Faleceu na tarde desta segunda-feira (18/5) o professor Marcello Giovanni Tassara, docente aposentado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Tassara tinha 86 anos e foi vitimado por um câncer. A cerimônia de cremação do corpo ocorreu na manhã desta terça-feira (19/5) e foi restrita aos familiares. O docente era casado com Eda Terezinha de Oliveira Tassara, Professora Emérita do Instituto de Psicologia da USP. O casal teve dois filhos, Helena e Felipe, e quatro netos.

Maria Leonor de Calasans
Tassara em evento no Instituto de Estudos Avançados da USP em 2015

A Diretoria da ECA divulgou nota na qual expressa seu pesar pela morte do professor. “Um dos pioneiros nos estudos acadêmicos do Cinema de Animação, Marcello Tassara ingressou no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão (CTR) da ECA em 1969, onde colaborou ativamente para a criação do curso de Cinema. Como cineasta, trabalhou em cerca de 70 filmes de curta, média e longa-metragem, entre eles o documentário O Brasil, os índios e, finalmente, a USP, sobre a história da Universidade de São Paulo”, diz o texto.

“Mesmo após a sua aposentadoria, em 2003”, prossegue a nota, “Tassara continuou exercendo atividades de pesquisa e orientação de projetos. Em 2006, integrou o Grupo Assessor Técnico para a Implantação do IPTV (Internet Protocol Television) – o streaming da USP – para a transmissão ao vivo de eventos da Universidade. A USP foi a primeira instituição da América Latina a contar com este serviço”.

Tassara graduou-se em Física pela USP e em Publicidade pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Fez mestrado e doutorado na ECA e pós-doutorados em várias universidades do exterior. Como professor da ECA, introduziu a área de cinema de animação nos estudos acadêmicos universitários no Brasil. Foi professor visitante na Itália, Espanha, Alemanha e França, além de pesquisador em vários países e consultor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e de outras instituições acadêmicas e governamentais.

Arquivo da família
Diretor realizou produções em curta, média e longa-metragem

Entre os seus trabalhos está o documentário Povo da lua, povo do sangue (1984), montado a partir das imagens da fotógrafa Claudia Andujar. Na época, Claudia coordenava a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), e o filme destinava-se a dar a conhecer ao público aspectos da vida e da cultura dos yanomamis e a defender a demarcação de suas terras. A terra indígena yanomami foi demarcada em 1991 e homologada no ano seguinte.

Nascido na Itália, “escolheu ser brasileiro”, escreve a filha Helena

João Zanetic, ex-presidente da Adusp e docente aposentado do Instituto de Física (IF) da USP, lembra que costumava utilizar em suas aulas de história da física o filme De revolutionibus, sobre a obra de Nicolau Copérnico, produzido por Tassara. “Era um filme muito belo, muito bonito”, disse ao Informativo Adusp.

Zanetic recorda ainda que, por iniciativa do professor Ernst Hamburger, Tassara produziu, ao lado de colegas da ECA como Carlos Augusto Calil, vários filmes didáticos que eram exibidos aos alunos. Os professores do IF preparavam os roteiros e o diretor produzia os filmes em Super-8. “Eu gostava muito dele, era uma grande figura. Sempre que nos encontrávamos, tínhamos conversas muito boas”, completa Zanetic.

“Hoje, meu pai Marcello virou estrela. Foi viver na eternidade das galáxias que ele tanto adorava e conhecia”, escreveu no Facebook a filha Helena. “Menino bonito, nasceu na Itália em berço de ouro e perdeu tudo. Veio para o Brasil órfão de pai aos 6 anos de idade e escolheu ser brasileiro. Brasil que ele tanto amava e pelo qual lutava; estava muito triste e bravo com o que está acontecendo conosco. Conheceu minha mãe, Eda, na Faculdade de Filosofia da USP, onde os dois estudaram Física. Foram namorados únicos da vida inteira, um do outro. Participou da invenção do cinema publicitário em seus primórdios no país, criando filmes, truques e animações desde 1959.”

“Fez filmes experimentais lindos, pouco vistos e muito premiados, alguns perdidos para sempre num incêndio que destruiu a ECA”, prossegue Helena, referindo-se ao incêndio que em outubro de 2001 atingiu o andar superior do prédio central da escola, no qual ficavam os departamentos de Artes, Cinema e Biblioteconomia. “Deixou inéditos livros e contos de ficção científica. Nunca viajou para Cuba, mas desde que seus cabelos brancos começaram a cair por causa da quimioterapia, não tirou mais da cabeça o boné com a estrela vermelha da revolução.”