Com a interrupção das aulas a partir de 17 de março de 2020 em virtude da pandemia, instaurou-se um ambiente de incertezas na comunidade discente e docente da Universidade de São Paulo. Desde o primeiro comunicado, a Reitoria da USP já sinalizou pela continuidade das aulas a distância com uso de ferramentas diversas, algumas disponibilizadas pela própria Universidade. O que era, entretanto, uma diretriz, uma recomendação, com o passar do tempo tornou-se uma obrigação e, em pouquíssimo tempo, cursos presenciais tiveram que ser formatados para a modalidade a distância. Professores que nunca tinham usado ferramentas de ensino a distância tiveram que buscar treinamento ou aprender sozinhos como manejar essas tecnologias e buscar uma forma de aplicá-las a seus cursos planejados para serem ministrados presencialmente. Ao corpo discente restava buscar, em suas casas, estrutura para acompanhar tais cursos.

Tudo isso aconteceu de forma expedita, sem planejamentos, sem uma pausa para reflexão. Lamentavelmente o que presenciamos foi uma corrida nas unidades da Universidade para cumprir com o lema “A USP não vai parar” a qualquer custo, com a justificativa de que o país precisará, ao final dessa pandemia, dos milhares de profissionais que se graduarão esse ano. Será mesmo? Será que esse mundo em transformação e que passa por uma situação nunca vivida estará ávido a receber os profissionais formados pela USP, com seus conteúdos intactos, ainda que oferecidos de forma atabalhoada com a adaptação às pressas de cursos presenciais em cursos à distância? Não consigo responder a essa questão, mas não a considero relevante nesse momento, pois há outras questões mais importantes a serem respondidas e que me incomodam muito.

Que recado a USP quer passar aos seus alunos, aos seus servidores e à comunidade em geral com essa forma de ação? Também não tenho respostas claras, mas ouso buscá-las à luz das ações tomadas desde que tudo começou. Internamente vejo uma corrida entre dirigentes, muitos querendo mostrar eficiência e presteza em seguir à risca a diretriz estabelecida pela Reitoria. Dirigentes que, cada qual com sua motivação, tomaram diretrizes como regras e o que era recomendação virou obrigação. No espírito de competição que guia as relações dentro desse sistema que vivemos, muitas unidades definiram suas ações para estar à frente de outras e não decepcionar o “poder central”, afinal há interesses, sobretudo políticos, envolvidos nessas relações.

E qual o recado à comunidade? Em primeira leitura vejo que o recado principal seria o de mostrar que a Universidade custeada por dinheiro público não pode parar, principalmente em momento de crise. No entanto, essa primeira leitura, ainda que tenha sentido, pode se mostrar equivocada se, com uma lupa, enxergarmos o pensamento hegemônico em nossa Universidade. Nessa perspectiva, ouso afirmar, não sem uma pontada no peito, que o recado quer atingir principalmente o “mercado”, aquele “ser” que absorverá a mão de obra despejada pela Universidade. Como citei a meus alunos logo no começo das aulas virtuais “mediadas por novas tecnologias”, considero que essa é uma estratégia de marketing, com recado endereçado ao mercado e indicando que a USP forma operários-padrão para as empresas, aqueles que nunca param, nem nas piores adversidades. O Proletário 4.0 para a nova base produtiva mundial.

Será mesmo que é esse recado que devemos dar aos nossos discentes? Em épocas de crises extremas como essa não seria muito mais importante pararmos para uma reflexão coletiva, com leituras que nos levem a repensar nossas ações como cidadãos e cidadãs? Isso não seria mais útil que a continuidade, a qualquer custo, das atividades “normais”, com oferecimento dos mesmos conteúdos oferecidos como se estivéssemos na mais absoluta normalidade? Em momento que muitos especialistas dizem que o mundo não será o mesmo após essa pandemia, não seria mais interessante que isso fosse discutido exaustivamente com nossos estudantes? No entanto, me parece que a manutenção do calendário acadêmico é mais importante no momento.

Obviamente nem todas as unidades da USP agiram dessa forma e citarei apenas um exemplo que para mim basta: a Faculdade de Educação (FE-USP). Sim, a Faculdade de Educação tomou medidas antagônicas às diretrizes da USP. Repito: a Faculdade de Educação! Por que tanta ênfase? Porque entendo que as maiores autoridades em educação de nossa Universidade pertencem a essa unidade. Porque, em minha opinião, essa deveria ser a unidade mais ouvida e consultada sobre o tema educação. Parece óbvio, não? Não é, infelizmente. De acordo com comunicado do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da FE-USP, as orientações a respeito das atividades acadêmicas explicitaram “uma posição contrária à transformação de disciplinas presenciais em disciplinas a distância, sob o risco de prejudicar os/as estudantes e docentes com dificuldades de acesso à Internet e a qualidade da experiência formativa” (http://www4.fe.usp.br/comunicado-da-direcao-deliberacao-do-cta-20-03-2020, acesso em 6/4/2020). A Comissão de Pós-Graduação (CPG) da mesma unidade também lançou um comunicado com o seguinte teor: “A respeito da conversão de disciplinas presenciais na modalidade a distância, a CPG ponderou que os/as estudantes se matricularam em disciplinas presenciais cuja natureza é bastante diversa de uma disciplina planejada para oferta a distância. Ademais, nem todos/as os/as docentes e discentes dispõem de condições e acesso adequado à Internet para participação online, assim como a sala pró-aluno permanecerá fechada. Salienta-se. entretanto, a importância da manutenção do vínculo entre alunos/as e professores/as, o que pode acontecer pelo contato frequente por e-mail, sugestões de leituras, atividades programadas, etc., sem que isso represente a substituição da carga horária presencial” (http://www4.fe.usp.br/wp-content/uploads/untitled-03192020-172241.pdf, acesso em 6/4/2020). Mais claro impossível. Por que a USP não ouve a sua unidade que entende, ensina e pesquisa educação? Essa, para mim, é a pergunta mais desconcertante e sinceramente não encontro nenhuma resposta lógica.

Como docente da USP, comprometido com minhas atividades de ensino, pesquisa e extensão na Universidade, me sinto bastante desconfortável com toda essa situação e com a condução que vem sendo dada em relação ao ensino, principalmente de graduação. Em ensino, especificamente, entendo que minha função é auxiliar na formação de cidadãs e cidadãos engajados política e socialmente, conscientes de suas responsabilidades na sociedade, principalmente em um país com tamanha desigualdade social como no nosso. Temo que com essa ação, que preza por despejos de conteúdos a qualquer custo, sem reflexão profunda do momento crítico que nosso planeta tem vivenciado e que despreza minorias que não possuem ferramentas e condições de acompanhar o ensino a distância (planejado às pressas), estejamos dando um recado muito ruim para nossa comunidade universitária e para a sociedade, principalmente para nosso corpo discente.

A propósito, com a justificativa de proteção dos estudantes que não conseguirem acompanhar, por qualquer motivo, as aulas virtuais, a Universidade estendeu o prazo para trancamento da matrícula. Temo, entretanto — e é com muito pesar que me permito assim pensar — que tal medida visa eliminar do processo aqueles e aquelas que se perderam no caminho do mundo do ensino virtual, sem traumas, sem regimes excepcionais de recuperação, sem possíveis processos judiciais. Uma medida conveniente para o sistema implantado.

Como já citei antes, especialistas afirmam que, após a pandemia, o mundo será diferente. Como a USP contribuirá para essa construção? Olhará o velho mundo e se orgulhará de ter passado por essa transição sem ter perdido um dia sequer de aula, sem ter deixado de ministrar um único conteúdo a seus estudantes? Ou se orgulhará de ter usado a “oportunidade” para mostrar que aprendeu novas técnicas de ensino virtual ou, como preferem, mediado por tecnologias? No novo mundo pós-pandemia caberá essa USP?

 

*Marcelo Zaiat é professor titular da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP)