“Estamos em São Paulo e no Brasil à beira de um colapso na saúde. Isso exige medidas urgentes e coletivas”, disse o governador João Doria em coletiva realizada nesta quarta. Na avaliação do professor Domingos Alves, docente da FMRP, as medidas “são necessárias, mas insuficientes e não devem conter o agravamento da situação”. Na sua avaliação, pode ocorrer por aqui uma falta de leitos semelhante à vivida no Amazonas e em outros Estados

O Grupo de Trabalho para a Elaboração do Plano de Readequação do Ano Acadêmico (GT PRAA) na USP divulgou comunicado nesta quarta-feira (3/3) no qual anuncia que o Plano USP para o retorno gradual às atividades essenciais voltou imediatamente à fase de máxima restrição e que “as atividades presenciais nos campi estão suspensas”.

Com a determinação, “os campi terão restrição rigorosa de acesso”, diz o comunicado. “Não serão permitidas atividades que possam resultar em aglomeração, mesmo em ambiente aberto.”

“Bibliotecas, restaurantes, centros esportivos, centros culturais, auditórios, salas de aula, salas de pós-graduandos, salas de pós-doutorandos, e quaisquer outros ambientes internos com potencial de aglomeração devem permanecer fechados”, prossegue o comunicado.

Devem ser mantidas em funcionamento, “sempre respeitando o protocolo de biossegurança”, diz o texto, “atividades essenciais vinculadas à saúde, manutenção de equipamentos especiais, manutenção de biotérios e de alimentação de animais, e outras atividades especiais que o Dirigente entenda serem essenciais para não acarretar prejuízo de qualquer natureza à Universidade”.

As determinações valem até o dia 26/3, quando o GT PRAA emitirá novo comunicado.

Coordenado pelo vice-reitor Antonio Carlos Hernandes, e integrado pelos professores André Lucirton Costa, Edson Cezar Wendland, Gerson Aparecido Yukio Tomanari, Mônica Sanches Yassuda e Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, o GT solicita ainda que a comunidade universitária “contribua no esclarecimento da população” para evitar aglomerações, respeitar os protocolos de biossegurança e restringir a mobilidade somente para as situações realmente necessárias.

O comunicado foi publicado no mesmo dia em que o governo paulista anunciou que todos os Departamentos Regionais de Saúde (DRS) do Estado retornam à fase vermelha do Plano SP no próximo sábado (6/3). “Estamos em São Paulo e no Brasil à beira de um colapso na saúde. Isso exige medidas urgentes e coletivas”, disse o governador João Doria (PSDB) na coletiva realizada nesta quarta. “São 14 dias de fase vermelha. Vamos enfrentar as duas piores semanas da pandemia no Brasil desde março do ano passado.”

Na véspera do anúncio, o Estado registrou o maior número de óbitos num só dia desde o início da pandemia: 468 mortes. Foi a segunda vez no ano com mais de 400 mortes em 24 horas — no dia 9/2, 424 pessoas perderam a vida vitimadas pela Covid-19. Na quarta, data do anúncio do retorno à fase vermelha, foram 367 mortes.

O total de óbitos no Estado de São Paulo chegou a 60.694, com 2,08 milhões de casos. A taxa de ocupação de leitos de UTI destinados à Covid-19 está em 76,3%. Considerando-se apenas a Região Metropolitana, o índice sobe para 79,1%. Nesta quarta, 7.415 pessoas estavam internadas em estado grave, o número mais alto desde o início da pandemia — há dez dias, eram 6.410 pacientes graves.

Secretário da Saúde queria escolas fechadas, mas não levou — e Doria libera igrejas

De acordo com o Plano SP, a fase vermelha permite o funcionamento normal apenas de serviços essenciais como indústrias, bancos, lotéricas, serviços de saúde e de segurança públicos e privados, construção civil, farmácias, mercados, padarias, lojas de conveniência, feiras livres, bancas de jornal, postos de combustíveis, lavanderias, hotelaria e transporte público ou por aplicativo.

Comércio e serviços considerados não essenciais só podem atender em esquema de retirada na porta, drive-thru e pedidos para entrega — não pode haver consumo local em bares e restaurantes, por exemplo. Academias, salões de beleza, cinemas, teatros, shoppings, lojas de rua, concessionárias, escritórios e parques devem ficar fechados. O toque de restrição continua em vigor a partir das 20h em todas as regiões, com recomendação para circulação restrita em vias públicas e fiscalização ampliada até as 5h.

O aumento das restrições para combater o agravamento da pandemia no Estado foi recomendado pelos especialistas do Centro de Contingência do Coronavírus e já havia sido comunicado em videoconferência entre Doria e 618 prefeitos e prefeitas na terça-feira (2/3). As prefeituras também podem impor medidas mais restritivas, como ocorreu em Araraquara, que decretou lockdown no dia 21/2 e está em processo de retomada gradual das atividades.

Apesar das restrições, o governo Doria manteve a permissão para o funcionamento das escolas públicas e privadas, com presença de no máximo 35% dos alunos por turno. As prefeituras têm autonomia para cancelar as aulas presenciais, medida adotada em São Bernardo do Campo, por exemplo, desde 27/2.

O secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, defendeu na terça-feira o fechamento total das escolas. “Isso é um tema que estamos discutindo. Se estamos entendendo que as pessoas estão ameaçadas frente ao vírus, frente a um colapso, temos de avaliar a circulação das pessoas em situações que poderiam ser evitadas e uma delas é a escola”, disse o secretário em entrevista à rádio CBN.

De acordo com a Folha de S. Paulo, Gorinchteyn foi obrigado por Doria a divulgar mais tarde uma nota afirmando que as declarações à rádio expressavam uma opinião pessoal, e não a visão do governo.

Também causou disputa entre a cúpula do Executivo e os médicos do Centro de Contingência a decisão de classificar as “atividades religiosas de qualquer natureza, obedecidas as determinações sanitárias”, no rol das atividades essenciais, conforme decreto publicado por Doria na terça-feira no Diário Oficial. Com isso, as igrejas podem seguir com celebrações presenciais, embora com limitação do número de frequentadores, mesmo na fase vermelha, medida vista como movimento do governador para não se indispor especialmente com os segmentos evangélicos, cada vez mais importantes no tabuleiro eleitoral.

Aumento do número de internações pode levar a fila de espera para leitos de UTI

Na avaliação do professor Domingos Alves, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e um dos idealizadores do portal Covid-19 Brasil, as medidas “são necessárias, mas insuficientes e não devem conter o agravamento da situação no Estado, segundo os dados que temos visto”. “Manter escolas e igrejas abertas pode causar fissuras importantes no sistema de saúde. Podemos ter um cenário muito similar ao que ocorreu no Amazonas e ao que está ocorrendo em outros Estados”, diz.

Em São Paulo, aponta o professor, o número de internações diárias por Covid-19 subiu em uma semana de 1.704 para 1.994. “Essa taxa pressupõe um agravamento muito grande do quadro já para os próximos dias”, afirma.

A única região que tem uma taxa de ocupação de leitos de UTI aceitável é a Baixada Santista (51,2%), considera Alves. “Em todas as demais, diferentemente do que ocorreu na primeira onda, a taxa de ocupação de leitos está subindo de uma maneira bastante importante, e em algumas já passou de 90%. Se essas regiões chegarem ao limite, não vai haver como regular esses pacientes para outros lugares, e teremos filas de espera de pessoas que deveriam ser internadas em UTI e não terão vaga. É esse o cenário que está surgindo já para a semana que vem, mesmo com as medidas de restrição do Plano SP”, explica.

Outra preocupação do docente é em relação a prefeitos e representantes de setores da economia que têm dado declarações de que não acatarão as medidas em sua plenitude.

Alves compara o cenário da pandemia no Brasil a uma praia em que toda a comunidade estivesse reunida e na qual os cientistas estejam avisando desde novembro do ano passado que vai chegar um tsunami avassalador. “A partir daí se criou uma guerra de narrativas, primeiro por causa das eleições municipais, depois com o natal e ano novo, mais tarde com as aglomerações de carnaval. Enquanto isso, o comércio seguiu aberto e o vírus se manteve em circulação”, descreve. “Agora estamos vivendo uma situação em que se decidiu finalmente por medidas para conter o tsunami, mas elas são similares a construir barreiras de areia na beira da praia para conter essa onda que está chegando.”

Fiocruz alerta para agravamento simultâneo de diversos indicadores no país

Desde o final de fevereiro, o Brasil vive uma escalada na média móvel de óbitos por Covid-19, na contramão dos países com maior número de mortos pela doença, como Estados Unidos, México, Índia e Reino Unido. Em todos eles, a curva de mortos é descendente, enquanto por aqui — onde o governo federal boicota todas as medidas de  prevenção, declara-se contra restrições de circulação, incentiva o consumo de medicamentos ineficazes para a Covid-19 e que podem causar outros problemas de saúde, patrocina guerras com governos estaduais e municipais e não tem uma política nacional de vacinação em massa da população — ocorre exatamente o contrário. O total de mortes diárias no país bate recordes sucessivos. Apenas na quarta-feira, 1.840 pessoas perderam a vida para a doença.

Nesta terça, a Fundação Oswaldo Cruz publicou em boletim extraordinário uma nota técnica com um alerta de que, pela primeira vez desde o início da pandemia, verifica-se em todo o país o agravamento simultâneo de diversos indicadores, como o crescimento do número de casos e de óbitos, a manutenção de níveis altos de incidência de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), a alta positividade de testes e a sobrecarga dos hospitais. No momento, 19 unidades da Federação apresentam taxas de ocupação de leitos de UTI acima de 80%. O cenário é alarmante e, de acordo com a análise da Fiocruz, representa “apenas a ponta do iceberg de um patamar de intensa transmissão no país”.

Os pesquisadores defendem “a construção de uma agenda nacional para enfrentamento da pandemia, mobilizando os diferentes poderes do Estado brasileiro (executivo, legislativo e judiciário), os diferentes níveis de governo (municipais, estaduais e federal), empresas, instituições e organizações da sociedade civil (de nível local ao nacional)”. Essa agenda “deve combinar medidas de mitigação que devem durar até o fim da pandemia, com medidas de supressão sempre que a ocupação de leitos UTI Covid-19 estiver acima de 80%, bem como as que envolvem campanhas de comunicação para maior fortalecimento destas medidas”.

Em artigo publicado na Folha de S. Paulo na terça-feira, intitulado “A próxima onda pode ser devastadora”, o infectologista Esper Kallás, professor titular do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da USP, alerta para o fato de que “o cenário pode se agravar ainda mais com o alastramento de variantes virais de maior transmissibilidade”. “A variante inglesa já é detectada em grande número na cidade de São Paulo e já há relatos de transmissão local da variante de Manaus, a P.1, em diferentes locais do estado de São Paulo”, aponta.

Segundo Kallás, “ainda temos algum tempo, pouco tempo, para amenizar a gravidade do problema”. “As imposições dos estados e municípios são desagradáveis, todos sabem disso. Restrições de mobilidade, fechamento de atividades econômicas, obrigatoriedade de uso de máscaras. E pior, o efeito das medidas restritivas tende a reduzir com a fadiga da população. Entretanto, não restam outras alternativas ao constatarmos que os serviços de saúde, públicos e privados, estão prestes a entrar em colapso”, afirma.