Iniciada no dia 17/10, a ocupação do Bloco Didático (bloco 16) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) por estudantes dos cursos de Pedagogia e de Biblioteconomia e Ciências da Informação (BCI), bem como por discentes de outros cursos e unidades que se solidarizaram, foi encerrada nesta quinta-feira (27/10), depois que os participantes decidiram, em assembleia realizada na véspera, atender a apelos para desimpedir o prédio, cujas salas devem receber as urnas da 108a Zona Eleitoral na votação do segundo turno da eleição presidencial e de governador, neste domingo 30/10.

“Foi deliberado em assembléia que não é válido continuar mais devido às eleições, aqui é local de votação e devido à importância dessas eleições foi resolvido desocupar pelas dificuldades que isso pode gerar para os eleitores”, explicou o centro acadêmico (CePed). “Fizemos toda a limpeza do bloco, cortamos a grama, o bloco está perfeitamente limpo e organizado”, diz Lucas Santi, do CePed. O final da ocupação foi comemorado por meio de um “ato-passeata” nesta quinta à tarde.

Precedida de uma paralisação em 9/10, a ocupação do Bloco Didático tinha como finalidade obter a abertura imediata de concursos para admissão de oito docentes, a serem distribuídos igualmente entre os cursos de Pedagogia e BCI, ambos mantidos pelo Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DedIC). Porém, o DEdIC não dispõe dos claros docentes necessários.

“Debatemos ao longo da semana. Ontem aprovamos a desocupação. Foi uma ocupação vitoriosa”, declarou André Molinari, estudante do curso de Pedagogia e membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE-Livre), ao Informativo Adusp. “Unimos os cursos e chegamos no reitor. O motivo para desocupar foi ser uma seção eleitoral”.

A referência a Carlos Gilberto Carlotti Jr. relaciona-se aos protestos realizados na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) em 21/10, durante a posse da nova direção: o reitor deixou às pressas o local para não se encontrar com os e as estudantes, que o acusam de “sair correndo” do anfiteatro da EERP e “quase atropelar dois discentes que estavam apenas esperando para o diálogo”. Por essa razão, o CePed criou a hashtag #reitorfujao.

A questão de onde alojar as mesas de recepção de votos da 108a Zona Eleitoral, caso a ocupação se mantivesse até 30/10, vinha preocupando docentes da FFCLRP, a “Filô”. A Diretoria da unidade, em comunicado emitido também na quarta 26/10, chegou a informar que o assunto “foi solucionado com o Tribunal Regional Eleitoral que em breve fará a divulgação dos novos locais de votação”. A decisão de desocupar o Bloco Didático indica habilidade política do movimento, que, visto com simpatia no campus, entendeu que a eventual mudança de local das urnas geraria insatisfações.

No seu comunicado, a Diretoria da Filô pareceu reconhecer a legitimidade da ocupação: “O prédio didático foi tomado por faixas, banners e cartazes com dizeres demandando a liberação de claros docentes em caráter emergencial e imediata para os dois cursos - BCI e Pedagogia - para suprir o déficit que assola o DEdIC”. Declarou-se “aberta ao diálogo” e disse haver solicitado “uma reunião emergencial com a Reitoria para discussão do assunto”.

A Diretoria faz ainda um relato cronológico da ocupação e alterna elogios (“O prédio estava bem cuidado”, sobre visita aos ocupantes em 20/10) e acusações aos estudantes, como ao falar de reunião ocorrida em 21/10, quando teriam se apresentado “encapuzados e com bastões em punho, acompanhados de seguranças próprios”. O Informativo Adusp aguarda que o centro acadêmico (CePed) manifeste-se sobre o teor das afirmações do comunicado.

A Reitoria, por sua vez, manifestou-se indiretamente em resposta à ocupação, por meio de uma controversa mensagem despachada por e-mail nesta terça (25/10) pelo Gabinete do Reitor e intitulada “Chegou a hora de ocupar alguns vazios”. Nela, o reitor Carlotti Jr. reconhece que o número de docentes efetivos da USP vem diminuindo desde 2014, anuncia o objetivo de “chegar a 6.026 professores, nos mesmos patamares de janeiro de 2014”, e acrescenta: “Para alcançar esse contingente, programamos a contratação de mais 876 docentes, que virão a se somar aos 5.150 que temos agora”.

Nessa contabilidade, porém, o reitor inclui os 204 cargos já distribuídos pela gestão anterior, bem como as “50 vagas destinadas a grandes projetos” e outras “63  reservadas para Projetos de Excelência no ensino, na pesquisa e na extensão”, sendo que estas “vagas de excelência”, destaca, “serão preenchidas a partir de edital que deverá ser publicado nos próximos dias”.

Carlotti Jr. também informa, olimpicamente: “Até agora, já foram distribuídas 92,8% das vagas a serem abertas”. E faz o seguinte comentário sobre a Filô, única unidade citada nominalmente no seu texto: “Dentro desse processo, algumas unidades da USP receberam um número significativo de reposição [sic], como é o caso da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). Em 2014, a unidade contava com 214 docentes e, em 2022, antes da liberação dos cargos pela Reitoria, com 192”.

Prossegue o reitor: “A faculdade estava com 5 concursos liberados e tinha também uma vaga do edital de Grandes Projetos. Além disso, recebeu 13 novos claros docentes em 2022. Com essas liberações, seu quadro contará com 211 docentes, representando 98,59% do quadro inicial. Caso a unidade apresente propostas no edital de excelência, poderá chegar muito próximo aos 100% (em relação ao número de vagas de 2014) ou mesmo ultrapassá-lo [sic]”.

A manifestação arrogante da Reitoria, que procura desqualificar a reivindicação dos estudantes do DEdIC, foi recebida com estranheza por docentes da Filô, para quem o reitor “joga um punhadinho de claros para as unidades e deixa os departamentos se engalfinharem”, ao invés de adotar critérios objetivos e transparentes para a distribuição de claros.

Íntegra do comunicado da direção da FFCLRP

Senhor(a) docente, discente e funcionário(a),

Com o intuito de esclarecer a comunidade da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, informamos que na noite de 17 de outubro de 2022, o prédio didático da Unidade – o Bloco 16 - foi ocupado por aproximadamente 50 discentes, principalmente dos cursos de Bacharelado em Biblioteconomia e Ciência da Informação (BCI), e da Licenciatura em Pedagogia, ambos do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEdIC).

O prédio didático foi tomado por faixas, banners e cartazes com dizeres demandando a liberação de claros docentes em caráter emergencial e imediata para os dois cursos - BCI e Pedagogia - para suprir o déficit que assola o DEdIC.

Segue um breve relato dos fatos:

- 17.10.2022: após a ocupação, por volta das 21 horas, o Prof. Dr. John Campbell McNamara, Vice-Diretor em exercício, a Profa. Dra. Filomena Elaine Assolini, Chefe do DEdIC, e a Sra. Daniela Gabeloni, Assistente Técnica Administrativa desta Faculdade, se reuniram com os estudantes para ouvi-los e colocar a direção à disposição para os diálogos.

- 17 a 19.10.2022: o assunto/diálogo foi acompanhado pelo Prof. Dr. John Campbell McNamara, Vice-Diretor em exercício, em decorrência do afastamento do senhor diretor, Prof. Dr. Marcelo Mulato. O Vice-Diretor solicitou a desocupação e a devolução do Bloco 16 em reiterados momentos, porém não foi atendido.

- 20.10.2022: o senhor diretor, Prof. Marcelo Mulato retornou de seu afastamento e, prontamente, acompanhado do Prof. Dr. John McNamara, Vice-Diretor da Unidade, na manhã desse dia, se dirigiu ao Bloco 16 para uma visita aos ocupantes. O prédio estava bem cuidado. Dentre os diversos assuntos dialogados, o Diretor solicitou nova reunião da Diretoria, às 19h, com todo corpo discente do DEdIC. Na reunião das 19h, o Prof. Mulato solicitou aos ocupantes o acesso dos servidores técnico-administrativos à sala de informática localizada no referido prédio para que pudessem retirar seus pertences pessoais. Também, se comprometeu a verificar problemas com o acesso ao wi-fi relatados pelos ocupantes.

- 21.10.2022: ao solicitar o acesso dos funcionários da Seção Técnica de Informática (SCINFOR) ao Bloco 16, houve uma mudança de atitude dos ocupantes, os quais se apresentaram encapuzados e com bastões em punho, acompanhados de seguranças próprios. Foi efetuada, mediante leitura e assinatura de um termo elaborado pelos ocupantes, a liberação de acesso ao Bloco 16 para que os servidores da SCINFOR retirassem seus pertences pessoais. O wi-fi inacessível naquele local foi reestabelecido após reiniciar o servidor. No período da tarde, houve manifestações na Cerimônia de Posse dos novos Dirigentes da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, no prédio da EERP.

- 24.10.2022: os ocupantes solicitaram uma reunião com os dirigentes desta unidade, na mesma data, às 20h. Nesta reunião, percebeu-se uma mudança positiva de comportamento dos estudantes que se mostraram mais educados e cordiais. Diversas pautas foram negociadas com a Diretoria.

- 25.10.2022: logo às 14h, quando o último servidor retirou os pertences pessoais da SCINFOR, o Prof. McNamara foi recebido, novamente, pelos ocupantes com as cabeças cobertas. À noite, na Sessão Solene em Comemoração aos 70 anos da FMRP-USP e aos 20 anos do Curso de Música da FFCLRP, no Theatro Pedro II, houve manifestações e agressões pelos estudantes da ocupação do Bloco 16 desta Faculdade.

- 26.10.2022: pela manhã, novamente mediante leitura e assinatura do termo dos ocupantes, foi permitida a entrada dos servidores técnico-administrativos da SCINFOR para a realização de testes de hardware de servidores instalados na SCINFOR no Bloco 16. A Diretoria da FFCLRP reuniu-se com outros diretores do Campus USP de Ribeirão Preto para tratar do assunto em questão. Foi solicitada uma reunião emergencial com a Reitoria para discussão do referido assunto.

Esclarecemos que, desde a ocupação do Bloco 16 pelos estudantes, havia uma grande preocupação por parte desta direção, uma vez que o referido local acomoda a 108ª Zona Eleitoral. O assunto foi solucionado com o Tribunal Regional Eleitoral que em breve fará a divulgação dos novos locais de votação.

Informamos que esta diretoria tem feito todos os esforços para administrar esse ato de invasão e ocupação, atender as necessidades dos cursos e continua aberta ao diálogo.

 

Diretoria da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP

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