“A crise corporativa que a McKinsey não previu: a própria”. O título levemente irônico de reportagem publicada em página do jornal Valor de fevereiro deste ano faz óbvia referência a especialidade da megaconsultoria internacional McKinsey&Company, que é aconselhar seus clientes a orientar empreendimentos ou superar dificuldades. O intenso envolvimento da McKinsey com um dos mais lucrativos negócios da indústria farmacêutica, a venda de opioides, terminou mal para a consultoria, gerando uma multa de US$ 574 milhões para pôr fim a uma investigação judicial nos EUA. Na sequência o CEO global da McKinsey, o sócio-sênior Kevin Sneader, perdeu o cargo em votação realizada por 650 outros sócios-sêniores, não conseguindo renovar seu primeiro mandato, iniciado em 2018.

A julgar por relatos do New York Times, ao longo de sua gestão Sneader teve de se defrontar com “desventuras em série”, das quais a crise dos opioides — nome-fantasia para a epidemia de consumo desses medicamentos que já matou mais de 400 mil pessoas apenas nos EUA — e seu desfecho financeiro negativo para a consultoria foi apenas o ápice. De fato, a longa tradição de envolvimento da McKinsey em escândalos foi enriquecida nos últimos anos, com a particularidade, porém, de que os danos colaterais parecem cada vez maiores.

Os problemas incluem um explosivo caso de corrupção na África do Sul, que levou à renúncia do então presidente Jacob Zuma em fevereiro de 2018 e à devolução de milhões de dólares que a McKinsey havia recebido em projetos suspeitos desenvolvidos para as empresas estatais Transnet e South African Airways (SAA). E a participação da McKinsey na elaboração da sórdida política antiimigração levada a cabo pelos EUA durante o governo de Donald Trump, que implicou a prisão de crianças em campos de concentração (“centros de detenção”) depois de separadas àforça de seus pais.

Por módicos US$ 20 milhões, a megaempresa prestou serviços de consultoria à Immigration and Customs Enforcement (ICE), a agência estatal norte-americana encarregada de formular e executar a política de imigração. Segundo o Times, “as recomendações para economizar dinheiro que os consultores fizeram incomodaram alguns funcionários de carreira do ICE”, porque “propuseram cortes nos gastos com alimentação para migrantes, bem como com assistência médica e supervisão de detidos”, além de “procurar maneiras de acelerar o processo de deportação”. Depois que o caso foi revelado, a McKinsey foi alvo de protestos populares nos EUA, e o então CEO Sneader teve de conduzir outro recuo estratégico.

Mais recentemente, o jornal inglês The Guardian revelou que a McKinsey “é um consultor de referência para o governo do Reino Unido e conseguiu contratos lucrativos durante a crise da Covid”. Um desses contratos, de valor equivalente a R$ 4,166 milhões, visava nada menos do que transformar a agência governamental responsável pelo sistema público de saúde, o NHS: “No ano passado, os consultores da McKinsey receberam £ 563.000 por seis semanas de trabalho — £ 14.000 por dia — para criar um substituto permanente para a Public Health England [PHE], definindo sua ‘visão, propósito e narrativa’”.

Esta foi a consultoria escolhida em sigilo pela gestão M.A. Zago-V. Agopyan para desenvolver o projeto “USP do Futuro”, por R$ 5 milhões, a serem pagos por um grupo de grandes empresários. Tudo a pedido do então governador Geraldo Alckmin (PSDB) e intermediado pela “organização social” Comunitas. Em 2018, obrigada por decisão judicial, em ação proposta pela Adusp, a exibir a documentação completa do projeto encerrado um ano e meio antes, a Reitoria apresentou “Termo de Quitação” com data posterior à ordem da 4ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça (TJ-SP)!

Encerrado o nebuloso projeto, seus coordenadores — Patricia Ellen da Silva, então sócia-diretora da McKinsey Brasil, e Américo Ceiki Sakamoto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) — transferiram-se de armas e bagagens para o governo do tucano João Doria, empossado em janeiro de 2019. Tornaram-se os dois principais gestores da Secretaria do Desenvolvimento Econômico (SDE), formalmente responsável pelas universidades estaduais: Patricia foi nomeada secretária, Sakamoto tornou-se secretário-executivo. Completando o time, Thiago Liporaci, chefe de Gabinete da Reitoria nas gestões de M.A. Zago e Vahan Agopyan, agora responde pelo gabinete da SDE. Um verdadeiro case de sucesso.

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