Cláudia Toledo foi nomeada pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro (foto: MEC)

O Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) divulgou no último sábado (17/4) uma manifestação na qual diz que causam preocupação “as frequentes modificações na estrutura da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior], em especial, as trocas de dirigente máximo desta instituição]”. “Consideramos que esta função não pode estar subordinada às diretivas de alinhamento político. Sua qualificação técnica, seu abrangente conhecimento sobre a pós-graduação e sobre o sistema de educação e seu currículo acadêmico devem ser os critérios predominantes na escolha de dirigentes deste tipo de órgão”, afirma a nota.

O comunicado não faz menção ao nome da nova presidente da Capes, Cláudia Mansani Queda de Toledo, que assumiu o cargo na última quinta-feira (15/4), em substituição a Benedito Guimarães Aguiar Neto, nomeado pelo então ministro da Educação Abraham Weintraub em janeiro do ano passado e demitido sem maiores explicações pelo atual ministro, Milton Ribeiro.

Cláudia Toledo exercia o cargo de reitora do Centro Universitário de Bauru, mantido pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), na qual se formaram em Direito o próprio Milton Ribeiro e André Mendonça, ex-ministro da Justiça e atual advogado-geral da União. Cláudia também se formou em Direito na escola, que pertence à sua família: foi fundada por Antônio Eufrásio de Toledo em 1951 — mesmo ano da criação da Capes — e teve como primeiro diretor o advogado, professor e depois deputado federal Ulysses Guimarães.

Na avaliação do Cruesp, “um dirigente da Capes dialoga com os mais variados órgãos acadêmicos e da administração pública, diálogo este que se insere no contexto da busca de soluções para problemas complexos, principalmente neste momento crítico pelo qual passa o desenvolvimento científico e tecnológico do país”.

“Liderar este diálogo exige preparo, conhecimento profundo sobre o sistema e sobre o estágio da ciência brasileira, para que, a partir da complexidade do cenário atual, se definam as estratégias de futuro. O desenvolvimento científico e tecnológico do país não permite improvisações e não admite mais descontinuidades, sob pena de enorme retrocesso que comprometerá seu futuro”, prossegue o comunicado.

“A legitimidade para o diálogo institucional é pré-requisito para o sucesso das estratégias a serem definidas para qualificar e consolidar cada vez mais o sistema existente. Sem estes, como é o caso da presente nomeação, antevemos enormes dificuldades na gestão futura da Capes. E lamentamos profundamente que isto ocorra”, concluem os reitores.

Além dos reitores da USP, Vahan Agopyan – atual presidente do Cruesp –, da Unicamp, Marcelo Knobel, e da Unesp, Pasqual Barretti, o comunicado é assinado pelo professor Antônio José de Almeida Meirelles (Tom Zé), nomeado para a Reitoria da Unicamp na semana passada e empossado no cargo na tarde desta segunda-feira (19/4).

Curiosamente, em 19/4, dois dias após a divulgação da nota do Cruesp, o reitor da USP divulgou nota oficial em que relata reunião realizada na mesma data com a nova presidente da Capes. “A Reitoria da Universidade de São Paulo recebeu, com satisfação, a iniciativa da presidente da Capes, professora Cláudia Mansani Queda de Toledo, para reunião virtual, no dia 19 de abril, quando foram tratados assuntos relevantes da pós-graduação brasileira. Foram apresentadas as primeiras medidas de sua gestão, que se alinham com sua carta de intenção divulgada à comunidade acadêmica”, declara Agopyan na nota.

“A reunião foi produtiva e outros encontros serão agendados quando a USP, por meio da Pró-Reitoria de Pós-Graduação, apresentará pautas que considera relevantes para a pós-graduação de nossa Universidade e para o Sistema Nacional de Pós-Graduação. Também participaram da reunião o pró-reitor de Pós-Graduação da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, e o professor associado da Faculdade de Direito e coordenador da área de Direito na Capes, Otávio Rodrigues”.

Entidades citam pequena experiência, perfil incompatível com a função e “desmonte” da pós-graduação

A indicação de Cláudia Toledo não foi bem recebida na comunidade acadêmica. A diretoria da Sociedade Brasileira de Física, o Fórum Nacional de Coordenadores de Programas de Pós-Graduação em Física e Astronomia e a Sociedade Astronômica Brasileira divulgaram nota na qual afirmam que a análise do currículo disponível na Plataforma Lattes “mostra que a indicada não possui as qualidades esperadas para o cargo”.

“Consta no Curriculum Lattes que ela é atualmente a reitora desta instituição e que foi coordenadora de pós-graduação entre 1994 e 2000, ou seja, foi coordenadora de pós-graduação antes de ser doutora”, diz a nota. “Sua produção acadêmica é escassa e tem pouquíssima experiência com formação de recursos humanos — de fato sequer concluiu uma orientação de doutorado. Apesar de ser reitora desta instituição, seu endereço profissional é o do escritório de advocacia Queda e Toledo Sociedade de Advogados, do qual é sócia.”

O Centro Universitário de Bauru possui apenas um curso de pós-graduação — o de Sistema Constitucional de Garantia de Direitos —, o mesmo no qual Cláudia obteve seu doutorado, prosseguem as entidades. “Na última avaliação da Capes, esse programa obteve nota 2 no âmbito acadêmico que foi mantida após recurso; isso implicaria seu fechamento”, diz a nota.

“Em suma, o currículo da Dra. Toledo não é compatível com o perfil desejado de presidentes da Capes. Tememos, portanto, que a importante missão da Capes esteja ameaçada com esta nomeação. Esperamos que o Ministério da Educação reveja a nomeação e indique alguém com histórico profissional e formação mais adequados para presidir a Capes”, afirma o texto.

A Sociedade Brasileira de Matemática considera que a “indicação recente e inesperada, jamais dialogada com os demais agentes do sistema (…), coloca em xeque um legado de mais de 60 anos de um delicado concerto de ações, pessoas e instituições que resultou em um modelo, enfatizamos, em que disputas políticas de menor expressão jamais lograram qualquer influência, garantindo que a Capes fosse respeitosa e sabiamente preservada em sua missão”.

A Sociedade Brasileira de Farmacologia e Terapêutica Experimental (SBFTE) afirma em nota que “são muito preocupantes os sinais evidentes de descompromisso com conquistas que nos foram muito caras, e que fizeram da Capes uma agência de Estado respeitada internacionalmente”. A nomeação, em meio ao processo de avaliação do último quadriênio, “gera instabilidade, é totalmente inoportuna e causa perplexidade”. Na avaliação da SBFTE, o sistema nacional de pós-graduação do país passa por um “desmonte”, que culmina “com a substituição da presidência da Capes, sem justificativa e em meio a um processo tão complexo como é a avaliação quadrienal”.

Pastor Feliciano ameaça entregar cargo de vice-líder se nomeação não for revogada

As críticas partem também das próprias trincheiras aliadas. O deputado federal Pastor Marco Feliciano (Republicanos-SP) diz que vai entregar o cargo de vice-líder do governo caso a nomeação seja mantida, noticiou a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, na última sexta-feira (16/4).

“A doutora Cláudia de Toledo, que agora será responsável pela formação de todos os professores universitários do Brasil, chama Paulo Freire de gênio, defende o ensino da ideologia de gênero, do feminismo e da pauta LGBT nas escolas e ainda ataca o presidente Bolsonaro, chamando-o veladamente de totalitário e de falso messias”, disse Feliciano.

Embora Cláudia não mencione Jair Bolsonaro em seus textos, Feliciano acredita que a referência a “novos (pseudos) messias” num artigo acadêmico se dirige ao presidente. “Pastores do Brasil inteiro estão me ligando e me enviando mensagens cobrando um posicionamento duro.”

“Se o governo não reavaliar essa nomeação, e esta senhora continuar, entregarei o meu cargo de vice-líder do governo, pois não terei como explicar para todos os que estão me pedindo uma explicação sobre esta nomeação estranha. E quero crer que o ministro da Educação sabia do passado dela e faz o presidente passar esse vexame e tem que no mínimo ser repreendido. E só para que saibam, apoiei em primeira mão a indicação do ministro Milton, e por isso o procurei sobre esse assunto e ele simplesmente desconversou”, afirmou o deputado ao jornal.

Além de enfrentar o repúdio da comunidade acadêmica, a nova presidente da agência terá que dar explicações também sobre uma suspeita de plágio em sua dissertação de mestrado, intitulada “O ensino jurídico no Brasil e o Estado Democrático de Direito – Análise crítica do ensino de Direito”, defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2008. De acordo com notícia publicada na manhã desta segunda-feira pelo colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, há no trabalho “trechos inequivocamente copiados de outras fontes sem a devida citação”, “passagens copiadas às vezes integralmente ou com cosméticas alterações de palavras”.

Utilizamos cookies

Utilizamos cookies neste site. Você pode decidir se aceita seu uso ou não, mas alertamos que a recusa pode limitar as funcionalidades que o site oferece.