Editoriais consecutivos de alguns dos principais jornais brasileiros têm batido na mesma tecla, nos últimos dias: os servidores públicos estariam abusando do direito de greve. Em São Paulo, os professores da rede estadual, em greve, estariam produzindo transtorno no trânsito da cidade, fato (?!) duramente condenado pela Folha de S. Paulo. Na mesma toada, o jornalista Elio Gaspari publicou artigo insinuando que é fácil cruzar os braços no serviço público, por não haver desconto dos dias parados.

Coincidentemente, o governo estadual paulista procura derrotar o professorado, após ter sido obrigado a fazer algumas concessões que não frearam a greve (vide Informativo Adusp 262). Disposta a intimidar a categoria, a secretária estadual da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, vem ameaçando cortar os salários dos professores, incluindo gratificações, e liberar a contratação de professores eventuais (que recebem 5 reais por aula dada).

No dia 4/6, os professores precisaram transferir o local de sua assembléia, do Masp para a Praça da República, depois que o Ministério Público Estadual obteve liminar que provocou a mudança. Em síntese, diversos setores do Estado articularam-se para acantonar os trabalhadores do ensino, numa manobra amplamente respaldada pelos jornais conservadores, com o surrado discurso de que não se podem tolerar os “abusos” do direito de greve.

Entende-se que a mídia queira favorecer o governador José Serra, mas o que ela de fato consegue é desservir a democracia. A greve é uma demonstração de protesto contra a longa série de medidas arbitrárias tomadas pela Secretaria da Educação, sem consultar professores e funcionários, para não falar na sociedade. O desprezo de esperar semanas antes de iniciar uma negociação efetiva é a constatação do descaso de vários governos com o serviço público. O professorado decidiu reagir, exercendo um direito previsto na Constituição, e é muito bom que isso aconteça.

 

Matéria publicada no Informativo nº 263

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