Multiplicam-se os apoios acadêmicos ao professor Marcos Sorrentino, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), de Piracicaba, alvo de uma Comissão de Sindicância criada a propósito de atividade de extensão universitária que promoveu com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O caso, divulgado pelo Informativo Adusp 443, cuja versão digital foi ao ar em 1º/11, vem obtendo grande repercussão fora da USP e, mesmo, fora do Brasil.

Um dos primeiros a manifestar apoio a Sorrentino foi Hugh Lacey, professor emérito do Swarthmore College (EUA) e co-coordenador do Grupo de Trabalho na Agroecologia do Grupo de Estudos em Filosofia, História e Sociologia da Ciência do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), onde atuou como professor visitante em 2016. Em mensagem enviada a Sorrentino, Lacey elogiou o colega e o evento que organizou, o qual a seu ver “não só é relevante para a educação sobre a agroecologia e seus movimentos, mas também bem dentro dos limites da prática acadêmica normal que não precisa receber permissão explícita das autoridades da universidade”.

Outro que expressou repúdio à sindicância e “total solidariedade” ao professor da ESALQ foi o professor emérito da Unicamp e pesquisador emérito do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico (CNPq) Dermeval Saviani, que em e-mail enviado a Sorrentino afirmou que a administração daquela escola está ferindo “a ‘liberdade de cátedra’, prerrogativa constitucional assegurada a todo professor no exercício da função docente”.

Também a Associação de Pós Graduandos do Instituto de Energia e Ambiente (APG do IEE) solidarizou-se com Sorrentino, emitindo nota na qual considera  “extremamente preocupantes ações que possam indicar qualquer forma de censura a atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária por razões ideológicas”. Em 6/11, a APG enviou mensagem eletrônica ao professor Luiz Gustavo Nussio, diretor da ESALQ, na qual, além de comunicar seu apoio a Sorrentino, solicita “arquivamento” da sindicância, “uma vez que já foi esclarecido que em nenhum momento a atividade organizada [...] feriu o Estatuto da universidade”.

O renomado professor português Boaventura de Souza Santos, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, enviou um vídeo por meio do qual manda um “grande abraço” ao professor Sorrentino, “pelo trabalho extraordinário” de mostrar na prática a responsabilidade da universidade, e que “lamentavelmente as forças conservadoras querem disciplinar”.

A seguir, leia a íntegra de algumas das manifestações por escrito.

 

Mensagem do professor Hugh Lacey

“Caro Professor Marcos Sorrentino:

Estou escrevendo para expressar minha solidariedade neste momento em que você está sendo submetido à sindicância por organizar um evento acadêmico de que o MST participou. Conheço seus projetos de agroecologia que envolvem colaboração com o MST — você deu uma apresentação esclarecedora sobre esse assunto no seminário que organizei no IEA-USP em maio de 2016 — e é óbvio que contribui para aprofundar o entendimento da agroecologia dos alunos levá-los a ter contato próximo com as práticas e perspectivas das organizações (como o MST) que apoiam o engajamento na agroecologia. O evento, que organizou na ESALQ e que é objeto da sindicância, não só é relevante para a educação sobre a agroecologia e seus movimentos, mas também bem dentro dos limites  da prática acadêmica normal que não precisa receber permissão explícita das autoridades da universidade. 

Espero que essa questão seja resolvida rapidamente e favoravelmente. Avise-me se seria útil para mim enviar uma comunicação aos diretores da ESALQ, ou se puder contribuir em qualquer outra maneira.

Abraço,

Hugh Lacey”

 

Mensagem do professor Dermeval Saviani

“Prezado Prof. Marcos Sorrentino:

Na condição de Professor Emérito da Unicamp, Pesquisador Emérito do CNPq, Coordenador Geral do Grupo Nacional de Estudos e Pesquisas ‘História, Sociedade e Educação no Brasil’ (HISTEDBR), Professor Colaborador Eventual da Escola Nacional Florestan Fernandes e como Patrono da 9ª Turma de Bacharelandos e Licenciandos em Ciências Biológicas da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’, da USP, quero manifestar meu veemente repúdio e, consequentemente, minha total solidariedade diante do constrangimento que lhe está sendo imposto pela administração, ferindo sua autonomia e a ‘liberdade de cátedra’, prerrogativa constitucional assegurada a todo professor no exercício da função docente.

Com meu abraço,

Dermeval Saviani”

 

Nota de apoio da APG do IEE

“A Associação de Pós Graduandxs do Instituto de Energia e Ambiente (APG do IEE) manifesta seu apoio ao Prof. Dr. Marcos Sorrentino, convocado para uma oitiva da Comissão Sindicante instalada pela direção da Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’ (ESALQ), com a finalidade de investigar uma atividade acadêmica organizada em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).  

São extremamente preocupantes ações que possam indicar qualquer forma de censura a atividades de ensino, pesquisa e extensão universitária por razões ideológicas. Manifestamos nosso apoio à sua liberdade de pesquisa, bem como à forma de integração da produção científica e sociedade, objetivo almejado por grande parte das pesquisas desenvolvidas no ambito desta universidade.

Acreditamos que a ciência é fundamental para o desenvolvimento nacional, contudo para este fim, ela não pode sofrer nenhuma forma de censura quanto ao seu teor ideológico ou em função do grupo social que irá atender. A universidade pública deve ser exemplar na defesa da pluralidade de pensamentos, de respeito e de democracia.

Isto posto, nós, da APG do IEE solicitamos o arquivamento das investigações dos trabalhos da Comissão Sindicante, tendo em vista que em nenhum momento a atividade acadêmica organizada pelo professor Marcos Sorrentino feriu os estatutos da Universidade de São Paulo”.

 

Nota da Ordem Ortodoxa Sanjoanita

“Ao Prof. Dr. Marcos Sorrentino                              

A Ordem Ortodoxa Sanjoanita, tendo participado na organização da IV Jornada Universitária de Apoio à Reforma Agrária – JURA, vem apresentar seu incondicional apoio à sua pessoa diante da convocação ao Professor e Diretor Regional da ADUSP/Piracicaba para depor perante uma Comissão Sindicante instalada pela direção da ESALQ com a finalidade de investigar uma atividade acadêmica organizada coletivamente e em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A Ordem Ortodoxa Sanjoanita expressa ainda sua preocupação diante daquilo que pode ser considerado como uma tentativa de intimidação das posturas sociais adotadas aquando da referida Jornada, que, de resto, numa condição de normalidade democrática, deveriam ser a prática corrente de qualquer instituição pública, mormente estando essa voltada para a área da produção de alimentos, dos cuidados com a terra e da ocupação do campo como elemento de equilíbrio e justiça social.

 

Padre Luis Tito
Helena Kehl
Ordem Ortodoxa Sanjoanita”