Em reunião virtual convocada pela Rede Não Cala! nesta segunda-feira (7/6) para discutir temas como saúde mental e permanência estudantil, docentes, discentes e representantes de entidades e movimentos criaram a Frente USP Solidária e Democrática. Numa primeira etapa, a frente vai reivindicar soluções imediatas e emergenciais para enfrentar problemas que afetam a comunidade uspiana, como a precariedade das instalações do Conjunto Residencial da USP (Crusp) e a atenção aos seus moradores e moradoras.

Entre as demais demandas urgentes levantadas estão a contratação de pessoal para o Centro de Saúde-Escola do Butantã (CSEB) e para a Superintendência de Assistência Social (SAS). Relatos apresentados no encontro dão conta de que cada assistente social da SAS está atendendo até 800 estudantes, situação obviamente insustentável.

Uma carta com as propostas elencadas será elaborada e submetida aos cerca de 70 participantes da reunião. O documento, a ser assinado pela Rede Não Cala! e entidades como Adusp, Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) e Associação da(o)s Pós-Graduanda(o)s (APG-USP Capital) e também aberto a adesões individuais, será então encaminhado às instâncias institucionais, como congregações, diretorias e comissões de Direitos Humanos das unidades, para que apoiem a inclusão desses temas na pauta do Conselho Universitário (Co). Além disso, a carta deve ser lida por docentes nas aulas e circular entre centros acadêmicos, sindicatos, entidades e movimentos para angariar o maior apoio possível.

Como explicou no início da reunião a professora Elizabete Franco Cruz, docente da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) e integrante da coordenação da Rede Não Cala!, ocorrências graves — como três casos de suicídio de estudantes nos últimos dois meses — vêm motivando a mobilização de diversos grupos na USP em torno das questões de saúde mental e da insuficiência das respostas da universidade aos problemas.

“Consideramos a oportunidade de estabelecer um diálogo, conhecer as ideias que estão circulando e pensar propostas de mobilização para que a Reitoria adote providências de fato”, disse sobre a motivação do encontro.

Casos recentes são sintomas de algo mais profundo, considera professora da Medicina

Para além das medidas emergenciais, no horizonte mais amplo está a ideia de que a frente congregue os setores que defendem um projeto de universidade que se contraponha ao modelo implementado pelas últimas gestões, focado em medidas como redução de pessoal, sucateamento de serviços (fechamento de creches e precarização do Hospital Universitário, por exemplo) e adoção de avaliações e processos internos fundamentados em rankings e critérios produtivistas.

“Os suicídios são sintomas de algo muito mais profundo, e a situação do Crusp é uma de suas manifestações”, disse na reunião a professora Ana Flávia Pires d’Oliveira, docente da Faculdade de Medicina e pesquisadora na área de violência de gênero. “Temos problemas na Escola de Aplicação, leitos do HU inativos, creches fechadas… Isso é um projeto. Aí estão a avaliação docente da forma que foi encaminhada e a proposta do Estatuto de Conformidade de Condutas. Temos que enfrentar esse projeto com outro. De que USP estamos falando?”

Na sua visão, o encontro chamado pela Rede Não Cala! é muito importante “para engajar mais gente num projeto de uma USP que não nos envergonhe”. “Estou aqui há mais de 30 anos e conheço muitas coisas bonitas da universidade, de excelência, mas essa palavra já está me dando vergonha e também um pouco de frio na espinha”, disse.

“Quem tem compromisso com a vida e com a democracia tem que se articular”, concordou Elizabete Franco Cruz. “Nosso problema é como não sucumbir à USP que não é nossa, que não é a USP que a gente quer.”

Uma das preocupações da professora da EACH é com a prática da Reitoria de se esquivar das discussões, dando apenas respostas protocolares que não atacam de fato os problemas. A própria Rede Não Cala! já apresentou antecipadamente situações que poderiam acontecer e de fato aconteceram porque não houve retorno e escuta, afirmou. “A USP tem que mudar a concepção. Temos elementos para saber das dificuldades de saúde mental de funcionários, funcionárias e docentes. Os e as docentes ficam abandonados nesse vão, nesse hiato que existe em relação aos alunos, e não sabem romper com isso”, avalia. A resposta vem com base na boa vontade individual. "Estamos nos desdobrando para atender ao sofrimento das pessoas que caem nas nossas mãos. Ficamos focados no individual e não há respostas institucionais efetivas".

“Precisamos de acolhimento psíquico emergencial e permanente”, diz morador do Crusp

Os relatos apresentados na reunião comprovam que os serviços e instâncias da universidade não têm sido suficientes para dar resposta às demandas. Recentemente, o disparo de mensagens automáticas comunicando o jubilamento de centenas de estudantes provocou casos dramáticos que chegaram ao conhecimento da professora Andrea Saad Hossne, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).

Na sua avaliação, é preciso ter mais cuidado com as mensagens automáticas enviadas pelo sistema Júpiter. Ela disse que não tem formação para lidar com as delicadas questões de saúde mental. Sente-se muito sensibilizada com os frequentes casos que acompanha, inclusive de ideação suicida, e também impotente ou sem orientação para ajudar.

"Não temos preparo para lidar com todas as situações, mas existem certas providências que a esta altura, no segundo ano da pandemia, a universidade já teria que ter parado para pensar e adotar", disse Andrea. "É extremamente importante pensar que quem constrói o sistema são pessoas, quem coloca os dados são pessoas".

Um morador do Crusp declarou que a comunidade da moradia estudantil está vivendo "uma epidemia de problemas de saúde mental concomitante à pandemia da Covid-19". "Precisamos de articulação e de uma política de acolhimento psíquico emergencial e permanente. Nós, alunos, estamos gritando isso faz tempo. Precisamos da ajuda de vocês, professores, para conseguirmos deter essas mortes", afirmou.

Outro aluno, pós-graduando que pesquisa exatamente a saúde mental de estudantes da FFLCH, enfatizou que é necessário atuar para além dos eventos críticos. "É preciso haver esse diálogo. O que tem aparecido na minha pesquisa é que entre professores e alunos há um abismo. Os professores parecem não estar prontos para lidar com o novo perfil de alunos que estão entrando na USP". O estudante lamentou ainda que muitas denúncias de problemas "morrem" sem que se saiba de qualquer encaminhamento por parte da universidade.

Simone Rocha Figueiredo, médica que atua no CSEB, relatou que a recente contratação de novos profissionais via convênio com a Prefeitura permitiu uma melhor organização do trabalho e a formação de uma equipe de referência para dar mais atenção às demandas do Crusp, facilitando o acesso de moradora(e)s ao serviço. A médica informou que nas próximas semanas deve ser publicado edital para seleção de agentes universitários de saúde, que vão trabalhar nos moldes dos agentes comunitários da Estratégia Saúde da Família e buscarão estreitar os laços com a(o)s moradora(e)s.

A psicóloga Paula Fontana Fonseca, do serviço de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia, ressaltou que a procura pelos atendimentos no Projeto de Apoio Psicológico Online (Papo) cresceu com a retomada das aulas neste ano. O projeto criou um espaço específico para a(o)s residentes da moradia estudantil, o "Crusp Tamo Junto!", que pode ser procurado pelo e-mail tamojunto@usp.br.

Reitoráveis devem se comprometer com novas políticas, propõe professor da Educação

A professora Michele Schultz Ramos, docente da EACH e vice-presidenta da Adusp, ressaltou a importância de acompanhar a tramitação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2022 na Assembleia Legislativa, uma vez que qualquer iniciativa, para ser viabilizada, depende da garantia dos recursos financeiros para as universidades.

Michele lembrou também da necessidade de reforçar a luta contra a retirada do CSEB do espaço que ocupa desde 1977. O centro enfrenta dificuldades com pessoal desde a realização das duas edições do Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) na USP, em 2015 e 2016, o que dificulta o encaminhamento dos casos por conta da sobrecarga da equipe.

A professora manifestou ainda preocupação com a ideia de criação de mais um “escritório” para lidar com as questões levantadas pelos movimentos, porque aqueles adotados pela universidade nos últimos anos, como USP Mulheres e Escritório de Saúde Mental, não têm dado respostas efetivas aos problemas.

Rosenilton de Oliveira, docente da Faculdade de Educação e integrante da sua Comissão de Equidade, defendeu que, além de pressionar as congregações para incluir esses temas na pauta do Co, também a(o)s reitoráveis devem ser cobrada(o)s publicamente a se comprometer com as políticas de saúde mental, investimentos e contratações na próxima gestão. As eleições para a Reitoria ocorrem no segundo semestre deste ano. 

O professor Paulo Martins, diretor da FFLCH, se disse triste e comovido pelo fato de a USP e a unidade que dirige estarem passando por “coisas tão terríveis”. Martins colocou-se à disposição para articulações da frente com as congregações e o Co e sugeriu que devem ser organizadas visitas periódicas de grupos ao Crusp para conversar com a(o)s moradora(e)s. “Mais do que ter as propostas, temos que encontrar estratégias. A política tem que ser feita por todos nós”, disse.

Em vídeo divulgado em 28/5, o diretor da FFLCH já havia se pronunciado a respeito dos suicídios: “Nessa última semana, a comunidade acadêmica foi assolada por episódios extremamente graves e preocupantes. A perda de três estudantes com o agravante de que dois deles, um aluno de Letras e um aluno de Geografia, por suicídio. Tais fatos, trágicos não só pela própria condição da morte, mas principalmente pela juventude, necessariamente nos levam a uma reflexão, e ela é simples: no que estamos falhando?”
Martins reconhece, na gravação, “que nosso acolhimento carece de reformulação, ainda que nossa faculdade, nossa FFLCH, tenha talvez, dentro da Universidade de São Paulo, os maiores programas de acolhimento, e os mais responsáveis”.

Universidade é autônoma e pode decidir sobre investimentos emergenciais, lembra Coggiola

Reinaldo Souza, diretor do Sintusp, lembrou que os problemas de saúde mental atingem também a(o)s servidora(e)s – uma pesquisa recente demonstrou que transtornos mentais e comportamentais são os que afastam funcionária(o)s do trabalho por mais tempo.

O professor Osvaldo Coggiola, docente da FFLCH e 1º vice-presidente da Regional São Paulo do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Nível Superior (Andes-SN), defendeu que é preciso que a USP se envolva institucionalmente nas iniciativas. Coggiola lembrou ainda que a universidade é autônoma para adotar medidas excepcionais em relação aos jubilamentos no período da pandemia e também para decidir sobre investimentos emergenciais, como reformas na infraestrutura do Crusp.

Por sinal, na tentativa de dar uma resposta aos questionamentos e críticas após a divulgação pela imprensa dos casos de suicídio e da situação de abandono do Crusp, o Jornal da USP publicou texto intitulado “Conjunto Residencial está na rota de mudanças da USP”, no qual a SAS lista algumas medidas.

“As soluções nem sempre são imediatas, mas a Universidade segue criando ações de permanência estudantil, de modo geral, e aquelas voltadas ao Crusp, em especial”, afirma o texto — que, em relação à moradia, cita “edital em andamento para contratação de uma empresa que executará obras no Bloco D”, sem se referir aos demais blocos.

 

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