No dia 13 de março de 2020, enquanto todos os colégios e boa parte das universidades públicas e privadas em São Paulo já tinham suspendido as aulas presenciais, a Reitoria da USP soltou um comunicado para docentes, funcionários e estudantes colocando-se na contramão de outras instituições, e chamando de “medidas populistas, normalmente ineficazes” a suspensão de atividades presenciais que boa parte da comunidade reclamava, e que já tinha começado a praticar sem autorização. No mesmo comunicado, que ainda pode ser lido na página da USP,  a Reitoria determinava que estavam mantidas reuniões e aulas “com público [sic] menor que 100 pessoas”, propondo um número arbitrário que, por sabe-se lá quais critérios, impediria o contágio.

Dava a impressão, naquele momento, como em outras decisões oficiais já conhecidas sobre (não) reposição de docentes, PIDVs, HUs, etc. de haver duas Universidade(s) de São Paulo. Uma, a que pesquisa, procura precisão nos dados, desenvolve reflexões de fôlego que lhe significam reconhecimento nacional e internacional em todas as áreas, Humanidades incluida. Outra, a que surge quando se fecham as portas das “reuniões de dirigentes”. Ali não se percebe pensamento crítico, nem ciência em qualquer uma das suas formulações, e ganha lugar a operacionalidade empresarial, a casuística, e assim, abracadabra, aparecem cifras, como a que determinava que menos de 100 não se contaminam, mais de 100 sim.

Naquela ocasião, a especulação numerológica foi cancelada no mesmo dia por uma força externa (mas nada oculta): o governo do Estado simplesmente encerrou por decreto as aulas das universidades estaduais. Porém, 24 dias depois, ontem, 6 de abril, no denominado “Quinto Comunicado” da Reitoria, as “duas USP” reaparecem. Uma, como relato, outra, como a voz que fala.

O comunicado mostra um compreensível entusiasmo porque se evidencia, como poucas vezes antes, que a nossa universidade é respeitada “pelas autoridades, pela grande mídia e pela população em geral”. Também agradece os esforços que todos estamos fazendo para manter o contato acadêmico com os estudantes, muitas vezes com ajuda dos estudantes mesmos, para manter a orientação, as bancas, a pesquisa e as tarefas administrativas. Merecemos esse agradecimento, porque realmente estamos fazendo muita coisa em meio a dificuldades e incertezas. Mas essa outra USP de pensamento mágico reaparece quando chega a hora de nos convencer da solução que a Reitoria teima em impor para o ensino de graduação: a transformação do semestre letivo em andamento em um semestre de aulas a distância, quase sem alterações no calendário.   

Introduzidas como se apenas fossem informações avulsas em uma carta de congratulações, a Reitoria traz afirmações que configuram um plano para o encerramento do semestre e do ano letivo como se estivéssemos em uma situação em que o ensino remoto conseguiu eficazmente substituir o presencial e ainda sobrepor-se às consequências práticas da crise sanitária, que para tantos especialistas está apenas no começo. O reitor escreve: “Na parte de ensino, tenho a satisfação de constatar que quase 90% das disciplinas de graduação com abordagem teórica ou teórico-prática estão sendo oferecidas, utilizando-se da tecnologia e da criatividade de professores e estudantes. As dificuldades iniciais vão sendo superadas a cada dia. O problema de alguns alunos em conseguir acesso à Internet será minimizado com a distribuição programada de modens e chips para celulares, alugados pela Universidade.” Ora, o que significa essa “constatação”? Na sua própria enunciação já é contraditória, dado que se o problema de “alguns alunos” “será minimizado” é que ainda não foi.

Porém, o pior não está nessa exceção de “alguns”, mas na falta de embasamento para afirmar que 90% das disciplinas estão sendo oferecidas. Será outro número aleatório, como aquele do limite de 100 para a contaminação, formulado em 13/3? A Reitoria tem farta informação para ponderar que esse 90% não é real. Por uma parte, quatro unidades (FE, FAU, IP e IAU-SC) já anunciaram oficialmente que não substituirão as aulas presenciais por aulas a distância, e que as atividades remotas que mantêm com os alunos não substituem o calendário, pelo menos por enquanto. E em uma das maiores unidades, a nossa Faculdade, departamentos inteiros e/ou áreas inteiras informaram decisões semelhantes, coisa que dificilmente a Reitoria ignore. Se a base para esse “90%” é a observação das disciplinas no Moodle, esclareço que na minha, como nas de muitos colegas que conheço, há bastante interação, mas não considerada como aula, nem anunciada assim aos alunos. Em outras unidades que não se manifestaram como tais, a conversa com professores (eu conversei com vários da EACH, do IME, da FSP) mostra que aquilo que a Reitoria pode supor como “disciplina sendo oferecida” são, em verdade, em áreas inteiras, formas de contato assíncrono semelhantes às que são realizadas nas unidades e departamentos que já declararam não estar oferecendo disciplinas a distância, e que a diferença seria apenas a de não dar nome à coisa.

Esse 90% de suposto oferecimento, combinado com ousadas certezas temporais, prefigura um plano para o semestre, esboçado no mesmo comunicado. No terceiro parágrafo, lemos que “A superação neste momento de intensa crise acontece sem deixar de dar continuidade às atividades letivas e culturais...” Não apenas já estaria acontecendo a superação de um “momento” (será que algum epidemiologista empregaria essa denominação?), como também, enquanto dura o “momento”, as atividades letivas, isto é, as que são objeto de calendário, estariam em plena continuidade. Tanto é assim que, no sétimo parágrafo, afirma-se: “os esforços na área do ensino têm grande repercussão na sociedade e na carreira de nossos alunos ao reduzir o período de recuperação e evitar o risco de perda do ano letivo. Certamente, ao sairmos desta crise sem precedentes, a sociedade necessitará de profissionais competentes e a USP estará mais uma vez presente, inserindo no mercado de trabalho seus 15 [mil] a 16 mil formados de 2020. No que tange ao vestibular 2021, o calendário será mantido”.

O que isso significa, na prática, é tentar impor que, de um modo ou de outro, o semestre seja encerrado com uma recuperação presencial ínfima, independentemente do que cada unidade ou departamento tenha feito, ou mesmo sem nenhuma recuperação ou avaliação presencial, já que, como diz o comunicado no início, e como a esta altura toda pessoa informada sabe, não pode haver “data definida” para o final do isolamento, menos ainda para a presença massiva em espaços como salas de aula. A afirmação de que, nessas condições, 15 mil ou 16 mil deverão formar-se, como em qualquer ano e, mais ainda, de que o vestibular será realizado já beira a  futurologia ou a astrologia. Podemos ter realmente tanta certeza de que o vestibular será mantido? Não me refiro ao desejo, mas às condições objetivas.

Alguém sabe como será novembro, mês das provas, no país? Até onde e em que medida será possível o deslocamento em massa? A saída do isolamento será mesmo voltando às condições anteriores? Será sem idas e voltas? É possível um vestibular on line? Ou como seria adaptada sua aplicação para salas em que se guarde distância mínima de 1 metro, se essas forem as condições? Se essas interrogações podem parecer “exageradas”, creio que mais aventureiro ainda é ver universidades, transportes e instituições de ensino em geral funcionando plenamente daqui a seis meses. Quando ainda nenhum país saiu plenamente da pandemia, tal “visão” tem a confiabilidade, desculpem, da de uma bola de cristal.

Enfim, essa voz que nos interpela com certezas aleatórias é, em primeiro lugar, enganosa, esquiva, não comprometida com um diálogo franco.  Emprega a forma genérica e a cenografia de uma carta de congratulações para anunciar, de fato, um plano para o semestre e o ano letivo. Mobiliza o senso de dever e de cidadania que sabe que todos portamos, ao dar como exemplo a pesquisa nos laboratórios e o trabalho da área da Saúde, mas para motivar uma autopercepção de leniência ou de desleixo de quem não está no suposto “90%” que daria conta do semestre letivo on line. Diante dela, é necessário mais do que nunca alçar a autoestima por tudo que trabalhamos, e temos trabalhado cada vez mais, para dar conta dos cursos e de todas as atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão mesmo com a redução do quadro docente e de funcionários que experimentamos desde 2014. Não aceitar a sugestão, que subjaz ao comunicado, de que quem não está desenvolvendo o calendário com aulas a distância estaria isento do time dinâmico, audaz, empreendedor, empático e juvenil que é objeto do agradecimento.  

Precisamos realçar a autoestima pelas atividades remotas que efetivamente adotamos, já que dá muito mais trabalho a atividade assíncrona no Moodle, que efetivamente pode vir atingir todos os alunos, mesmo que seja em um tempo maior e mais lento, do que uma aula online para menos da metade dos matriculados. E mesmo essa aula dá muito mais trabalho se a damos de  modo não obrigatório, sabendo que depois teremos que fazer outra coisa com a metade que não pode assistir, do que fazer de conta que o calendário está sendo cumprido apenas porque a demos.

Essa interpelação do comunicado é também violenta, já que desconsidera decisões públicas de unidades e de departamentos, baseadas em razões tanto pedagógicas como no conhecimento do seu corpo discente, e prefigura uma situação humilhante em que esses colegas, seus chefes e diretores, tenham que encerrar o semestre às pressas, desautorizados diante de seus alunos e de modos pouco dignos. É violenta porque fecha os olhos para problemas que vão muito além de se o estudante tem ou não acesso a Internet. Para que realmente “90%” das disciplinas estejam sendo oferecidas, temos que supor que esses estudantes não apenas têm acesso a Internet, mas dispõem, nas atuais circunstâncias, de um espaço na casa onde assistir aulas um período inteiro de segunda a sexta. Isso sem contar com tudo que pode surgir na vida de uma ou de muitas pessoas no meio a uma crise humanitária, situações que estamos percebendo todos que mantemos atividades remotas com nossos alunos.

E, por último, essa voz da USP soa, nesta altura, pouco previsora, para dizer o mínimo. Sequer dentro da sua lógica de resultados parece estar prevendo que a dinâmica da pandemia já não é vista no mundo igual que um mês atrás.  A possibilidade de que a saída do isolamento seja uma volta imediata, ou mais ou menos imediata, ao que conhecíamos do cotidiano de uma universidade de massa como a nossa parece cada vez mais remota. Não temos, ainda, a experiência de um país que tenha saído plenamente do isolamento, mas vários epidemiologistas sérios estão falando de um período de um ou dois anos de fluxos e refluxos, em que países podem ter que adotar modos gradativos de circulação, evitando aglomerações e mantendo distância preventiva entre pessoas, alternados com períodos de circulação mais livre. Isso pode lentificar alguns processos produtivos, ou ter que desenvolvê-los em outras condições. E pode significar que, efetivamente, por mais de um semestre, talvez por mais de um ano, o componente remoto tenha que ser parte substancial do ministrado das disciplinas e que todos tenhamos que nos adaptar a isso.

Mas isso significa buscar e qualificar, como muitos já estamos buscando sem a ansiedade de “formar já” nossa parte dos “15 mil ou 16 mil”, os modos de trabalho remoto que realmente podem abranger todos os nossos professores e alunos, mesmo que seja de forma escalonada. É algo bem diferente da corrida de “dinamismo” sem parar que a Reitoria pôs em andamento como quem larga um edital de concorrência. E desde já, por ser um dos que estão trabalhando remotamente (e nem remotamente pensando que isso é, por enquanto, cumprimento do calendário), creio que a forma privilegiada e mais igualitária tende a ser assíncrona e com avaliações presenciais quando for possível. Não seria a hora de estar pensando nas múltiplas implicâncias práticas dessas possibilidades, em vez de vivermos com a ilusão de que o semestre está em andamento em 90%, apenas interrompido pelo não acesso a Internet de “alguns”? Não teríamos que pensar como se organizariam as avaliações presenciais, ou até determinadas aulas, em hipóteses de que continue havendo recomendação de não ocorrerem aglomerações? Ou como seria uma universidade sem restaurante estudantil por um tempo? Se realmente o melhor é que todos os alunos que saíram do Crusp retornem logo que o isolamento terminar?

Isso tudo pode lentificar, isto é, não fazer perder, mas fazer mais lento tanto o semestre como o ano. Pode significar que uma parte o termine antes e tenhamos que ir recuperar aqueles que não chegaram para não causarmos uma hiperconcentração no semestre seguinte. Será que o melhor nesse contexto é já antecipar que haverá um vestibular que trará uma nova leva de estudantes para essa condição excepcional? Provavelmente não seja o momento de anunciar decisões de cancelar o vestibular, mas é acaso o momento de anunciar sua manutenção, como está fazendo a Reitoria? Que função prática pode ter esse anúncio, se não contribuir para uma percepção de que tudo se encerrará inexoravelmente ao ritmo do suposto “90%”?

Poderíamos estar planejando essas alternativas todas, sobretudo buscando o momento de ponderar que as atividades remotas realmente podem incluir todos, e tentando determinar os modos e tempos de avaliar, assumindo que uma pandemia e uma crise humanitária fizeram mais lentos — não menos trabalhosos, não é aceitável qualquer pecha de “encostado” para quem trabalha duro olhando o que acontece em torno! — nossos processos. Mas a fobia a qualquer ideia de lentidão pode nos levar, contraditoriamente, a que o processo trave por colidir com as condições reais, ou a que deixe tanto “produto” fora que tenha que ser reiniciado sem planejamento.


*Adrián Pablo Fanjul é professor associado da FFLCH