em Berlim. Entre as atividades, está o Fórum Global para a Alimentação e a Agricultura (GFFA) com cerca de 70 ministros da Agricultura. Na Índia, com a comitiva do presidente Jair Bolsonaro, participará de encontros que podem levar à intensificação de negócios entre os países”.

Íntegra da manifestação de Nara Perobelli

Bom dia a todas e a todos!

Aqui na ESALQ nós passamos de 4 a 7 anos de nossas formações ouvindo, independentemente do curso que fazemos, sobre o agronegócio. Desde a administração, passando por ciência dos alimentos e engenharia florestal, todos, exceção, entram em contato com esse universo.

De um agro que é pop, que é tech, que é tudo. Temos a certeza de que a senhora, ministra, e o governo Bolsonaro como um todo, representam, geram e reproduzem em seu projeto de país esse modelo.

Um modelo que é a cara da bancada ruralista. Um projeto de governo fundamentado e sustentado no capital e na desigualdade.

Que em 2019 gerou incêndios de proporções assustadoras;

Que prendeu e matou ambientalistas, indígenas, quilombolas, agricultores, mulheres, negros, lgbtqi+;

Que buscou silenciar cientistas, pesquisadores, professores e todos que com dados escancaravam os problemas trazidos pelo tipo de agricultura que vocês incentivam com palavras e dinheiro.

Nós passamos de 4 a 7 anos aqui dentro ouvindo de muitos que essa era a única maneira possível de acabar com a fome no Brasil e no mundo.

Ouvimos de muitos, mas não de todos.

Hoje, segurando este microfone tenho o orgulho de representar quem entende, por meio da ciência, da ética, e do amor sem rótulos, que uma outra agricultura e modelo de sociedade são possíveis.

Esse grupo de pessoas é formado por estudantes, professores e funcionários que fazem pesquisa e extensão fundamentados na agroecologia nesta universidade, que é pública e que deve ser de todos e todas.

Para este grupo do qual eu faço parte, é intragável que esta Escola, que se diz gloriosa, seja conivente com uma forma de produção e um projeto de país que se baseia no lucro, excluindo as pessoas do campo e as múltiplas funções da agricultura.

Um governo que cerceia a ciência e a autonomia das universidades, que distorce informações, que não se propõe a ouvir as nossas vozes nas ruas, mas que suporta nos escutar por dois minutos em troca de publicidade e uma placa de homenagem.

Não, não representa a nenhuma ou nenhum de nós uma paraninfa ou paraninfo que do alto cargo de liderança que possui, escolha fazer política dessa forma.

Acreditamos, trabalhamos para isso e seguiremos na luta em direção a um sistema, que, como diz nossa sempre presente Ana Maria Primavesi, “não é para vender adubos e defensivos, mas para produzir bem e barato”.