Diretoria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) determina volta às atividades presenciais e “funcionamento integral” já em 2 de agosto, além de “escala de revezamento, a critério das chefias” para quem não tiver atingido 14 dias após a segunda dose da vacina. Exige ainda, orientando que usem máscara e face shield, que docentes e funcionário(a)s trabalhem até mesmo em “locais em que o distanciamento não puder ser respeitado”

Ampla rejeição ao anúncio de retorno às atividades escolares presenciais feito pelo governador do Estado, e parcialmente endossado pela Reitoria, foi a tônica da plenária virtual dos três setores realizada pela comunidade do câmpus da USP de Ribeirão Preto nesta segunda-feira (12/7), com expressiva participação de docentes, estudantes e funcionário(a)s técnico-administrativo(a)s.

A atividade sofreu invasões por parte de hackers de extrema-direita. Os oradores foram interrompidos por ruídos, gritos e gravações como “Cala-a-boca”. Mesmo assim, foi possível chegar com êxito ao final dos trabalhos depois de migrar para uma nova sala.

A plenária foi instalada pela professora Patricia Ferreira Monticelli, diretora regional da Adusp, e contou com a presença de diretores do Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp) e do Diretório Central dos Estudantes (DCE-Livre) “Alexandre Vannucchi Leme”.

Na abertura, a professora Annie Schmaltz-Hsiou, primeira vice-presidenta da Adusp, destacou questões que estão no centro das atuais preocupações dos movimentos que atuam na universidade, como a saúde mental dos estudantes, a redução do corpo docente e do corpo de funcionário(a)s e o comportamento inadequado da Reitoria frente à pandemia de Covid-19.

“Precisamos incorporar na pauta as questões de permanência estudantil, auxílio-alimentação por exemplo, e a descaracterização da universidade pela falta de professores em diversas unidades e cursos”, disse Annie, que é docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP). “Desde os PIDVs [programas de demissão voluntária] não tem reposição nem de quadros docentes nem de servidores. Não tem reposição de novos claros”.

A seu ver, é preciso compartilhar essa situação com as categorias. Ela convidou os e as presentes a falar da situação nas suas respectivas unidades e cursos. “Precisamos pensar novas ferramentas de luta no ambiente virtual, para organizar o câmpus e conectar os três setores”.

Transmissão online da negociação salarial deve mobilizar categorias

O jornalista Luis Ribeiro, diretor do Sintusp, deu informes sobre a negociação da campanha salarial, “que já está bem atrasada, só agora estamos tendo algum tipo de resposta”. A seu ver, o grupo de trabalho conjunto criado para discutir a recuperação dos salários das categorias não está sendo levado a sério pelo Cruesp. “Parece uma farsa. Jogaram o [professor Fernando] Mantelatto lá e pelo jeito ele chegou sem saber de nada, nem o índice que as categorias estavam pedindo”, disse referindo-se ao diretor de Recursos Humanos da USP e docente da FFCLRP. “Os reitores falam que não podem dar aumento porque tem lei que proíbe. A autonomia não vale para o reajuste salarial”.

Ele destacou para as novidades da pauta apresentada pelo Fórum da Seis. “Tem uma proposta bastante diferenciada desta vez, com reposição fixa de 500 reais para os servidores, e outras estratégias para as categorias iniciais dos docentes”. Ribeiro acredita que a transmissão ao vivo da negociação com o Cruesp, que acontece pela primeira vez, deve mobilizar as categorias.

O diretor do Sintusp lembrou ainda que a pandemia está na pauta de negociação: a volta ao trabalho e as condições em que vai acontecer. “É um assunto que precisamos desenvolver localmente em Ribeirão Preto”. A seu ver, deve-se “divulgar com muita ênfase” o trabalho desenvolvido pelos professores Domingos Alves, Adriana Moreno — ambos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) — e Dalton Amorim (FFCLRP), “mostrando que esse negacionismo do reitor da USP é uma loucura científica, é jogar lenha na fogueira”.

O comando geral dos 3 setores, criado na plenária realizada em 24/6, está finalizando a elaboração de um documento-base para subsidiar a formulação de planos sanitários e educacionais específicos em cada câmpus e unidade da universidade.

Maria Eduarda Ruas Guimarães, diretora do DCE, observou que as dificuldades dos docentes e funcionário(a)s “afetam nosso dia a dia como estudantes” e apontou a importância da luta unificada das três categorias. “Uma das coisas que mais têm assustado é essa questão do retorno, que Doria tenta impor. Absurdo esse tipo de situação”. Mencionou ainda o desmonte da educação realizado pelos governos Temer e Bolsonaro.

Annie lembrou que as diretrizes para o Plano Sanitário e Educacional propostas pelo  Fórum das Seis são muito inspiradas nos trabalhos de Dalton, Domingos e Adriana. “Eles denunciam a falta de infraestrutura e de testagem em massa. Na última reunião o Cruesp se mostrou sensível a essa pauta, mas o novo comunicado do GT PRAA é contraditório com isso, logo após o anúncio de Doria. Isso abre uma preocupação, porque vacinados podem voltar a trabalhar, sendo que a USP não lançou um único boletim epidemiológico até agora”.

Ribeiro informou que algumas unidades da Cidade Universitária do Butantã estão fazendo enquete para levantar quem está vacinado. “É uma pressão para a volta, mas vacina não é passaporte para voltar”. Relatou o caso de um funcionário que, embora vacinado com duas doses, contraiu a Covid-19 no trabalho, contagiou familiares e está hospitalizado. “É insano voltar”, concluiu.

O professor José Marcelino Rezende (FFCLRP) ponderou que é preciso cobrar como está a vacinação na USP não com o objetivo de proceder ao retorno dos vacinados, como quer a Reitoria, mas para que se conheça a situação nos câmpus. Ele também refutou as alegações do governo estadual: “É mentira que os professores da educação básica estão vacinados. Nem a metade deles está”.

Falta um mapa de casos de contaminação na USP, diz docente da Filô

Amanda Corsino Jardim, diretora do DCE, acredita que o retorno às atividades presenciais pode estar ligado ao desenvolvimento da vacina do Instituto Butantan. “Tivemos uma reunião com centros acadêmicos e o professor Rodrigo Calado [FMRP] sobre a terceira fase de testes da Butanvac. Perguntamos se isso tinha relação com o retorno. Ele se posicionou dizendo que sim”. Ela também apontou dificuldades práticas para um retorno sem planejamento: “Tenho colegas que voltaram para os seus Estados, demandaria meses para voltarem”. Concordou que é importante saber como está a vacinação na USP.

“Concordo com a ideia de que tenhamos posição mais propositiva para poder pensar a condição sanitária de retorno”, disse a professora Teise Guaranha Garcia (FFCLRP), apoiando manifestação de Marcelino nesse sentido. “A Apeoesp tem um mapa onde vão registrando os casos de contaminação nas unidades de ensino. Nem isso a gente tem na USP”, pontuou. “Sabemos de casos na Filô [como é conhecida a FFCLRP] em que funcionários se contaminam e levam para casa, há um caso de morte na família. No nosso curso não dá para cumprir metade do protocolo, não tem [espaço para garantir] distanciamento de um metro para nossos alunos”.

Na avaliação do professor Elmir de Almeida (FFCLRP), a vacinação tem sido desigual. “Nossas condições não comportam o retorno no segundo semestre. A situação dos estudantes é marcada por profunda desigualdade de origem”, disse.

O professor Plauto Aranha Watanabe, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP), informou a situação específica de sua unidade: “A Odontologia já retornou, desde maio. Fazemos atendimento presencial de pacientes. Tivemos todos os cuidados, mas poucos estão vacinados entre funcionários, docentes e alunos. Esta é a nossa realidade”, explicou, lembrando que o atendimento clínico nessa especialidade oferece risco, porque obviamente os pacientes precisam permanecer com a boca aberta durante todo o tempo de atendimento. “Felizmente até agora não foi detectado nenhum caso de contaminação. O semestre que vem também já está todo programado em termos de reposição”.

A estudante Luiza Gonzalez comentou questões relacionadas à permanência estudantil caso o retorno às atividades presenciais se confirme, num momento de crise da economia e sabendo-se que parte dos estudantes não tem perfil elitizado. “Como vão se alocar com um auxílio de 500 reais? Deveria ser 800 reais”, frisou. Ela apontou como prioridades a luta em defesa da universidade e da vacinação dos estudantes, e informou sobre um ato público contra a privatização dos Correios, agendado para o dia seguinte na Esplanada do Teatro Dom Pedro II, no centro de Ribeirão Preto.

Antonio Vitor Rosa, funcionário (FFCLRP), se disse preocupado com o fato de que alguns colegas se negam a tomar vacina, o que coloca a comunidade em risco. “Bolsonaristas estão entre nós”, disse. “Em algum momento teremos de retornar e teremos alguém do nosso lado que duvida da vacina, não tenha tomado a vacina e seja um vetor. Temos que pensar nas nossas entidades como tratar disso”. Acrescentou saber de uma “excelente médica, que me disse que só tomou a vacina agora, porque tinha dúvidas”.

Diretoria da FMRP ordena “funcionamento integral a partir de 2 de agosto”

Confirmando os piores temores expressos na plenária, a Diretoria da FMRP emitiu comunicado nesta terça-feira (13/7) no qual determina que “haja o planejamento em cada setor para abertura e funcionamento integral a partir de 2 de agosto de 2021, com a presença de todos os funcionários”, e que até aquela data “as chefias podem solicitar atividades presenciais necessárias, com incremento gradual até a totalidade a partir de 2 de agosto de 2021”.

A Diretoria da FMRP estipula, ainda: “Para aqueles que não atingiram os 14 dias após a segunda dose da vacina, será possibilitado o trabalho em escala de revezamento, a critério das chefias”.

Nos considerandos do comunicado, a Diretoria alega que “foi ofertada a toda a comunidade da FMRP a possibilidade de vacinação”, que “a maioria dos membros desta comunidade já estarão [sic] vacinados em agosto/2021” e que “o Governo de São Paulo anunciou a retomada das aulas presenciais nas universidades do estado e nas escolas de ensino técnico a partir de 2 de agosto”.

Nesta quarta-feira (14/7), a Diretoria emitiu um adendo ao comunicado original, no qual estipula que “a partir de 2/8/2021 as justificativas de teletrabalho e permanência em domicílio, utilizadas comumente nos tratamento de frequência nesse período de pandemia, somente deverão ser utilizadas aos servidores que não tiverem completado os 14 dias da 2ª dose da vacina e que estiverem realizando suas atividades de forma parcial ou em revezamento”; que no tocante aos “servidores completamente imunizados, que deverão retornar ao trabalho presencial com jornada completa, as justificativas mencionadas não serão aceitas”; e que em “todas as atividades presenciais deve ser feito o devido registro no relógio eletrônico de ponto”.

A própria Diretoria admite, nesse comunicado complementar, que eventualmente docentes e funcionário(a)s trabalhem sem o distanciamento mínimo necessário: “Ainda, nos locais em que o distanciamento não puder ser respeitado, orientamos, além da máscara facial obrigatória a todos, a utilização do face shield. Ambos os EPI’s são disponibilizados pela FMRP e podem ser requisitados quando necessário”.

A seguir a íntegra do documento de 13/7.

 

Comunicado Diretoria FMRP-USP

Considerando:

  • a necessidade de planejamento para o segundo semestre de 2021;
  • o papel da FMRP na formação de recursos humanos para a área de saúde;
  • o 17º Comunicado do GT PRAA;
  • que foi ofertada a toda a comunidade da FMRP a possibilidade de vacinação;
  • que a maioria dos membros desta comunidade já estarão vacinados em agosto/2021;
  • que o Governo de São Paulo anunciou a retomada das aulas presenciais nas universidades do estado e nas escolas de ensino técnico a partir de 2 de agosto;

A Diretoria solicita que haja o planejamento em cada setor para abertura e funcionamento integral a partir de 02 de agosto de 2021, com a presença de todos os funcionários. Até lá, as chefias podem solicitar atividades presenciais necessárias, com incremento gradual até a totalidade a partir de 02 de agosto de 2021. Para aqueles que não atingiram os 14 dias após a segunda dose da vacina, será possibilitado o trabalho em escala de revezamento, a critério das chefias. As condições de trabalho deverão respeitar todos os critérios preconizados de distanciamento, uso de EPI e higiene.

Diretoria da FMRP

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