Superintendente do Hospital Universitário alega, falsamente, que atendeu a um pedido do diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, mas foi o próprio Margarido que lhe propôs a substituição da professora por outra pessoa. Ex-diretora da FCF e membro do Conselho Deliberativo do hospital, Primavera coordenava o Grupo de Trabalho-HU, que vem criticando a conduta errática da gestão de Margarido. Em assembleia, funcionários do HU exigem que ela seja reconduzida à função

O superintendente do Hospital Universitário (HU), Paulo Margarido, desligou a professora Primavera Borelli, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), da chefia técnica do Departamento de Farmácia e Laboratório Clínico (DFLC). Ex-diretora da FCF e coordenadora do Grupo de Trabalho (GT-HU) criado no âmbito do Conselho Deliberativo do hospital, Primavera fora designada para aquela função de chefia em novembro de 2020, pelo reitor Vahan Agopyan, por indicação da atual direção da FCF.

 “Em razão da necessidade de alinhamento das Chefias Técnicas dos Departamentos com as diretrizes da gestão no que se refere ao planejamento do ensino, pesquisa e assistência, solicito a V.Sa a substituição da atual Chefe Técnica do Departamento de Farmácia e Laboratório Clínico, Profa. Primavera Borelli, cuja designação está sendo cessada a partir de hoje, 26/2”, comunicou Margarido ao diretor da FCF, Humberto Ferraz, por ofício.

No entanto, para legitimar sua decisão, o superintendente do HU atribuiu-a ao diretor da faculdade. “No dia 24/2 fui chamada para uma reunião, presencial, a ser realizada no dia 25/2 na qual o professor Paulo, em não mais que 3 minutos, comunicou-me, verbalmente, que ‘o diretor da Farmácia’ havia pedido que eu saísse da chefia técnica porque eu não estava ‘alinhada como os projetos dele (diretor)’”, relatou Primavera em carta aberta à FCF, datada de 4/3. “Em 1º/3, em telefonema da assessoria da Superintendência, fui informada que o professor Paulo comunicava que eu não fazia mais parte do GT-HU”.

Primavera reiterou ao Informativo Adusp informação que consta da sua carta: a de que ainda havia recebido “nenhum ofício, quer da Superintendência do HU, quer da Diretoria da FCF, comunicando o término de minha designação”. Em consulta ao Sistema Marteweb, ela descobriu que apenas em 4/3 a situação funcional foi cessada, com data retroativa de 25/2.

A professora só se deu conta da manobra de Margarido uma semana depois da reunião com ele. “Em 3/3, vi a pauta do CTA [Conselho Técnico Administrativo] da FCF que trata da indicação de novo chefe técnico e fiquei surpresa ao ver, no anexo, uma carta [em] que o Superintendente solicita a minha substituição por não estar alinhada com as demais chefias”, explicou na carta aberta. Primavera estranhou a atitude do diretor da sua unidade, que sequer a consultou a respeito da substituição proposta pelo superintendente do hospital.

“Refletindo sobre tudo, se a iniciativa realmente partiu da Superintendência do HU, estranho o fato da FCF não ter pedido informações ou justificativas mais detalhadas ao HU. Afinal de contas, seria uma atitude inédita, por parte do HU, que teria que ser muito bem justificada por tratar-se de indicação da FCF. Pelos fatos aqui expostos vislumbra-se que as inconsistências nas informações, quer do professor Paulo Margarido, superintendente do HU, quer do professor Humberto Ferraz, diretor da FCF, revelam que critérios técnicos e administrativos, próprios de uma gestão ética e comprometida com as Instituições e com seus funcionários, não foram adotados”.

Na avaliação de Primavera, há uma “grande contradição” entre o motivo alegado para seu desligamento do DFLC-HU “e as atitudes e opiniões concordantes do Superintendente às minhas atividades até agora exercidas”. “Sempre assumi claramente a responsabilidade pelas minhas atitudes, inclusive no período em que estive na Diretoria da FCF. Não entendo, não posso aceitar, além de estar extremamente decepcionada ao me deparar com atitudes não compatíveis com a verdade dos fatos e de suas reais motivações, comportamento esse não compatível com a ética acadêmica e profissional”.

Reunidos em 6/3, membros do GT-HU discutiram o episódio e entenderam que a indicação para coordenação do GT foi feita pelo Conselho Deliberativo do HU, em reunião colegiada. Quando cessou o mandato da professora Primavera como diretora da FCF (o que automaticamente a desligava do Conselho Deliberativo, composto por diretora(e)s de unidades da USP que têm estudantes estagiando no HU, representação discente e representação do funcionalismo técnico-administrativo), o Conselho Deliberativo indicou e deliberou por sua continuidade na coordenação do GT. Assim, o órgão autorizado a eventualmente destituí-la da coordenação seria aquele colegiado — e não o superintendente. 

Funcionários repudiam desligamento da professora e exigem reversão

A atitude de Margarido provocou reação dos funcionários do HU, que aprovaram, em assembleia convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp), moção de protesto e repúdio à decisão do superintendente do HU. “Tal destituição se deu de forma repentina e inesperada, sem qualquer justificativa plausível”, diz a moção, afirmando que embora a comunicação de desligamento realizada verbalmente em 26/2/21 pelo superintendente tenha se realizado supostamente a pedido do diretor da FCF, na verdade foi Margarido quem a solicitou a este último: “Acreditamos que essa inversão de autoria deu-se pelo fato do não cumprimento de normas regimentais da faculdade que exigem a anuência de órgãos internos, como sua Congregação e CTA, para validação deste desligamento. Isso demonstra que a motivação tem caráter político, não estando relacionada à competência da professora Primavera”.

Como o cargo de chefia fora atribuído a ela muito recentemente, continua a moção aprovada na assembleia, não houve tempo hábil para as mudanças e aprimoramento dos setores de Farmácia e Laboratório Clínico. “Ainda assim, destacamos que alguns problemas de funcionários que estão há anos sem solução começaram a finalmente a ser resolvidos sob sua chefia, apesar do pouco tempo. Nesse sentido, entendemos que a referida destituição ocorreu de forma unilateral e arbitrária, e vai na contramão das necessidades dos trabalhadores do hospital e da construção de um ambiente democrático que vinha avançando dentro desse Departamento”.

Ainda segundo os funcionários, além de ser “figura notável por excelentes serviços prestados há mais de 40 anos em sua atuação junto à Faculdade de Ciências Farmacêuticas e à Universidade”, a professora vinha exercendo “inestimável colaboração à comunidade acadêmica e à sociedade por sua atuação propositiva e crítica em relação às questões que afligem o HU neste contexto da pandemia, no qual as políticas de anos de desmonte cobram seu preço”.

Por fim, a moção reforça o viés político e persecutório do desligamento de Primavera da chefia do DFLC: “Entendemos que é pela firmeza de suas posições que agora é afastada de suas atribuições. Essa destituição ocorre em benefício da política autoritária do atual Superintendente, que não comporta o diálogo que a professora vinha travando com os trabalhadores. O objetivo dessa destituição é silenciar as poucas vozes dissonantes na direção do hospital”. Por tudo isso, conclui, “repudiamos a interrupção de seu vínculo e exigimos a reversão deste desligamento”, convocando “aos demais pares dentro desta universidade e da sociedade civil para lutarem conosco para que este desligamento autoritário seja sumariamente cancelado”.

SINTPq manifesta solidariedade a Primavera e repudia destituição

O Sindicato dos Trabalhadores em Pesquisa, Ciência e Tecnologia de São Paulo (SINTPq) emitiu nota pública sobre a destituição de Primavera da chefia do DFLC: “Repudiamos esta ação por parte da superintendência do HU que, segundo o informe de 3/3/2021 do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP), foi motivada por pedido do diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, e que no entendimento deste sindicato constitui retaliação à professora Primavera”.

O real motivo da destituição, continua a nota, “foi o encaminhamento ao Ministério Público de São Paulo de cópia de vinte e três ofícios enviados à direção do HU pelo Grupo de Trabalho (GT-HU)”. O SINTPq lembra que o GT-HU reúne representações da Adusp, Sintusp, Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp), Coletivo Butantã na Luta e ainda representações estudantis, e  que vinha atuando sob a presidência da professora Primavera Borelli.

“A retaliação, seja por exoneração, dispensa ou ostracismo dos profissionais em ciência e tecnologia das Instituições Públicas de Ensino e Pesquisa que denunciam as atrocidades do governo paulista já está entre nós, e não é mais velada”, diz a nota do sindicato. “O Governo do Estado de São Paulo tem imposto uma política de terror contra estas Instituições Públicas de Pesquisa (IPPs) desde o início do seu mandato, extinguindo institutos e empresas públicas, como no caso do PL 529/20, fundindo e reformulando administrativamente alguns institutos, a exemplo dos ligados ao meio ambiente que foram jogados na Secretaria da Agricultura, em claro conflito de interesses”.

“As instituições que não puderam ser extintas ou reformuladas de acordo com os interesses dos financiadores eleitorais que agem no Governo do Estado têm seus profissionais de carreira silenciados ou destituídos quando em desacordo com os interesses do lobismo, como é o caso da professora Primavera Borelli”.