Faleceu nesta terça-feira (27/7), aos 91 anos, o filósofo José Arthur Giannotti, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Ao lado de Chico de Oliveira, Fernando Henrique Cardoso e outros intelectuais que se opunham à Ditadura Militar, Giannotti foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), entidade criada em 1969. Foi vice-presidente da Adusp na gestão 1983-1985, presidida pelo professor Ernest Wolfgang Hamburguer.

Sandra Codo/IEA

Professor José Arthur Giannotti

Giannotti foi aposentado compulsoriamente no cargo de professor da USP pelo decreto de 29 de abril de 1969 do ditador marechal Costa e Silva, com base no Ato Institucional número 5 (AI-5). Do mesmo rol de 24 cassados faziam parte Bento Prado Júnior, com quem dividia a coordenação do curso de Filosofia da USP, e diversos outros nomes admiráveis da ciência e do pensamento nacionais, como Caio Prado Júnior, Elza Salvatori Berquó, Emília Viotti da Costa, Mário Schenberg, Octávio Ianni e Paulo Mendes da Rocha, para ficar em alguns apenas.

De acordo com o livro O Controle Ideológico na USP (1968-1978), Bento Prado e Giannotti tentaram estabelecer, na então Faculdade de Filosofia, “um núcleo de reflexão filosófica independente da tradição religiosa e jurídica que até então havia monopolizado, no Brasil, essa disciplina”, sendo esse o motivo aparente para a cassação de ambos. “Tal proposta havia, desde o início, suscitado intensa hostilidade por parte dos setores conservadores da Igreja e da Faculdade de Direito”. Posteriormente, o professor foi reintegrado à USP.

Já em 1958, ao retornar de um período de estudos na França, Giannotti havia criado um grupo de estudos sobre a obra de Karl Marx, intitulado “Seminários Marx”. Escreveu diversos livros sobre Marx e outros sobre Wittgenstein, entre os quais Origens da dialética do trabalho (1966), Exercícios de filosofia (1975), Trabalho e reflexão (1983), Apresentação do mundo (1995), Certa herança marxista (2000), Marx: Vida e Obra, depois renomeado como Marx: além do marxismo (2000/2010), O jogo do belo e do feio (2005) e Heidegger/Wittgenstein: confrontos (2020).

De acordo com o portal Terra, Giannotti “decidiu ingressar na USP por influência do escritor Oswald de Andrade, que conheceu na adolescência”, após se mudar para a capital paulista com a família. “Assistiu a primeira aula universitária no prédio da Rua Maria Antônia, no início de 1950, com outros nove alunos. A memória das primeiras lições com o professor francês Gilles-Gaston Granger, que explorava a epistemologia francesa e a formação do pensamento, foi marcante o suficiente para que Giannotti as registrasse mais de 60 anos depois nas páginas do Estadão, em um artigo para o caderno Aliás.

Política e polêmicas

No início do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) como presidente da República, o senador Antonio Carlos Magalhães, liderança nacional do então PFL (atual DEM), explorou incidente da vida particular de Giannotti, ocorrido quinze anos antes — em 1980, Giannotti agrediu fisicamente sua então esposa durante uma discussão doméstica, fato revelado pela revista Veja e admitido por ele publicamente. Visto como influente no governo tucano, o filósofo e professor concedeu entrevista ao Jornal do Brasil, em 1995, na qual criticara o liberalismo do PFL e citara expressamente Magalhães, que reagiu acenando com a retomada do caso de violência doméstica.

Sempre presente no debate público, dividia opiniões quanto à sua atuação política, inclusive na Adusp. Em nota, o professor Marco Zingano, do Departamento de Filosofia da FFLCH, afirma: “A ditadura militar tentou destruir sua carreira, mas Giannotti fundou o Cebrap e lá criou um ambiente propício para pensar o Brasil que tanto amava, criando um programa de formação de quadros para tirar o país de seu atoleiro. Jamais cedeu às tentações do poder nem faltou com a verdade por acalentar algum projeto pessoal”.

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