Disposta a voltar a realizar os saraus que marcaram época na sua antiga sede (na Antiga Reitoria), a Adusp, em parceria com os grupos Ô De Casa e a CasIlêOca, organizou uma homenagem ao poeta, ator, agitador cultural e militante Solano Trindade, no auditório Abrahão de Moraes, no Instituto de Física da USP. Realizado no último dia 2/10, o sarau/espetáculo “Se Tem Gente Com Fome, Dai De Comer!” foi apresentado em três atos, que enfatizaram a militância de esquerda, a defesa do povo pobre e negro e o lirismo da poesia de Solano.

“Foi um desafio achar um caminho para traçar o modelo do espetáculo”, disse Nilu Strang, do CasIlêOca, roteirista e coordenadora geral do espetáculo e que também participou da homenagem ao artista. Ela afirmou ao público que houve, na concepção do espetáculo, o cuidado em pincelar diversos momentos da vida do artista: “Tivemos como opção falar de Solano quando preso, as lembranças que ele deixou registradas na prisão; mas também fizemos um exercício de imaginação: o que teria sido este momento de Solano na prisão? E o que teria ele pensado lá? A gente ficou imaginando quais foram as memórias dele”.

fotos: Daniel Garcia
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O primeiro ato, “Lembranças”, enfatizou justamente as memórias de Solano, segundo a perspectiva dos participantes do sarau. O objetivo era realizar um exercício criativo a partir da obra do artista, resgatando as lembranças do cotidiano e da cultura popular do Recife — cidade onde nasceu e concentrou parte de sua militância — e do ano de 1944, período de sua primeira prisão política. Neste contexto, foram interpretados poemas como “Memória” e “Canção da Minha Cidade”, de autoria de Solano, mas outros artistas foram também lembrados durante a narrativa das recordações do multiartista pernambucano.

Assim, foi possível ouvir “É Doce Morrer No Mar”, do compositor baiano Dorival Caymmi, e “Ave Preta”, versão do professor Marcos Silva para “Blackbird”, dos Beatles. O docente do Departamento de História da FFLCH é um dos membros do Grupo Ô de Casa.

De forma sequencial, o sarau se encaminhou para a “fase carioca” de Solano, período em que vive no Rio de Janeiro e mergulha na militância política e no movimento negro, na década de 1940. “No Rio, Solano encontrava um grupo de intelectuais que se reunia no Café Vermelhinho, em frente à Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no centro da cidade”, conta Nilu, introduzindo “Vermelhinho”, segunda parte do espetáculo e nome dado ao bar muito frequentado por Solano (e pela esquerda) e que lhe permitiu um maior contato com intelectuais e militantes da época.

Na cadeia

Liberto Solano, que segue os passos do pai como escritor, ativista cultural e defensor da cultura negra há mais de trinta anos, protagonizou a apresentação ao público de grande parte da obra engajada de Solano Trindade. Destacam-se poemas como “Tem Gente Com Fome”, de seu primeiro livro Poemas de uma Vida Simples, publicado em 1944 e que levou o poeta para a cadeia, por ordem do general Eurico Gaspar Dutra, e “Convocação” e “O Canto do Trabalhador”, ambos com versos antifascistas.

A terceira e última parte do sarau, chamada “Exaltação”, focou no enaltecimento do povo negro e na intensa participação de Solano Trindade na luta contra o racismo. “Negros”, “Conversa” e “Canto”, poemas de sua autoria, dividiram espaço com canções de Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Noel Rosa.

Merece destaque o protesto improvisado de Liberto Solano que, ao interpretar o trecho final de “Mãe Preta” (“Enquanto a Chibata/ Batia em seu amor/ Mãe Preta embalava /filho Branco do Senhor”), acrescentou: “Ainda continuam as chibatadas, morrem centenas de negros e negras todos os dias no Brasil, [...] ainda dizem que não há racismo nesta terra, onde estão os negros que não estão na universidade?”.

Solano Trindade sempre se preocupou em associar sua militância política ao combate ao fascismo e à luta pela desconstrução dos estereótipos e da submissão do negro. Fundou em 1945, com o amigo Abdias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro (TEN), no Rio de Janeiro.

“Além de ser um grande artista que, entre outras coisas, compôs músicas e poemas belíssimos, como se pôde ver no sarau, a importância de se homenagear Solano Trindade vem da relevância de sua atuação política de defesa dos movimentos negros e da cultura africana”, comentou o professor Ivã Gurgel, da diretoria da Adusp. “Assim, seus projetos ganham grande sintonia com pautas defendidas pela Adusp”.

Informativo nº 408