Vou começar pelo fim. O fim da vida de milhares de pessoas em decorrência da infecção pelo sars cov 2. O fim da vida de cinco pessoas da Universidade de São Paulo[1].

  •     Jair Alves de Souza, de 63 anos, segurança no Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC);
  •     Manoel Nunes de Souza, 71 anos, segurança no MAC;
  •     Verdy Luis Tibúrcio, 56 anos, estudante de Química;
  •     Marcelo Bittencourt, 68 anos, produtor da Rádio USP;
  •     Carlos Sérgio de Castro Silva (Viola), 43 anos, funcionário da EACH.

Lamento profundamente a morte de todas estas pessoas e presto honras a todos que partiram, a seus amigos e familiares, deixando nossa gratidão como membros de uma comunidade que pôde contar com a colaboração de todos eles. Um minuto de silêncio. Sem a presença de Jair e Manoel na proteção do MAC, sem o sonho de formatura de Verdy, sem o programa Biblioteca Sonora do Marcelo Bittencourt, sem o riso e cantoria do Viola na organização dos materiais do ginásio.

A pandemia Covid-19 afetou o mundo e, como já esperado, ao chegar ao Brasil modificou nosso cotidiano de vida. Nacionalmente, nossos problemas são ampliados por um contexto político conturbado com mudanças de ministros (inclusive o ministro da Saúde) e um Presidente da República  que abala a democracia com ideias como fechar o Congresso e o STF, nega a pandemia e não tem vergonha de pronunciar as palavras “e daí?” diante do aumento do número de pessoas que morrem.

Neste complexo cenário, a USP decidiu seguir o isolamento social e adotou o lema “A USP não vai parar”. Dentre tantos desafios vivenciados neste processo um dos pontos nevrálgicos foi a manutenção dos cursos de graduação e pós-graduação, numa perspectiva inicial de simples transferência das aulas presenciais para aulas virtuais.  A partir deste momento alguns temas passaram a povoar a vida acadêmica: pandemia e EaD. A “USP que não vai parar” impôs uma busca de normalidade e muitos membros da comunidade tentaram se organizar para mantê-la.

A questão é que estamos numa pandemia de grande magnitude que não comporta a mesma normalidade, mas o “não vai parar” foi cumprido por muitas unidades e institutos nos quais as adaptações e programas passaram a envolver docentes e estudantes de modo muito acelerado.

Pandemia no dicionário significa,enfermidade epidêmica amplamente disseminada, mas a palavra é polissêmica, contextualizada, global e local, pode ser plural e singular. Pandemia  do porte do Covid é mais do que uma infecção que pode ser analisada estritamente no campo biomédico. Talvez melhor pensarmos em pandemia como um fenômeno psicossocial que fala de adoecimento, vida, morte, profundas reorganizações sociais, políticas, econômicas, afetivas e cotidianas.

O arranjo inicial que fizemos nas aulas atende a realidade de quem? De uma boa parte de estudantes e docentes sim, e de outra boa parte não. Então fazemos qual escolha? As pessoas ficam doentes, cuidam de velhos e de crianças, enfrentam problemas sociais, econômicos, problemas de saúde física ou mental. Estão distantes de pontos de referência afetiva. Não tem computador, não tem internet, não tem estrutura. As pessoas morrem. As pessoas ficam enlutadas.

Além destas questões, como está o tempo interno/externo de cada um, a produtividade, as condições afetivas para produzir? Como nossa subjetividade é afetada pelas inúmeras e angustiantes imagens e notícias veiculadas pela mídia? Pelo medo da perda de quem amamos, da perda da própria vida? Como somos afetados pelos visíveis limites do planeta e das sociedades com desamparo cotidiano estampado à nossa frente?

Temos que sucumbir e nos entregar a este estado de coisas? Não. Não temos. Entretanto, arquitetar uma realidade inexistente e querer que no decorrer de uma pandemia todos se encaixem é algo muito violento.  E os que seguem, deveriam parar?  Não, não precisam parar, vamos apoiá-los, se para eles é importante manterem um ritmo maior. Só não podemos deixar para trás ou não cuidar dos que não estão seguindo, que são muitos também.  Estudantes, funcionários(as) e professores(as) têm neste momento outra vida, outra rotina. Se queremos continuar isto tem que incluir acolhimento, muita flexibilidade, outro ritmo, muito mais lento, muito mais cuidadoso.

Contudo, se de fato entendêssemos que há uma pandemia, com a gravidade da pandemia que estamos vivenciando, a pergunta que deveríamos fazer é: por que não podemos parar se a vida está em jogo? Porque temos como contribuir para a manutenção da vida, seria a única resposta aceitável. Todo o resto poder-se-á perder e poder-se-á recuperar, em algum tempo, noutro tempo, mas a vida não!

Dar continuidade a pesquisas, especialmente àquelas que contribuem para o enfrentamento da pandemia, manter acesa a chama da vida acadêmica, pensar como colaborar com a comunidade. A questão talvez não seja binária (parar/não parar)  mas sim como sustentar trabalhos e vínculos para superar a estiagem da existência.

Nesta dimensão sigamos! Contudo, por que adotamos o “não vamos parar” como elemento discursivo norteador? Quando me fiz esta pergunta encontrei algumas possíveis respostas e, talvez, todas elas e mais algumas possam estar engendradas na compreensão dos nossos movimentos institucionais.

A primeira resposta tem inspiração teórica na psicanálise: a busca pela normalidade é um mecanismo de defesa que utilizamos quando não damos contar de entrar em contato com a realidade. E a realidade atual é devastadora. Talvez por isso, alguns adotaram a ideia de que estamos em casa, mas tudo segue igual! Economia psíquica, legítima. Manter alguma normalidade para aguentar o desamparo. O problema é que a defesa de alguns passou a ser o ponto de desespero de outros que não conseguem seguir o acelerado ritmo mantido por aqueles que precisam da antiga normalidade que não existe.

Outra possível resposta e que é a USP está preocupada com o olhar externo, as críticas que tentam desmerecer a universidade pública. Neste sentido seus atuais feitos na pandemia estão, felizmente, mostrando a relevância da ciência e da Universidade para a sociedade. Aliás, a pandemia de algum modo serviu, pelo menos para parte das pessoas, repensar o papel do Estado, do SUS, da ciência e das Universidades, que por todo o país têm tido um papel relevante no enfrentamento do desastre coletivo.

Uma terceira hipótese para compreendermos a importância deste enunciado pode estar ligada aos apontamentos de Filordi (2020) em artigo no qual analisa as instituições de educação de ensino superior privadas no contexto da pandemia, mostrando que as universidades particulares “não podem parar” porque se entendem como prestadoras de serviços. Contudo, tal perspectiva entra em confronto com o papel da educação e do trabalho dos educadores, como sinaliza o autor:

Mas educadores não prestam serviço, tampouco são corretores mercantis. Educadores são cúmplices com a vida, com seus desafios, com suas transformações, sua história, ou seja, com as conquistas, os erros, os fracassos e os desafios da longa história humana (...). No privatismo, entretanto, a educação quase sempre se reduz a um propósito comercial, lucrativo, objetivado, logo, não se pode parar. (Filordi, 2020)

O autor comenta ainda que as universidades públicas adotaram posicionamento similar. Faz sentido, especialmente se pensarmos nos argumentos apresentados por Chauí (2014) que aponta o percurso que torna a USP uma universidade  operacional que abandonou seu papel de instituição social e se aproximou de um funcionamento extremamente semelhante ao de grandes empresas capitalistas.

A USP com a mistura da sua porção empresa produtiva, preocupada com a avaliação da sociedade, atuou com uma boa dose de negação da pandemia. Contudo existem muitas USPs dentro da USP e várias unidades foram mais cuidadosas, pensando em um ritmo menos acelerado, buscando argumentos diferentes, observando os limites da realidade trazidos pela própria pandemia, que inviabilizaram a suposta normalidade.

No momento atual, enquanto todos e todas ainda tentam se adaptar, sobreviver, buscar energia para seguir, confrontamo-nos com situações nas quais observamos uma falta de cuidado com a comunidade USP. Além de todas as questões pedagógicas, a “USP-empresa que não vai parar” enfrenta três graves problemas sanitários que podem nos levar ao aumento da lista de mortos apresentada no início deste texto.

O primeiro deles é uma irresponsabilidade sanitária, com a falta de EPIs (equipamentos de proteção individual ) para funcionários do Hospital Universitário (HU). O balanço atual indica que 40 funcionários já foram contaminados, 20 funcionários afastados e 2 funcionários internados no Hospital das Clínicas.

O segundo grande problema do âmbito da saúde é a não dispensa de trabalhadores terceirizados. Entendo que este ponto é complicadíssimo, pois implica questões contratuais, mas sua relevância aparece pelos fatos. Perdemos dois trabalhadores, vigias do MAC e ambos estavam acima tinham mais de 60 anos. Por que estavam no trabalho?  Informações do Sintusp mostram que a empresa não os liberou. Mas a questão é que eles prestavam serviços na USP, estavam conosco e o que temos a dizer sobre isso?

E o terceiro ponto é a fragilidade das respostas ofertadas ao Crusp neste momento. Reconheço a relevância das iniciativas realizadas pela SAS como, por exemplo, entrega kits para melhoria da internet, testagem para corona-vírus, isolamento de estudantes com resultados positivo, distribuição de produtos de limpeza e de máscaras (doadas pela família de uma estudante).

“Estudantes capinaram o quintal do Bloco das Mães do Crusp com medo de ratos e aranhas”

Contudo, a situação do Crusp é muito preocupante. Marmitas estão sendo entregues no Restaurante Universitário (bandejão) da Química. Temos ao menos 4 pessoas infectadas que recebem as marmitas no Crusp, mas têm que buscá-las na portaria (o que implica circulação local de pessoas doentes). Além das máscaras não há nenhuma ação educativa e monitoramento de medidas de prevenção. As pessoas estão com poucos recursos financeiros, não há sistemática na entrega dos produtos de limpeza, falta manutenção dos prédios (cozinhas sem gás, sem bicos nos fogões, sujeira). Estudantes capinaram o quintal do Bloco das Mães com medo de ratos e aranhas (que recentemente estiveram na moradia estudantil). Existem vários problemas de saúde física, mental e relacional. A fragilidade da Internet continua. O Crusp historicamente tem problemas de estrutura, de gestão e de relações interpessoais.  No quadro atual estes problemas emergem associados às necessidades de isolamento e cuidado em saúde.

A precarização do trabalho terceirizado, do hospital universitário e do Crusp antecedem este momento[2].A tentativa de transformação da universidade nos moldes de uma empresa também. O que não conseguimos resolver volta à tona e no momento da pandemia, emerge de modo dramático, por exemplo, com o risco de morte, especialmente dos trabalhadores do HU.

Quais propostas seriam possíveis neste cenário? O que a USP poderia fazer de diferente?

A principio poderia começar criando um comitê de crise que fosse paritário (professores estudantes, funcionários), proposta já apresentada pelos sindicatos,  e desenvolver um  Programa de Apoio a Comunidade no decorrer da pandemia do corona vírus. Este Comitê poderia encaminhar soluções, como por exemplo:

Compra imediata de EPIs suficientes para uso adequado e seguro de todos os profissionais de saúde, todos os funcionários do HU, usuários e acompanhantes. Contratação em caráter de emergência de funcionários (para pelo menos cobrir ausências decorrentes da doença)

O argumento da inexistência de material no mercado não se sustenta diante do fato de que empresas começam a produzir estes produtos. Não deixa de ser paradoxal que possamos contribuir para a invenção de EPIs e não tenhamos o básico para nossos colegas trabalhadores do HU. Além da compra de EPI oferecimento de suporte emocional específico para profissionais de saúde, apoio para profissionais que precisem de isolamento familiar e que estejam doentes.

A segunda proposta seria realmente diminuir o número de terceirizados em postos de trabalho ao mínimo possível e dispensar e negociar com as empresas terceirizadas a não demissão dos funcionários que prestam serviço na USP e são do grupo de risco. Além disto, fazermos doações de máscara de pano para funcionários que usam transporte público e desenvolvermos uma contribuição para educação em saúde para que as informações cheguem para os terceirizados .

O Crusp talvez seja o ponto mais desafiador tanto em termos de problemas como de possíveis soluções. Segundo informações de estudantes no momento temos quatorze famílias (predominantemente mães com crianças) e aproximadamente 400 pessoas no Crusp. O que precisaria ser feito é um plano integrado de cuidado e prevenção em tempos de pandemia, condições estruturais para que possam se manter em isolamento incluindo mediação de conflitos e normas sanitárias e uma proposta de reorganização estrutural do Crusp pós-pandemia.

Este comitê também poderia pensar outras iniciativas de apoio para estudantes professores e funcionários de toda a Universidade que estivessem enfrentando problemas na pandemia. Quantas pessoas já tiveram Covid na USP? Estamos monitorando? Estamos cuidando? Também é importante pensar um fundo para auxiliar famílias que não tem dinheiro para o enterro.

No caso do falecimento do nosso colega Viola, observamos que a família não tinha recursos e buscamos a Universidade para tentarmos pagar o enterro. Eis que a desigualdade entre funcionários e docentes apareceu novamente.

Familiares de docentes têm direito a auxilio funeral, e familiares de funcionários não têm direito a auxílio funeral. Além de situações objetivas como estas, várias ações da Universidade são vivenciadas por membros da comunidade envolvidos  no contexto, como desigualdade, violência, descuido, descaso. 

Como estão se sentindo agora os trabalhadores do HU sem EPIs? O que pensam sobre a própria vida e a vida de suas famílias? Como estão se sentindo os estudantes que vivem no Crusp? Qual medo habita a mulher que atende a criança pelo nome de mãe? (Que ela morra? Que seu filho morra?) Como se sentem os funcionários terceirizados que trabalham mesmo sendo grupo de risco, com medo de perder emprego e se contaminar?

Estas questões importam para a instituição? Estas questões nos importam? Deveriam nos importar? A USP quer fazer diferente?

Poderia responder esta pergunta com outra questão: o cuidado com a comunidade é parte estrutural das concepções de universidade que norteiam o modo de funcionamento da USP?

A USP avalia que cuidado está no âmbito de suas ações? A organização da universidade nos dá pistas de que não. Além de todo o descuido acima relatado, o número de psicólogos e assistentes sociais é pequeno. Os poucos profissionais que temos estão se aposentando e não há reposição de claros. Não temos nem o curso de Serviço Social na Universidade.

Casos de saúde mental e violência de gênero implicam necessidade de cuidado. Qual a resposta institucional? Escritórios! Escritório de Saúde Mental e Escritório USP Mulheres. O lugar do cuidado na USP é o escritório! Ambos tentam resolver alguns casos, mas não desenvolvem nenhuma política institucional de direitos articulados com cuidados.

Na reorganização financeira da USP o que passou a ser considerado dispensável? Hospital Universitário e Creche Oeste! Lugares que em sua tecitura trazem a perspectiva do cuidado.

Discutimos muito questões econômicas e de poder na instituição. São fundamentais obviamente. Mas é importante que em um momento de pandemia como o que vivenciamos  possamos aprender algo com a experiência que abala a humanidade. No mundo, a dependência entre os seres humanos, a partilha de cuidado mútuo e comunitário e os limites do capitalismo e da destruição do planeta emergem como uma reflexão importante.

Tais questões começaram a ser analisadas por vários pesquisadores(as) do campo das ciências sociais e humanas[3], justamente estas ciências consideradas descartáveis pelo CNPq, e do mundo da fantasia pela narrativa que descreve a torre do relógio da USP[4] (coincidentemente erguida em 1973).

Judith Butler contesta que a pandemia venha a gerar uma vida mais solidária

Judith Butler (2020)  é uma destas autoras que apresenta argumentos para desfazer a ideia de que a pandemia é democrática, gerou e gerará uma vida mais solidária dentre os humanos.

A desigualdade social e econômica garantirá a discriminação do vírus. O vírus por si só não discrimina, mas nós humanos certamente o fazemos, moldados e movidos como somos pelos poderes casados do nacionalismo, do racismo, da xenofobia e do capitalismo. Parece provável que passaremos a ver no próximo ano um cenário doloroso no qual algumas criaturas humanas afirmam seu direito de viver ao custo de outras, reinscrevendo a distinção espúria entre vidas passíveis e não passíveis de luto, isto é, entre aqueles que devem ser protegidos contra a morte a qualquer custo e aqueles cujas vidas são consideradas não valerem o bastante para serem salvaguardadas contra a doença e a morte. (BUTLER, 2020, grifos meus)

Nas experiências do HU, Crusp e trabalhadores terceirizados não estamos protegendo a vida a qualquer custo. Não seriam estas vidas passíveis de luto?

Com a situação do enterro do Viola, funcionário da EACH, me lembrei de uma conversa que tive com o João, meu vizinho. Certa noite chegando do trabalho, cansada e com uma crise aguda de dor no nervo trigêmeo, eu o encontrei e começamos a conversar.

No meio da conversa ele me disse: Poxa, eu vejo que você trabalha tanto! Muitas horas por dia, finais de semana, trabalha doente. Não é por aí, você deveria repensar. Se você ficar doente ou morrer a USP não vai se importar. A instituição não tem coração, ela tem CNPJ.

A sabedoria do meu vizinho pareceu se materializar quando não conseguimos, pela burocracia do CNPJ, auxiliar a família do nosso colega Viola no pagamento do enterro. Óbvio que podemos fazer um rateio de despesas (apelidado de vaquinha) mas, enquanto iniciávamos o rateio, a família fez uso da gratuidade do sepultamento. Senti náuseas com o abandono. Este serviço implica um caixão bastante precário. Na realidade, o caixão pouco importa, talvez importe para quem pretende segurar o Lattes estrelado nas mãos cruzadas. Mas cuidado com quem partilhou conosco o trabalho e a vida seria fundamental. Para um CNPJ quais vidas são passíveis de luto?

Na oportunidade da conversa respondi para meu vizinho que a maioria de nós trabalha muito, se desdobra, se envolve em várias lutas para aprimoramento da instituição, porque muitos compartilham a visão da Universidade de São Paulo como um bem precioso da comunidade, um patrimônio material e imaterial da população, um lugar capaz de formar pessoas e com pesquisas e extensão contribuir para a melhoria da sociedade, um projeto de direitos para o tempo presente e herança para o tempo futuro, um projeto de humanidade.

Pode este lugar existir sem direitos e sem cuidados?

A USP não é um bloco monolítico. Em outros momentos e agora neste momento de pandemia observo que, apesar de não ser a perspectiva hegemônica, existem muitos que cuidam, que lutam pela garantia dos direitos humanos. O cuidado pode não ser a norma, mas existe nas brechas do instituído.

Faço um manifesto! A USP deveria aproveitar a pandemia para um momento de inflexão e um compromisso com a democracia, os direitos humanos e o cuidado. Para colocar o cuidado como prioritário na sua agenda. Não há mágica. As desigualdades permanecem e possivelmente permanecerão. Mas podemos e devemos fazer diferente.A USP que não vai parar precisa mudar, precisa cuidar.

Podemos, como sugere Larrosa, nos permitir parar para sentir, parar para pensar e nos afetarmos com a experiência. É experiência aquilo que “nos passa”, ou que nos toca, ou que nos acontece, e ao nos passar nos forma e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação  (Bondia-Larrosa, 2002, p. 25,26).

Temos dever existencial de cuidar das pessoas do HU, das pessoas que trabalham como funcionários terceirizados, das pessoas que são estudantes no Crusp, das pessoas que não conseguem seguir a USP que não para.

Vou terminar pelo começo. O que vem depois da morte? Da dor na travessia no campo dos mortos? Tenho a impressão de que vem uma tarefa de começar a tecer, a bordar novamente a vida. Depois de toda esta experiência, qual vida seremos capazes de tecer? Não sei. Parece que ainda temos que juntar o material que sobrar na sociedade pós Covid-19. O que sobrar de nós, o que sobrar em nós.

Procurar fios, agulhas, tecidos. Fazer o exercício de achá-los nos escombros, no lixo e no esgoto do capitalismo e fascismo neoliberal que destrói as pessoas e o planeta. Buscar as mãos que querem tecer o comum. Não sei o que sobrará nos governos, nos CNPJs, nas comunidades... mas nos corações  haverá alguma resistência, alguma esperança, algum desejo de partilhar direitos humanos e cuidado. Tempos sombrios já nos mostraram esta capacidade.

Não sei o tempo histórico que será necessário para novas tecituras, mas parece-me que ainda podemos escolher seguir na urdidura da vida, fazendo o que nos sugere Toni Morrison (2017): “Dar continuidade ao projeto humano que é permanecer humano e impedir a desumanização e a exclusão de outros.

*Elizabete Franco Cruz é professora da Escola de Artes Ciências e Humanidades da USP (EACH/USP) e membro da coordenação da Rede Não Cala! e do Centro de Estudos e Defesa da Infância da USP (CEDin)

 

Referências

BONDIA, Jorge Larrosa. “Notas sobre a experiência e o saber de experiência”. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro,  n. 19, p. 20-28,  Apr.  2002: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782002000100003&lng=en&nrm=iso. access on  05  May  2020.  

BUTLER ,Judith. “O capitalismo tem seus limites”. São Paulo: Blog da Boitempo, 2020. https://blogdaboitempo.com.br/2020/03/20/judith-butler-sobre-o-Covid-19-o-capitalismo-tem-seus-limites/

CHAUÍ, Marilena. “Desvendando a universidade operacional”. Aula magna para Adusp. São Paulo, 2014:  https://www.adusp.org.br/index.php/universidade2/326-database/campanha-salarial-2014/2076-aula-magna-de-marilena-chaui-desvenda-universidade-operacional

FILORDI, Alexandre. “Por que a educação deveria parar na quarentena”.  São Paulo, Jornal GGN, 2020.https://jornalggn.com.br/a-grande-crise/por-que-a-educacao-deveria-parar-na-quarentena-por-alexandre-filordi/

MORRISON,Toni. A origem dos outros. Seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.



[1] Desde já antecipo pedido de desculpas caso tenhamos outras pessoas que perderam a vida em decorrência da pandemia. Estas foram as informações que obtive até a data da finalização deste texto.

[2] Existem inúmeros registros que mostram a precariedade histórica do Crusp. Dentre eles em 2017 a Rede Não Cala! de Professoras e Pesquisadoras da USP participou em conjunto com estudantes e funcionarias da elaboração de um relatório sobre a situação de violência sexual no Crusp. O relatório foi enviado para as autoridades da USP e medidas não foram tomadas. Adusp, Sintusp, DCE têm apontado problemas do HU, do Crusp e  dos terceirizados.

[3] Autores interessantes como Mbembe, Butler, Preciado, Zizek, Boaventura Souza Santos tem textos sobre a pandemia publicados pelas edições N.1 e pelo Blog da Boitempo.

[4]  No site da USP há uma descrição do que representam os desenhos na torre do relógio: “São doze os painéis dispostos entre as duas placas, seis em cada uma. Os desenhos dos painéis foram feitos em baixo e alto relevo. O lado voltado para o prédio da antiga Reitoria representa ‘o mundo da fantasia’. Já o outro lado, que aponta para a nova Reitoria, simboliza ‘o mundo da realidade’. Ciências humanas e ciências exatas, respectivamente, integradas.”https://jornal.usp.br/cultura/voce-sabe-o-significado-dos-desenhos-na-torre-do-relogio/(consulta em 12.05.2020)