A emergência do novo coronavírus (Covid-19) tem exigido respostas de governos e da sociedade civil em escala global. Quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência de importância internacional, em 29 de janeiro de 2020, reconhecia que não poderia haver resposta eficiente sem o engajamento de diversos países e dos órgãos multilaterais. As soluções que têm sido apresentadas mundo afora, assim como no Brasil, muitas vezes são autoritárias e cabe à comunidade científica, com destaque às universidades, produzirem conhecimento para ampliar a compreensão deste fenômeno e subsidiar as melhores decisões no diagnóstico, no manejo clínico, e nas medidas de proteção individuais e coletivas.

A Universidade de São Paulo (USP) não tem sido indiferente à pandemia. Temos aqui equipes da mais elevada competência que têm produzido conhecimento, tanto em relação à análise quanto sobre as intervenções. Entre as atitudes positivas, podemos enumerar as publicações em revistas de referência em medicina, ciências biomédicas e saúde pública, o sequenciamento genético do novo coronavírus no Brasil, o engajamento para o desenvolvimento de ventiladores mecânicos e equipamentos de proteção individual (EPIs), os protocolos de pesquisa clínica, desenvolvimento de vacina, entre muitas outras ações, com particular destaque à oferta de 900 leitos pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), com a reorganização do serviço que assume a responsabilidade de ser referência para os casos mais graves em São Paulo.

Em contraste com as ações positivas elencadas, os profissionais receberam com consternação o comunicado sobre o funcionamento do Hospital Universitário (HU), no qual o reitor Vahan Agopyan afirma que o HU é um hospital “livre de Covid-19”, baseado na Portaria 1.046/20, da Superintendência do HU. Nesse documento, o superintendente inaugura a expressão “hospital livre de Covid-19” e proíbe a nós, médicos do Hospital Universitário, a solicitação de exames de diagnóstico como tomografia computadorizada e RT-PCR, além de bloquear internações de pessoas com suspeita de coronavírus no HU (seriam todos transferidos ao HCFMUSP).

Essa portaria é questionável do ponto de vista ético, por proibir os médicos de utilizarem meios tecnicamente reconhecidos para diagnóstico e posteriormente, terapêutica. Além disso, afronta o princípio da bioética de não-maleficência ao não permitir o diagnóstico e impor transferência ao HC de pessoas que podem não ter Covid-19, mas doenças pulmonares e cardíacas crônicas, expondo os pacientes sob maior risco de evolução grave e morte a contraírem a doença. O documento também não leva em conta a curva epidemiológica em fase de crescimento exponencial, fazendo com que o HU possa contribuir com a superlotação precoce do HC e o colapso na capacidade de resposta do Estado de São Paulo.

Se a USP acerta ao buscar uma organização do atendimento em rede, com o HU dando suporte às clínicas do HCFMUSP que precisam ser realocadas, erra ao declarar que esse hospital é “livre de Covid-19”. Essa ideia é conceitualmente frágil, em primeiro lugar porque, em tempos de pandemia, a OMS entende que o vírus se transmite difusamente nos diversos territórios e adota ações para mitigar a sua disseminação, não mais impedir. Além disso, São Paulo é o epicentro da pandemia no Brasil, sendo a zona Oeste a região mais acometida, logo, não seria possível que o seu hospital secundário de referência fosse “livre de Covid-19”. Aliás, neste momento, nenhuma unidade de saúde desta cidade poderia fazer tal afirmação. Mas, principalmente, essa afirmação é factualmente inverídica porque eu e os demais profissionais, que atuamos na emergência e na terapia intensiva do HU, podemos afirmar que atendemos casos suspeitos ou confirmados de Covid-19 todos os dias.

Merece também destaque a afirmação do reitor que diz que “nesses setores de saúde, ou se vira as costas à missão de salvar vidas, ou se mantêm as atividades presenciais”. Levando em consideração que os profissionais de saúde são proporcionalmente os mais acometidos por Covid-19, sendo cerca de 15% dos casos na Espanha, por exemplo, ao manter pessoas com fatores de risco expostas quem vira as costas à missão de salvar vidas é o próprio administrador. Principalmente porque a USP fechou o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) em plena crise, quando muitas outras instituições transformaram seus serviços de saúde ocupacional em local de acolhimento e cuidado dos profissionais com suspeita ou confirmação de Covid-19. Se não há possibilidade e nem é desejável uma licença irrestrita, é razoável abrir uma linha de diálogo que enseje cuidado e respeito com quem está na linha de frente.

Não podemos ignorar o déficit de profissionais no Hospital Universitário por ação da própria Reitoria, que resultou no bloqueio de mais de 20% dos leitos de internação, inclusive 40% dos leitos de terapia intensiva. Esses ainda não foram repostos mesmo com emendas parlamentares de orçamento que destinam verbas para o HU com valores que passam de R$ 108 milhões nos últimos três anos. Em vez de produzir portarias e notas como essas, a administração poderia promover concurso público para a recomposição do quadro funcional do HU e reabertura de todos os leitos bloqueados, além de reestruturar o SESMT para garantir força de trabalho para o enfrentamento da pandemia.

Ninguém estará livre da Covid-19 por decreto, a superação desta pandemia só será possível com a colaboração dos diversos agentes do Estado e da sociedade civil. Que a Reitoria da USP ofereça o melhor para o povo por meio do conhecimento, não pelo arbítrio. Pela ciência, venceremos.

 

*Gerson Salvador é infectologista, médico do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp)