Em termos corteses, porém duros, a Congregação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) requereu ao reitor Marco Antonio Zago, em carta protocolada na Reitoria em 5/5, a “urgente” substituição do professor Osvaldo Nakao, superintendente do Espaço Físico (SEF), na condição de “principal interlocutor com a comunidade que representamos” e de “responsável pela condução da execução das medidas necessárias” ao enfrentamento dos problemas ambientais da unidade. A Congregação pediu ao reitor, ainda, a “imediata designação de novo interlocutor para a condução desse processo junto às instâncias ambientais da EACH”.

A carta foi aprovada em reunião da Congregação realizada em 28/4. O estopim para o pedido de saída do titular da SEF foram as declarações feitas por ele em conversa com estudantes da EACH, em 9/4 (vide Informativo Adusp 380), as quais a Congregação considerou graves, por desqualificar “a existência dos problemas que enfrentamos, atribuindo-os a uma espécie de conspiração eleitoreiro-partidária”, além de ofensivas “a toda [a] comunidade da EACH, ao Ministério Público Estadual, à juíza que, pautada nas investigações que instruíram a Ação Civil Pública, solicitou a interdição do campus e também às próprias manifestações difundidas pela Reitoria”.

Fotos: Daniel Garcia
Reunião de 6/5 da CPI de áreas contaminadas em São Paulo. Abaixo: reitor deixou de comparecer

Já no início da carta, antes mesmo de citar o incidente que envolveu Nakao, a Congregação mani­festa “profunda preocupação com as sucessivas desqualificações dos graves problemas da EACH, particularmente os advindos do fato de ter sido esta Unidade instalada em local com problemas ambientais preexistentes, agravados por ações de adição de materiais contaminados em 2010/2011”, e lembra ao reitor que ele próprio reconheceu a dimensão de tais problemas, ao referir-se aos “transtornos pelo quais a comunidade está passando” e informar que “junto com minha equipe, tenho me dedicado para minimizá-los no curto prazo, ao mesmo tempo em que busco resolver definitivamente o problema do passivo ambiental que encontrei ao assumir a Reitoria”.

No entender do colegiado, Nakao perdeu as credenciais de condutor e negociador do processo de saneamento e reparação ambiental da EACH: “A responsabilidade pela continuidade de condução desse processo fica, assim, comprometida, se em seu comando permanecer quem manifestadamente desqualifica os problemas que lhe foram designados para resolver e os interlocutores com os quais terá que interagir para a continuidade dessas resoluções”.

Interdição

A Congregação recorda, no documento, que a grave situação ambiental ensejou “a interdição do campus capital leste”, obrigando a unidade a “acomodar nossos cursos de gra­dua­ção e pós-graduação, assim como as demais atividades que desenvolvemos, em pelo menos 14 diferentes lugares, distantes em até 40 km, distribuídos entre as dependências alugadas de uma universidade privada localizada na Zona Leste de São Paulo, as cedidas por outra instituição pública e várias unidades do campus capital da USP, incluindo o Quadrilátero da Saúde/Direito e o Centro Universitário Maria Antonia”.

Após alertar para os prejuízos à qualidade e integridade dos cursos, da pesquisa e da extensão, bem como aqueles sofridos por numerosos estudantes (“problemas ocasionados pelas dificuldades extremas de deslocamento ou pelas despesas adicionais que passaram a ter, com alimentação, por exemplo”), a Congregação ressalta o esforço coletivo de professores, funcionários e alunos da EACH “para conduzir os cursos, as disciplinas que ministram, as pesquisas que conduzem (como podem, em seus próprios domicílios, ou em laboratórios emprestados) e a formação de estudantes de graduação e pós-graduação, a despeito da precariedade e dos problemas que nos foram impostos, como reconhece V. Magnificência, pela própria universidade: ‘Estou certo de que a Universidade não deu a devida atenção às várias advertências encaminhadas pela Cetesb e deixou de tomar as providências que poderiam ter evitado essa situação que hoje enfrentamos’”.

Neste contexto, prossegue a carta, a Congregação entende que as manifestações de Nakao “são particularmente graves porque foram externadas pelo responsável designado por V. Magnificência como superintendente da SEF, para comandar a execução das medidas necessárias à eliminação ou minimização (atualmente em avançados encaminhamentos, como reconhecemos) dos riscos à saúde e à vida humana ainda existentes em nosso campus”. Assim, prossegue, para que o saneamento do campus e as medidas que estão sendo tomadas para reme­dia­ção dos problemas “não sofram qualquer interrupção, impõe-se a substituição daquele que tem sido designado até aqui como o principal interlocutor com a comunidade que representamos, que é também o responsável pela condução da execução das medidas necessárias ao enfrentamento desses problemas”.

Retratação

A Congregação também exige “uma retratação formal e insofismável” quanto às declarações, tanto de Nakao como “das demais autoridades acadêmicas às quais ele se subordina”.

A carta também repudia “inúmeras outras manifestações, veiculadas em diversas instâncias, que desqualificam e/ou desconsideram as particularidades de organização acadêmico-pedagógica não tradicional (sem departamentos) e pautada na interdisciplinaridade, que caracteriza esta unidade da USP, assim como as referências desairosas que não reconhecem a qualidade da pesquisa, da extensão e do ensino que praticamos no mesmo nível de excelência das demais unidades, e insistem em rebaixar essa nossa demonstrada capacidade, com comentários de que a EACH não teria sido criada para promover a pesquisa, deveria restringir-se ao ensino tecnológico e às atividades de extensão universitária na região Leste de São Paulo e, ainda, de que membros de sua comunidade gostariam de ‛voltar para a USP’, como se a EACH não fosse USP”.

A propósito de tais considerações, a Congregação manifestou ao reitor a convicção de que “nem as atividades de Extensão são menos importantes que as de Pesquisa ou de Ensino, nem o ensino tecnológico é menos importante que o ensino científico e nem a EACH foi criada como uma unidade que não deva fazer pesquisa”, motivo pelo qual a USP deve “lutar para que esta unidade da USP não seja considerada menos importante que suas irmãs mais antigas e tradicionais e/ou resisten­tes às inovações que em nossa unidade sabidamente desenvolvemos”.

Até o fechamento desta edição, não tivemos notícia de designação de novo responsável pela condução das questões ambientais da EACH.

CPI sem Zago?

Oficialmente convidado por duas vezes, o reitor deixou de comparecer às sessões da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pela Câmara Municipal para investigar as áreas contaminadas da capital, e que tem a EACH como um dos principais focos de atenção. O vereador Rubens Calvo (PMDB), que preside a comissão, declarou ao Informativo Adusp, ao final da frustrada reunião extraordinária de 6/5 (especialmente marcada para colher o depoimento do reitor), que Zago poderá ser convocado e não mais convidado: “Isso aqui não é um grupo de estudos, é uma CPI”.

Informativo nº 381

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