“Aldir tinha uma originalidade admirável, com uma certa influência do Guimarães Rosa”, diz Luiz Tatit. “Era um grande letrista, com uma habilidade tremenda”. Para José Miguel Wisnick, Aldir “renovou a linguagem das letras na canção brasileira juntando o épico com o trivial, o sublime com o banal, introduzindo o vocabulário prosaico, às vezes antilírico, às vezes propositalmente mórbido, sempre na veia do mundo popular carioca”. Sua morte “representa enorme perda para a cultura brasileira”, diz José Roberto Zan. “Partiu um dos maiores poetas da MPB”, registra Ivan Vilela               

Nesta segunda-feira (4/5) o Brasil perdeu Aldir Blanc, um dos mais extraordinários letristas da música popular brasileira, falecido aos 73 anos. “Partiu um dos maiores poetas da Música Popular Brasileira, vitimado pela Covid-19. Em suas poesias, muitas delas musicadas por João Bosco, também traçou o perfil cotidiano dos subúrbios cariocas trazendo à luz da história a voz e a vida das pessoas humildes que nunca puderam ter seus feitos registrados pela ‘história oficial’, posto esta ter sido sempre contada pelas elites e detentores do poder escrito. E isto ocorre numa nação onde as universidades só começam a existir enquanto um conjunto diverso de saberes intercomunicados a partir dos anos 1930”, comenta no Facebook o professor Ivan Vilela, do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA).

“Aldir Blanc manteve com fina sensibilidade a narrativa em prol dos milhões de alijados do acesso à educação e às benesses advindas do progresso com sua poesia potente e sensível mantendo viva uma das grandes forças da MPB, a de ser cronista de seu povo”, acrescenta Vilela, que é compositor, arranjador e instrumentista de viola brasileira e pesquisador na Universidade de Aveiro. “Sua presença, Aldir, nos toca e agiganta uma das nossas maiores expressões espontâneas enquanto povo forjado no seio da cultura oral, a música popular. Esteja na luz, sempre!”

Reprodução/Facebook
Professor Ivan Vilela

Como definiu seu grande parceiro e amigo, o cantor João Bosco: “Fomos amigos novos e antigos. Mas sobretudo eternos. Não existe João sem Aldir. Felizmente nossas canções estão aí para nos sobreviver. E como sempre ele falará em mim, estará vivo em mim, a cada vez que eu cantá-las. Hoje é um dos dias mais difíceis da minha vida. [...] Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui pra fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e brasileiras tocados por seu gênio”.

“Aldir Blanc era um letrista extremamente carioca, muito arraigado na tradição não só de letristas, mas de cronistas e grandes intelectuais ligados à música que o Rio [de Janeiro] tem. Era do mesmo naipe do Ruy Castro, do Paulo César Pinheiro e do próprio João Bosco, seu grande parceiro. Quase todas as letras que ele fazia são da pena de um cronista. Aliás, ele foi colunista de jornal e era também um grande cronista”, diz Luiz Tatit, professor titular do Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), músico e autor de livros como Análise semiótica através das letras e O século da canção (Ateliê Editorial), em depoimento ao Informativo Adusp. “Aldir tinha uma originalidade admirável, com uma certa influência do Guimarães Rosa, adaptada a uma coisa bem mais popular e ligada à tradição do samba mais requintado, também com influência literária. Era um grande letrista, com uma habilidade tremenda”.

UFRGS
Professor Luiz Tatit

Tatit destaca a importância da principal parceria de Aldir. “O grande núcleo da obra dele é na parceria com o João Bosco, que é um músico fora de série. Como tinha que escrever para aquela melodia ágil do João Bosco, ele conseguia fazer adaptações de acento muito interessantes. O Aldir aproveitava isso para praticar esse tipo de letra que ele gostava de fazer – de situações urbanas, de boteco… Os temas dele são um pouco inesperados. O palavreado que ele gostava de usar tem uma coisa meio rascante, uma letra um pouco mais forte no sentido de que as expressões são de domínio público, mas, com as rimas e as aliterações que ele formava, aquilo ganhava um outro nível. Não era apenas a expressão solta das ruas: ele sabia fazer com que ela tivesse um sentido de letra – e a letra é um pouco diferente de poesia. O letrista não quer ser poeta, quer ser exatamente letrista, porque faz uma coisa para se adaptar a uma melodia”.

“Aldir teve parceria com muitos músicos. Mas às vezes ele fazia uma música só e pronto. Não acho que ele conseguiu com mais ninguém a altíssima qualidade que teve naquele período da década de 1970 com o João Bosco, com canções muito bem feitas e sobre os mais variados temas”.

“É triste saber que perdemos o Aldir Blanc por causa dessa terrível pandemia, que está ceifando vidas de pessoas que fizeram um bem enorme para a cultura brasileira, justamente numa fase em que a cultura brasileira deveria estar sendo não só prestigiada, mas posta em destaque”, conclui Tatit. “Além de tudo o mais, a pandemia vai nos tirando também esses expoentes”.

“‘O bêbado e a equilibrista’ deu voz ao movimento pela anistia”

UFRGS/Renato Mangolim
Professor José Miguel Wisnick

José Miguel Wisnik, professor aposentado de Literatura Brasileira na FFLCH, compositor, ensaísta e autor de O Som e o sentido e Veneno remédio: o futebol e o Brasil (Companhia das Letras), chama atenção igualmente para a originalidade da sua obra, em declarações prestadas ao Informativo Adusp.

“Aldir Blanc renovou a linguagem das letras na canção brasileira juntando o épico com o trivial, o sublime com o banal, introduzindo o vocabulário prosaico, às vezes antilírico, às vezes propositalmente mórbido, sempre na veia do mundo popular carioca. ‘O bêbado e a equilibrista’, parceria com João Bosco interpretada por Elis Regina em 1979, deu voz ao movimento pela anistia e ao coro que clamava pelo fim da ditadura, tornando-se uma dessas canções-hino que marcam a época e se tornam indissociáveis dela. ‘O mestre-sala dos mares’, outro dos clássicos feitos com João Bosco, é uma belíssima e original exaltação a João Cândido, o ‘Almirante negro’ da Revolta da Chibata. Já ‘Incompatibilidade de gênios’, verdadeira pérola da linguagem coloquial tornada canção, tem uma estrutura de miniconto, assim como ‘De frente pro crime’, em que o lugar do narrador que assiste à cena (‘tá lá o corpo estendido no chão’) só se revela no último verso”.

Para Wisnick, Aldir Blanc tem ainda o mérito de “ter posto em palavras as canções que fizeram surgir esse extraordinário compositor carioca que é Guinga. Sua dicção é muito própria, bem característica, mas dificilmente imitável.”

Jornal da Unicamp
Professor José Roberto Zan

Trata-se de “enorme perda para a cultura brasileira”, nas palavras do professor José Roberto Zan, do Instituto de Artes da Unicamp. “Aldir Blanc foi um dos maiores letristas da música popular brasileira. Carioca, médico de formação (com especialização em psiquiatria), boêmio e profundo conhecedor da nossa cultura popular, deixou um amplo repertório de canções em parceria com João Bosco, Guinga, Carlos Lyra, Maurício Tapajós, Cristóvão Bastos e muitos outros”, lembra Zan em depoimento ao Informativo Adusp. “Começou a compor ainda quando estudante, participou de festivais e integrou o Movimento Artístico Universitário (MAU), criado em 1970, ao lado de outros jovens compositores como Gonzaguinha, Vitor Martins e Ivan Lins”.

“Em 1972, sua composição intitulada ‘Agnus Sei’ foi gravada no compacto simples Disco de Bolso do Pasquim nº 1, interpretada pelo parceiro João Bosco. A outra faixa desse disco era nada menos que ‘Águas de março’ de Tom Jobim. Essa gravação contribuiu para o ingresso da dupla no seleto círculo de cancionistas da MPB”, explica Zan. “Naquele mesmo ano, a composição ‘Bala com bala’ foi gravada por Elis Regina, no LP Elis, com grande sucesso. Muitas outras composições da dupla [Aldir e Bosco] conquistaram grande popularidade na voz da cantora nos anos seguintes: ‘Caça à raposa’, ‘Dois pra lá, dois pra cá’, ‘Mestre-sala dos mares’, ‘O bêbado e o equilibrista’ foram algumas delas”.

A maior parte das composições da dupla consta dos álbuns gravados por João Bosco nos anos 1970, lembra o docente da Unicamp, com destaque para Caça à raposa, Galo de briga e Tiro de misericórdia. “São registros de canções que trazem em seus aspectos musicais e poéticos as marcas do contexto cultural e político daqueles anos marcados pela repressão do regime autoritário, o aprofundamento da desigualdade social, a violência e, ao mesmo tempo, pelas múltiplas formas de resistência dos segmentos sociais populares. Aspectos sempre traduzidos de maneira sutil e criativa dentro dos limites da forma canção”.