As universidades produzem pesquisa científica na longa duração. Os resultados das pesquisas, que podem nos ajudar no enfrentamento dessa pandemia, hoje ou amanhã, começaram a ser produzidos há algum tempo e sofreram o impacto do corte de verbas destinadas à Educação, à Ciência e à Tecnologia no Brasil.

Antes de terem o dever de prosseguir com suas atividades, as universidades têm compromisso com a Ciência, bem como com todos os que anseiam que o conhecimento científico ajude a minimizar injustiças, desigualdades e outras tantas mazelas que afligem especialmente os mais pobres.

Esse compromisso fundamental e o objetivo de proteger e salvar vidas deveriam levar as universidades a suspenderem todas as atividades presenciais para preservarem sua comunidade — incluindo os “terceirizados” — e a sociedade em geral. 

A continuidade das atividades de pesquisa nas universidades deve se dar como exceção a essa suspensão geral, ou seja, apenas em caráter excepcional, e sob todos os cuidados sanitários.

A USP precisa parar agora para poder continuar com suas atividades assim que for possível.

É certo que há pesquisas em andamento que demandam acompanhamento e cuidados diários que não podem ser interrompidos, nem postergados. Tais pesquisas específicas, identificadas e monitoradas por um comitê específico Covid-19, devem ser tratadas como atividades excepcionais, que não se submeterão à suspensão geral.

As atividades nos Hospitais Universitários, diretamente relacionadas à pandemia e à assistência pública médica e odontológica, também não podem ser interrompidas.

A formação de pessoas prosseguirá, certamente, mas na medida do possível, à distância, sem atividades presenciais, o que é perfeitamente razoável em algumas áreas de conhecimento, e dificílimo, quando não impraticável, em outras.

A suspensão de atividades não significa que as universidades, seus docentes-pesquisadores, seus pós-graduandos, seus estudantes e seus funcionários técnico-administrativos não estarão empenhados diariamente nas campanhas de conscientização da população e nas ações solidárias de apoio e esclarecimento. 

Suspender atividades não significa omissão nem alienação frente à pandemia provocada pela Covid-19 e suas inúmeras consequências.

O grande esforço institucional que é preciso fazer diz respeito ao entendimento da excepcionalidade das circunstâncias atuais que demanda alterações de procedimentos, rotinas, calendários e prazos para preservar pessoas, salvar vidas, para que em momento futuro — próximo, esperamos — possamos voltar aos campi, às unidades, às salas de aula.

Em todas as áreas será imprescindível efetuar adaptações. Os procedimentos presenciais de acompanhamento e cuidado de pesquisas em andamento nos campi, e o atendimento hospitalar à população devem ser realizados sob outros protocolos especiais de enfrentamento da Covid-19.

Há, portanto, a necessidade de adoção de outras formas de proteção individual, outro tipo de transição entre a vida privada e os laboratórios e hospitais, outros gestos, cuidados e práticas cotidianas. O atendimento hospitalar, por exemplo, não se restringe à Covid-19, mas se dá conjuntamente com o cuidado de outras doenças, procedimentos, partos, aplicações de medicações e socorro a acidentes que continuarão a ocorrer e demandam intervenções sem interrupção.

É fundamental, então, distinguir quais são as atividades da área da saúde nas universidades que não podem ser interrompidas ou contingenciadas, pois há outras que devem ser suspensas, justamente para preservar a saúde de todos.

Assim como é importante distinguir quais serviços de apoio aos laboratórios e técnicos, de apoio aos hospitais e funcionários da saúde são imprescindíveis, para que todos os demais serviços possam ser suspensos.

Não há dúvida de que será necessário adaptar a rotina de alimentação nas universidades, para aqueles que prosseguirão trabalhando nessas frentes excepcionais e para os estudantes carentes que habitam tais locais. Cabe, no entanto, refletir se o melhor é que os RUs (Restaurantes Universitários) tenham suas atividades reduzidas ao apoio mínimo indispensável, e nada além, ou se há outras formas mais seguras para garantir a alimentação de tais funcionários e estudantes. 

Vale a mesma reflexão para a segurança e a limpeza: a redução ao mínimo indispensável.

É nítido que há um esforço coletivo, enorme, dentro e fora das universidades, para tomar decisões acertadas nesse momento e colocá-las em prática de forma responsável. Esse esforço deve ter uma prioridade clara: preservar pessoas e salvar vidas. O que leva a uma revisão da diretriz de que “a USP não vai parar”.

A USP precisa parar para poder continuar.

As universidades precisam assumir e difundir uma posição condizente com as recomendações científicas e os procedimentos sanitários adotados nos locais que enfrentam outros estágios da pandemia. Na contramão do anticientificismo, a postura das universidades, nesse momento, deve ser inequívoca e referencial. Afinal, as universidades públicas têm sim o dever de orientar o país inteiro. Várias outras instituições de ensino e a sociedade em geral esperam esse referencial para tomarem decisões. Cada dia importa e faz muita diferença. Há urgência. É melhor que essa revisão seja feita ainda hoje.

 

Artur Rozestraten, livre-docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Artigo finalizado pelo autor em 21/3