Achatamento salarial e perspectivas de ascensão nada promissoras são razões citadas por professores e professoras como justificativa para a decisão de deixar a universidade. Também foram apontadas questões como assédio moral, excesso de trabalho — especialmente de tarefas burocráticas e administrativas — e entraves nos projetos de pesquisa, entre outras

Somente nos quatro primeiros meses de 2021, 15 docentes deixaram a USP — quatro a mais do que em todo o ano passado, quando houve 11 exonerações. O levantamento, realizado pelo Informativo Adusp com base na folha de pagamentos da universidade, aponta que, a julgar pelo crescente número de afastamentos de professoras e professoras da universidade, a carreira docente na USP vem se tornando cada vez menos atrativa.

À exceção de um caso, a iniciativa de pedir afastamento partiu da(o)s própria(o)s docentes. O único demitido pela USP foi o professor Antonio Herbert Lancha Jr., da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE), exonerado em fevereiro deste ano, após a instauração de três processos administrativos disciplinares (PADs) na universidade, além de duas ações civis públicas propostas pelo Ministério Público de São Paulo e uma ação proposta pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Perspectivas pouco promissoras na carreira e o achatamento salarial verificado nos últimos anos são razões citadas com bastante frequência pela(o)s docentes como justificativa para a decisão de sair da universidade. “Com o que é oferecido atualmente, não faz sentido algum para um docente que tem outras oportunidades permanecer na USP. É uma ilusão dizer que a carreira na USP é uma boa opção. Deixou de ser há alguns anos”, disse ao Informativo Adusp um professor que se transferiu para uma universidade no exterior. “A USP deveria rever e repensar os salários de docentes ingressantes e daquela(e)s que estão na instituição desde os anos 2000, vide salários das instituições públicas federais”, afirmou uma professora que deixou a universidade no início do ano passado.

As planilhas do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) confirmam a diminuição do investimento em pessoal. O comprometimento com a folha salarial na USP ficou em 70,83% em março e 70,28% em abril de 2021. A média dos quatro primeiros meses do ano é de 74,29%, 11 pontos percentuais abaixo da média de 2020, de 85,05%, e exatamente 15 pontos percentuais abaixo daquela de 2018 (89,29%), o que atesta o aprofundamento do arrocho salarial de docentes e funcionária(o)s ano a ano.

Docentes trocam USP por outras instituições do Brasil ou deixam o país

Questões como assédio moral, incompatibilidade entre carga horária e nível de exigência, disputas políticas por cargos e nomeações, excesso de tarefas burocráticas e administrativas, entraves nos projetos de pesquisa, além de investimento em empreendimentos profissionais particulares, também foram razões apontadas para a saída da universidade.

O cenário das respostas demonstra que o prestígio que a instituição amealhou no passado e as alardeadas posições alcançadas nos mais diversos e questionáveis rankings internacionais nos últimos anos já não são suficientes para atrair e reter mesmo aquelas pessoas interessados em desenvolver uma carreira acadêmica. As respostas de professores e professoras que optaram por sair da USP mostram que o futuro da excelência da universidade — outro valor sempre presente no discurso oficial dos dirigentes — está ameaçado.

Pelo menos dois docentes deixaram a USP para lecionar em instituições federais, e em ao menos outros dois casos o destino foram instituições privadas. A reportagem identificou ainda sete docentes — 28% das exonerações voluntárias — que saíram do Brasil. Em praticamente todos os casos, esses professores e professoras já haviam se afastado temporariamente para trabalhar em universidades do exterior e decidiram se desligar em definitivo para seguir a carreira fora do país (leia aqui reportagem nossa específica sobre essa(e)s docentes).

Toda(o)s a(o)s docentes que pediram afastamento no período foram procurada(o)s pelo repórter do Informativo Adusp. Quase a metade — 12 professores e professoras — deu retorno e concordou em responder às perguntas enviadas. Nenhum terá seu nome ou unidade de origem identificados.houve 11 exonerações.

Entre os que não responderam aos contatos está Antonio Carlos Mendes Thame, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), que entre 1987 e 2019 cumpriu mandatos como deputado federal, além de ter sido prefeito de Piracicaba (1993-1997) e secretário estadual de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras (1999-2002). Mendes Thame desligou-se da USP em fevereiro do ano passado.

“É notável a paulatina degradação da universidade pública”

Uma das docentes que se demitiram, que trabalhava em Regime de Turno Completo (RTC), listou várias razões para sua decisão: assédio moral; realidade e demandas incompatíveis com regime de trabalho; exigência de atividades em três turnos, com consequente demanda fora dos horários de trabalho e pressão por oferecimento de carga alta em sala de aula e por publicações; exigências da Comissão Especial de Regimes de Trabalho (CERT), incluindo dispositivo para avaliação de desempenho em “período probatório” de docentes concursada(o)s, exigido por seis anos; pressão por alta participação em reuniões e atividades administrativas; salário.

Na sua avaliação, a USP deve implementar “programas de apoio e incentivo a docentes e funcionária(o)s, de acolhimento e suporte a aluna(o)s, funcionária(o)s e docentes ingressantes na carreira”. “Deve, principalmente, ‘atualizar’ docentes antigos para o cenário contemporâneo: ensinar sobre agendas atuais, etiquetas de convívio, sobre violência verbal, assédio moral e sobre como discursos e atitudes afetam o indivíduo, sua autoestima e sua saúde mental”, completa.

As críticas à condução da gestão de unidades e do conjunto da universidade aparecem em muitas manifestações. Um dos docentes, por exemplo, critica “o excesso de uso político” dos ocupantes de cargos de gestão e defende que a universidade deveria dar mais atenção aos que “exercem o ensino e a pesquisa” e “dar menor relevância para quem cuida da política”.

Outro docente respondeu que “não existe uma razão principal, mas um conjunto de razões mais importantes” para sua saída. “Esse conjunto inclui razões gerais da USP, razões específicas à minha unidade/departamento, razões acadêmicas extra-USP e razões financeiras.”

“Das razões gerais da USP, é notável a paulatina degradação da universidade pública, que muito antecede a crise financeira de meados da década de 2010. Essa crise financeira só acentuou essa degradação, com a piora salarial, pouca renovação de professores e parcos recursos para pesquisa e atividades de extensão”, afirma. “Essa degradação institucional também aparece numa dimensão muito importante que é um certo ‘carreirismo’ daqueles que se esforçam para ocupar os principais cargos diretivos da universidade”.

O professor relata que foi “observador participativo do vício do grupo político que ascendeu à Reitoria na gestão [M.A.] Zago [2014-2018] — ele próprio um ex-pró-reitor da gestão [J.G.] Rodas [2010-2014] —, que usufruiu da maior disponibilidade de recursos para lançar inúmeros editais para pesquisa e depois de reitor transformou Rodas no vilão da USP”. “Este mesmo grupo se mantém e se amplia na gestão Vahan [Agopyan], que foi pró-reitor de Pós-Graduação de Rodas”, prossegue.

“Fui presidente da Comissão de Pós-Graduação da minha unidade e participei de reuniões da Pró-Reitoria de Pós-Graduação sob Vahan. O grupo político que o auxiliava ocupa hoje importantes cargos na Reitoria, e deverá tentar viabilizar a próxima gestão”, aponta. Em sua visão, “esse mesmo vício político ocorre em algumas unidades da USP e se liga muitas vezes ao processo político da Reitoria”.

“É preciso melhorar o plano de carreira e o salário inicial”

De acordo com o docente, a carreira tem “explicitamente princípios meritocráticos de ascensão”, mas esse processo “pode ser (e é) capturado por disputas políticas nas unidades/departamentos”. Ele critica os processos de avaliação implementados pelas recentes gestões da universidade — outro alvo do descontentamento de vários professores e professoras que saíram da USP. “É desestimulante ver a dificuldade em se fazer um processo de avaliação dos docentes que premie a meritocracia (evitando premiar a publicação por quantidade e até ilegítima, em revistas caça-níquel) e que não seja tão centralizado”.

“Todo o processo de criação de várias instâncias centrais de avaliação docente é um elefante branco, com poder excessivo concentrado nas mãos dos seletos ocupantes das comissões, o que gera um trabalho desnecessário para os docentes, de ficarem produzindo relatórios e pareceres. Professores da USP são pesquisadores e devem dedicar seu tempo e energia para ensino e pesquisa, com o mínimo de trabalho burocrático”, diz. “Esse engessamento e inchaço burocrático, junto com projetos de perpetuação política de grupos dentro da universidade, gerou uma USP absolutamente lenta e apática para enfrentar os muitos desafios de nossos tempos.”

“A academia fora da USP (de novo, excetuando as ilhas de excelência que existem na USP) é dinâmica, internacionalmente integrada, arrojada para enfrentar novos desafios, e desafiadora. Claro que a remuneração relativamente baixa da USP também é um fator, mas para mim foi longe de ser o principal”, afirma. “Mesmo estando no topo da carreira e ainda regido pelo regime previdenciário agora inexistente, decidi, com muita tristeza, que os desafios acadêmicos seriam melhores fora da USP.”

Uma docente que ingressou numa universidade federal afirmou à reportagem que estava “bastante desmotivada com as condições de trabalho na USP, não apenas pelo plano de carreira, mas também pelas relações entre pares”. Em sua avaliação, na nova casa haverá mais possibilidades de assumir cargos de chefia ou coordenação, o que não acontecia em sua unidade uspiana “devido a questões políticas”.

A professora acredita que a USP deve “entender melhor as demandas e necessidades dos docentes e fazer um balanço geral sobre discrepâncias na carga horária na graduação”. Também é necessário, em sua opinião, dar “apoio e suporte mais adequado para docentes em início de carreira, melhorar o plano de carreira e melhorar o salário inicial”, além de haver debate mais democrático das decisões.

Uma docente que afirmou ter se desligado da universidade por razões pessoais considera que a experiência na USP foi enriquecedora e gratificante e, ao mesmo tempo, “intensa, árdua e frustrante, porque o volume de compromissos, atribuições, demandas, tarefas e cobranças excede aquilo que é possível realizar com a devida qualidade em 40 horas semanais, o que acaba levando à necessidade de dar continuidade ao trabalho nos finais de semana, feriados e férias”.

“Em relação à carreira docente na USP”, prossegue, “temo que o modelo que hoje a configura, o qual pode representar incremento da pressão previamente existente, reforce mais a busca pela sobrevivência no cargo do que o esforço pela relevância da contribuição social produzida, que deveria ser o foco principal de cada docente/pesquisador”.

As pressões por números podem causar o risco de levar a uma “produção redundante”, que “também obtém financiamento de agências de fomento e gera publicações em revistas científicas de alto impacto, atingindo assim padrões exigidos para a manutenção no cargo, mas, não raro, pouco contribui com a sociedade”. “É necessária uma ampla discussão sobre o quanto exigências excessivas podem, em certos casos, inverter o papel do docente/pesquisador, fazendo com que ele passe a trabalhar mais para si, pela permanência no regime e no cargo, do que para a sociedade, que é a verdadeira cliente da universidade pública”, pondera.

“Modelo de carreira é pouco atrativo”

“Dificuldades em realizar pesquisa básica com o apoio de meus pares, tentativas de afastamento para uso de minha licença-prêmio negadas e dificuldades de alinhamento com a chefia” foram as razões apontadas por um docente que se desligou no início de 2021.

Outro docente desligou-se da USP após retornar de um período de dois anos lecionando no exterior. “Decidi dar foco na minha atividade de consultoria empresarial, que concorre em tempo e foco com o regime RDIDP que tinha, além de ser legalmente impossível acumular as duas coisas. Por outro lado, o regime RTP, que seria uma alternativa, tem uma exigência de aulas e obrigações com uma contrapartida de remuneração que julgo baixa. Novamente, concorrendo em tempo e foco com minha atividade de consultoria”, justificou.

O professor também faz críticas às disputas internas por cargos e comissões, que em sua opinião drenam foco e energia que deveriam estar voltados às atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Do ponto de vista da carreira, defende, a universidade deveria adotar novas modalidades de vínculo. “A meu ver a universidade precisa flexibilizar mais modelos de contratação para permitir que profissionais em alguns campos tenham capacidade de contribuir com a universidade sem necessariamente abrir mão de outras atividades que desenvolvem, podendo assim aumentar sua interação na sociedade e logicamente complementando sua renda. Por exemplo, o RTP, na minha visão, foi concebido como uma etapa anterior mirando a posição de RDIDP, com o conceito de um professor que ambiciona o RDIDP. Deveria ser repensado estrategicamente, porque pode ser um cargo que acomode muitos profissionais como uma alternativa de carreira permanente com diferentes configurações e não uma passagem para o RDIDP. Na minha visão a forma como está desenhado hoje é pouco atrativa”, considera.

Vinte e um docentes da ativa faleceram de 2020 a abril deste ano

No mesmo período de 16 meses abarcado pela reportagem, faleceram 21 docentes da ativa da USP. Complicações decorrentes da Covid-19 foram a causa confirmada da morte em um dos casos. Câncer foi a causa informada em seis ocorrências, e infarto em outras cinco.

Houve ainda falecimentos por acidente vascular cerebral, insuficiência pulmonar e um caso de morte em acidente de trânsito. Em cinco casos as unidades não confirmaram a causa, e uma unidade respondeu que o falecimento do docente não estava relacionado à Covid-19, porém a família não autorizou a divulgação de outras informações.

No início de junho, já fora do período abrangido pelo levantamento, foi registrada a morte por Covid-19 do professor Alex da Silva Alves, da Esalq. A doença também foi a causa da morte de docentes aposentada(o)s, como a do professor Alfredo Bosi, da FFLCH, ocorrida no início de abril.

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