Insensível, Superintendência de Assistência Social deu prazo de pouco mais de 15 dias para que estudantes saiam do prédio, que vai passar pela primeira reforma desde a construção do conjunto, na década de 1960. Carta encaminhada ao superintendente da SAS reconhece necessidade das obras, mas questiona atropelo do processo. “Se a reforma é bem-vinda, a decisão verticalizada sobre a desocupação do bloco para a realização da obra causa consternação, porque, mais uma vez, o encaminhamento da medida não contempla a participação e construção conjunta das alternativas com os/as estudantes e ainda oferece alternativas pouco viáveis”, diz documento assinado por Adusp, DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme”, Sintusp e Amorcrusp

A Frente USP Democrática e Solidária encaminhou correspondência ao professor Gerson Tomanari, responsável pela Superintendência de Assistência Social (SAS), reivindicando que no processo de desocupação do Bloco D do Conjunto Residencial da USP (Crusp) as condições de transferência e alojamento dos atuais moradores e moradoras sejam estabelecidas de forma dialogada.

Embora seja indiscutível a necessidade da obra, reivindicação antiga da comunidade do Crusp, a forma como a SAS vem encaminhado o assunto atropela qualquer possibilidade de planejamento por parte de alunos e alunas e agrava as angústias e preocupações vividas por eles e elas durante a pandemia.

Na última segunda-feira (26/7), moradores e moradoras receberam um e-mail da SAS informando que, “como parte da organização das ações que visam ao início das reformas do Bloco D do Crusp, é fundamental que façamos uma reunião para conversar com você esclarecendo e orientado sobre as ações necessárias para a desocupação dos apartamentos”. A mensagem dizia ainda que o contato seria feito pelas assistentes sociais para uma reunião, via Google Meet, “nos próximos dias”.

O prazo para desocupação, incluindo a retirada do mobiliário, seria o próximo dia 15/8. As alternativas oferecidas pela universidade são que os próprios moradores e moradoras obtenham uma vaga em outro apartamento do Crusp ou recebam R$ 500,00 mensais para pagamento de aluguel de um imóvel — que também caberia ser encontrado por conta própria.

“Se a reforma é bem-vinda, a decisão verticalizada sobre a desocupação do bloco para a realização da obra causa consternação, porque, mais uma vez, o encaminhamento da medida não contempla a participação e construção conjunta das alternativas com os/as estudantes e ainda oferece alternativas pouco viáveis. É importante que os/as estudantes sejam ouvidos (as) e incluídos(as) nas decisões sobre suas vidas. É fundamental que a política acadêmica englobe não apenas decisões, mas igualmente as maneiras de implementá-las”, diz a carta, assinada por entidades como a Adusp, o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), o DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme” e a Associação dos Moradores do Crusp (Amorcrusp).

“Além dessa questão filosófico-administrativa central, que envolve uma postura de tal modo centralizadora que compromete a eficácia das medidas da direção universitária, na prática, o encaminhamento significa uma espécie de despejo que conduz cada morador(a) a ter que se haver sozinho com a questão do seu destino, do seu lugar de habitação. E isso em um prazo de cerca de 20 dias”, prossegue o documento. “Bater de porta em porta buscando uma moradia ou ter um recurso que não paga sequer uma kitnet no Butantã não nos parecem medidas adequadas para a Universidade que é responsável pela moradia desses alunos(as/es).”

A USP anunciou em junho que o Bloco D passaria pela “primeira grande reforma estrutural desde a criação do Crusp”, na década de 1960. A previsão, de acordo com a SAS, é de que “toda a infraestrutura elétrica e hidráulica” seja “readequada”. Haverá também instalação de um novo reservatório de água e “reforma das cozinhas, lavanderia, salas coletivas e acessibilidade em todos os ambientes”. As obras têm duração estimada de um ano. O bloco possui oficialmente 198 vagas regulares, mas abriga um número maior de pessoas.

O DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme” divulgou nota nesta terça-feira (27/7) na qual ressalta que a reforma “é uma grande conquista estudantil que vem sendo solicitada há muito tempo” e que “o processo de licitação foi aberto para todos os blocos, mas por enquanto só foi fechado o contrato para a reforma do Bloco D”. Apesar da necessidade da reforma, “o descaso com a comunicação por parte da USP transformou essa notícia em um episódio de desespero”.

“Lutaremos para garantir que NENHUM estudante seja despejado, para que haja tempo hábil e organização para realocar todos os moradores. Já enviamos questionamentos para a Reitoria e para a SAS, exigindo que elucidem como essa movimentação vai acontecer, e, também, que ela aconteça de forma que nenhum estudante seja prejudicado”, diz a entidade.

SAS não pensou nos problemas e tratou moradores “como números”

As angústias provocadas pela forma como a SAS encaminhou o processo, impondo uma mudança num prazo exíguo e praticamente delegando as providências a moradores e moradoras, ficaram claras nos depoimentos dados numa roda de conversa convocada pela Rede Não Cala! nesta terça-feira (27/7) a pedido dos alunos e alunas, que queriam falar e ser ouvidos sobre a questão. “Muita gente ainda está com aulas e muitas outras preocupações, e aí simplesmente cai esse e-mail na nossa cabeça”, disse um morador.

“Em primeiro lugar, já é difícil achar um lugar dentro do Crusp. No curto prazo, então, fica quase impossível”, considera uma moradora. “Eu me juntei com colegas para comprar coisas básicas que o apartamento não tinha, como geladeira. Sou de Minas Gerais, não tenho família em São Paulo, e as pessoas que moram comigo são a minha família aqui. Vai ficar cada um num lugar? E as coisas que compramos e são coletivas? A SAS não pensou em nada disso. Estão vendo os alunos como números.”

Outra aluna também ressaltou que, além da dificuldade em obter uma vaga, a afinidade na convivência precisa ser considerada. “A moradia está totalmente relacionada com nosso bem-estar físico, emocional e mental. Eu comecei a ficar muito preocupada e estou bem abalada. Tenho matérias que ainda estou fechando e não estou conseguindo estudar. Fico pensando: onde vou morar? É algo muito importante”, disse.

“São muitas questões envolvidas. A gente está num contexto de pandemia. Eu perdi meu pai recentemente e estou em processo de luto, me estabilizando ainda, e agora preciso sair do lugar em que moro. Como vai ser isso? Minha vida acadêmica é uma pequena parcela de mim, de nós. Nossa vida no Crusp vai muito além da academia”, testemunhou.

“A estrutura é muito precária, não tem lavanderia, a cozinha praticamente não existe. Os moradores foram obrigados a conseguir suas próprias coisas, como geladeira, máquina de lavar, fogão. E se eu for para um lugar que já tem isso? No meu caso, as coisas que tenho eram do meu pai e têm um valor emocional muito grande para mim. Vou fazer o que com elas? Vender?”, prosseguiu a aluna.

Na avaliação da estudante, a quebra desses vínculos pode levar ao agravamento das questões de saúde mental no Crusp, quadro já bastante evidente pelo registro de ocorrências graves como três casos recentes de suicídio de estudantes e pela insuficiência das respostas da universidade aos problemas.

A postura da SAS em relação à desocupação do Bloco D — tratada como “despejo” por alunos e alunas — prenuncia novos problemas à frente. “Se em cada bloco a reforma vai durar um ano, serão mais oito anos de atritos? Isso vai tensionar muito a nossa comunidade, que já é frágil”, disse um morador.

Outro discente apontou que, além da dificuldade em obter imediatamente cerca de duzentas vagas nos demais blocos, há problemas como o eventual retorno de estudantes que saíram de São Paulo na pandemia mas mantêm a vaga na moradia, devendo voltar quando as condições sanitárias permitirem e houver definição sobre a retomada das atividades presenciais. “Isso acontece em todo o Crusp. E quem tem coisas trancadas nos seus quartos? O que vai acontecer com elas?”, perguntou.

Blocos K e L devem voltar à função original de moradia

A carta da Frente USP Democrática e Solidária defende que, uma vez que outros prédios precisarão ser reformados, haja um planejamento conjunto “pensado com os/as estudantes, para uma mobilidade interna ao próprio Crusp ou, pelo menos, com condições provisórias de moradia que sejam adequadas”.

“Várias sugestões existem”, aponta o documento encaminhado ao superintendente, “mas somente com informações concretas poder-se-á avaliar a viabilidade de cada uma”. Entre elas estão: devolver ao Crusp em condições de moradia os blocos K e L, que por muitos anos sediaram órgãos administrativos da universidade, incluindo a própria Reitoria; “avaliar condições dos alojamentos dos blocos C e G; fazer levantamento dos quartos disponíveis no Crusp, verificando precisamente quantas pessoas teriam que se deslocar; realização da obra em etapas, articulando obra e mobilidade; se for necessário que alguns/algumas se mudem, considerar aumento substancial do auxílio para o aluguel; redefinição de um prazo razoável para tudo isso, evitando perturbações no trabalho de todas as pessoas envolvidas”.

A imediata manutenção de fogões e lavanderias “poderia significar melhoria de condições de vida, sem grandes custos para a Universidade e sem prejuízo aos/às estudantes”, diz ainda a carta.

A professora Elizabete Franco Cruz, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e integrante da coordenação da Rede Não Cala!, salientou na reunião que é importante que alunos e alunas saibam que os professores e professoras se importam com a situação.

Outros docentes participaram do encontro com moradores e moradoras — Andrea Saad Hossne e Adrián Pablo Fanjul, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Maria Luisa Schmidt e Nicolas Châline, do Instituto de Psicologia (IP) —, além de integrantes da Diretoria da Associação de Pós-Graduandos Helenira “Preta” Rezende (APG-USP Capital).

“Que bom que vai ser feita a reforma, mas não desse jeito, sem planejamento. Isso tem que ser construído com moradores e moradoras”, disse a professora Elizabete Franco. “As coisas foram encaminhadas de maneira autoritária e não aceitável”, completou a professora Maria Luisa Schmidt.

Elizabete Franco reforçou a necessidade de articulação e organização política entre os e as estudantes e defendeu que assinem a carta publicada em junho pela Frente USP Democrática e Solidária, ajudando a pressionar o Conselho Universitário (Co) para que paute as questões de permanência estudantil e saúde mental.

A docente também lembrou serviços disponíveis para procurar auxílio em casos relacionados à saúde mental, como o Centro de Valorização da Vida (telefone 188) e o Programa de Apoio Psicológico Online (Papo) do Instituto de Psicologia. “Vamos à luta política, mas vamos também cuidar da nossa subjetividade, da nossa individualidade”, disse

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