Faleceu neste sábado, aos 76 anos, a professora Lisete Regina Gomes Arelaro, liderança teórica e política incontornável nas questões relacionadas à educação pública. Docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP) desde 1982, Lisete tornou-se professora titular do Departamento de Administração Escolar e Economia em 2009. Foi chefe de departamento e depois diretora da FE-USP (2010-2014).

Daniel Garcia

Antes de ingressar na USP, Lisete foi professora de ensino secundário na rede pública estadual (1968-1970) e depois assumiu funções de assessoria, coordenação e direção na Secretaria de Estado de Educação, onde trabalhou até 1997. Entre 1990 e 1997 foi diretora concursada da Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau “Professor Cândido Gonçalves Coutinho”. Portanto, conhecia bem os problemas do ensino público estadual, que, depois, trataria de estudar em profundidade em diversas pesquisas levadas a cabo na FE. 

Tinha formação musical e por três anos (1963-1966)  atuou no Conservatório Musical de Campinas (CMC), lecionando história da música, pedagogia musical, teoria e solfejo, composição e piano.

Graduou-se em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puccamp) em 1966. Em 1980 obteve o mestrado e em 1988 o doutorado em Educação, ambos pela FE. Em 1990 cursou pós-doutorado na Universidade Livre de Barcelona. Tornou-se livre-docente em 2005, ao ter aprovada a tese “Os Fundos Públicos no Financiamento da Educação — o caso Fundeb: Justiça Social, Equívoco Político ou Estratégia Neoliberal?”, na qual examinou as contradições do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação.

Por duas vezes Lisete foi secretária municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer de Diadema (1993/96 e 2001/02). Integrou a equipe do professor Paulo Freire quando ele esteve à frente da Secretaria Municipal da Educação da capital paulista, na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). Presidiu o Fórum Nacional de Faculdades e Centros de Educação Públicos entre 2012 e 2014 e a Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca) entre 2015 e 2017. Integrou o Grupo de Trabalho de Política Educacional da Adusp (GTPE).

Suas pesquisas na FE tratavam de temas candentes da educação pública, relacionados à política educacional, ao financiamento da educação básica e à carreira do magistério, sempre sob uma perspectiva antineoliberal e fundadas no pensamento crítico. Por exemplo: “Análise das consequências de parcerias firmadas entre municípios brasileiros e a Fundação Ayrton Senna para a oferta educacional (2007-2010)” estudou os efeitos na oferta e na gestão da educação pública dos programas “Gestão Nota 10” e “Escola Campeã”, que resultaram de parcerias firmadas entre municípios brasileiros e aquela instituição privada.

Outro exemplo na mesma linha foi “Parcerias público-privado: Estratégias de Municípios brasileiros para o atendimento educacional, 2007 a 2012”. Seu ponto de partida foi a constatação de que “mais de 200 municípios do estado de São Paulo dos 645 existentes vêm se utilizando da prática de parcerias com entidades privadas”. O projeto envolveu 18 estudos de caso, analisando três situações: “as parcerias para manutenção de creches, as de gestão educacional e as de compra de material pedagógico substituindo a atuação do município na área”.  

Daniel Garcia

Em 2018, participando de debate sobre a conjuntura promovido pela Adusp

“Remuneração de professores de escolas públicas da educação básica: configurações, impactos, impasses e perspectivas”, realizada de 2008 a 2014, buscou investigar o impacto do Fundeb, por meio de um “levantamento dos diferentes critérios e planos de carreira que fundamentam as remunerações dos professores no Brasil verificando se o Fundeb possibilitou uma alteração dos critérios então adotados”, bem como dos “impasses que o cumprimento efetivo dos Planos de Carreira e Estatutos dos Magistérios trouxe para estados e municípios no Brasil”.

A realização desses e de outros projetos contou com a participação de docentes e pesquisadores destacados da educação com os quais Lisete gostava de trabalhar em conjunto, tais como Thereza Maria de Freitas Adrião, José Marcelino de Rezende Pinto, Rubens Barbosa de Camargo, Teise de Oliveira Guaranha Garcia e outras(os).

“Lisete era muito singular, é solidariedade, é companheirismo, é tudo de positivo que a humanidade conseguiu construir, simples assim”, sintetizou para o Informativo Adusp, consternado, o professor César Minto (FE), ex-presidente da Adusp, que com ela compartilhou muitas iniciativas em defesa do ensino público, gratuito, de qualidade e socialmente referenciado, como ela gostava de definir.

Lisete é coautora de três livros: Às portas da universidade: alternativas de acesso ao ensino superior(Xamã, 2012), com Gilberto Cunha Franca e Maíra Tavares Mendes; Educação e Políticas Públicas (Xamã, 2002) eProgressão Continuada x Progressão Automática (Cortez, 2002), ambos com Ivan Valente. Organizou Direitos Sociais, Diversidade e Exclusão. A Sensibilidade de quem as vive (Mercado das Letras, 2018). É autora ou coautora de 35 capítulos de livros e de diversos outros escritos.

O velório do corpo de Lisete será no saguão do Bloco B da Faculdade de Educação, na Cidade Universitária do Butantã, das 14h00 às 17h00. Para tanto, a direção da faculdade obteve autorização da vigilância sanitária da USP.

Nota de pesar da Diretoria da Adusp

A Diretoria da Adusp manifesta seu mais profundo pesar pela morte da  professora Lisete Regina Gomes Arelaro. Lisete realizou mestrado e doutorado na Faculdade de Educação da USP (FE-USP) e se tornou docente da unidade em 1982. Já aposentada, em junho de 2021, recebeu o título de Professora Emérita pela faculdade, onde iniciou e encerrou sua carreira.

Além de professora e pesquisadora da FE-USP, foi uma lutadora em defesa da educação pública. Integrou o Grupo de Trabalho de Política Educacional (GTPE) da Adusp por muitos anos, contribuindo para a construção da entidade. Mesmo aposentada e doente, Lisete participou de eventos em defesa da educação durante a pandemia.

Registramos nossas condolências à família, amigas, amigos, estudantes, colegas e companheira(o)s de luta.

Lisete Arelaro, presente!

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