O trabalho docente mudou de modo muito relevante após os anos finais do século passado e transformou o tempo lento, da reflexão longa, em um tempo curto de resposta às demandas de um mercado educacional ávido por novos produtos e consumidores que habitassem os mais dilatados rincões do planeta.

O ensino à distância, conhecido como EaD, foi esse novo vírus que infectou, de maneira definitiva, os protocolos das práticas docentes e estabeleceu o trabalho online a qualquer hora do dia ou da noite.

A partir daí, da existência desses meios quase mágicos de levar educação a milhões por intermédio de uma câmera, ficou fácil imaginar pacotes escolares inteligentes, exercícios que coubessem em formato digital, certificados virtuais, conhecimento acessível em larga escala pela rede no modo sirva-se você mesmo.

A experiência da docência a distância pode resultar numa imensa pobreza, tal como relatara Walter Benjamim acerca dos soldados que voltaram da primeira guerra mundial, em que vigoraram as trincheiras e a partir de onde não havia muito o que contar. A nossa guerra de trincheiras tornou-se agora a exigência de ensinar os outros por intermédio de uma tela e uma série de ferramentas maravilhosamente inteligentes, que deveríamos adotar como se adota um manual de sobrevivência.

A docência em plug é como uma matrix em que seu corpo está vinculado, ligado, conectado. As respostas que os docentes devem oferecer são imediatas, sob o risco de serem desligados de seus empregos cada vez mais precarizados ou de sofrerem punições por não se adaptarem à estratégia stand-by de colocarem todo o tempo de suas vidas à disposição dos estímulos de conexão imediatos à máquina, à matrix.

A docência que alguns concebem como démodé também exigia trabalho diuturno, inclusive em casa, com estudos demorados, investigações que podiam exigir muitas horas sem dormir, processos de escrita que se estendiam por meses, preparação de aulas com certo grau de erudição. A diferença é que essa docência tinha como princípio certa artesania e estava integrada à autonomia de realizar o trabalho intelectual com relativa liberdade, liberdade que pressupunha uma outra experiência espaço-temporal.

Em todo esse conjunto de mudanças na atividade docente, houve aquelas que tornaram os docentes responsáveis não apenas pelas atividades-fins de ensino, pesquisa e extensão, mas também pelas atividades-meio, tendo que cuidar agora de preencher incontáveis relatórios burocráticos, que antes eram preenchidos por funcionários que foram sendo demitidos das instituições universitárias. Mas os docentes também foram sendo obrigados a aprender a ser espécies de analistas de bolsas de valores, disputar editais, realizar a parte contábil de seus projetos, administrar complexos processos burocráticos de gestão de pessoas e recursos.

Em certa medida, desviados de função, os docentes passaram a realizar uma enormidade de tarefas, atividades e funções que podem ser consideradas tudo, menos docência.

Agora que uma pandemia se encontra em curso, deixando um rastro de mortos por onde passa, parece que se abriu em definitivo uma “janela de oportunidades”, como disseram cinicamente alguns corretores de bolsas de valores quando o vírus explodiu na China, para que a docência se torne uma espécie de atendimento home care via home office.

A exemplo de Toritama o trabalho docente não pode parar, os calendários escolares não podem ser suspensos para que enfrentemos a pandemia, sejamos solidários ou contribuamos para que o pior não aconteça. Devemos esperar o Coronavírus passar como se fora uma alegoria carnavalesca enquanto vestimos nossa fantasia docente à distância.

 

Manoel Fernandes de Sousa Neto, professor associado do Departamento de Geografia da USP. Segundo-secretário da Adusp