Trata-se da empresa de consultoria que foi contratada — em sigilo total e sem licitação — pelo reitor M.A. Zago e por seu vice Vahan Agopyan, em 2016, para elaborar um projeto de reforma da Universidade de São Paulo que teve implementadas pela Reitoria várias de suas propostas — embora sua documentação completa jamais tenha sido apresentada

A McKinsey&Company, consultoria norte-americana que recebeu R$ 5 milhões durante a gestão reitoral M.A Zago-Vahan Agopyan (2014-2017) para elaborar um projeto de reforma da universidade (que depois ficaria conhecido como “USP do Futuro”), acaba de admitir sua responsabilidade direta na chamada “epidemia de opioides” ocorrida nos Estados Unidos e aceitou pagar uma indenização correspondente.

De acordo com o jornal The New York Times, que investigou o caso e publicou amplas reportagens, a admissão de responsabilidade é inédita na história dessa megaempresa internacional. Presente no Brasil e em mais de uma centena de outros países e frequentemente envolvida em escândalos, como os relacionados a processos de privatização encomendados por governos, até então a McKinsey escapara incólume.

A McKinsey concordou em pagar US$ 573 milhões para encerrar investigações judiciais sobre seu papel nas vendas do opioide OxyContin pela empresa farmacêutica Purdue Pharma — que abriu falência em decorrência das diversas ações judiciais. O medicamento é um analgésico que causa enorme dependência química. A McKinsey envolveu-se ativamente na estratégia e na implementação de vendas massivas do OxyContin. O acordo envolve procuradores-gerais de 47 Estados norte-americanos, além do distrito de Columbia e cinco territórios, mas não impede uma possível ação do governo norte-americano contra a empresa.

Os processos judiciais contra a Purdue Pharma e a famosa consultoria revelaram, segundo o New York Times, uma ampla e rica documentação que registra “como a McKinsey trabalhou para impulsionar as vendas do analgésico OxyContin da Purdue Pharma em meio a uma crise de opióides nos Estados Unidos que contribuiu para a morte de mais de 450 mil pessoas nas últimas duas décadas”.

O New York Times descreve assim o papel desempenhado pela consultoria nesse gravíssimo caso: “O extenso trabalho da McKinsey com a Purdue incluiu aconselhá-la a se concentrar na venda de lucrativas pílulas de altas doses, mostram os registros, mesmo depois que a farmacêutica se declarou culpada em 2007 de acusações criminais federais de que havia enganado médicos e reguladores sobre os riscos do OxyContin. A empresa também disse a Purdue que poderia ‘se unir’ a outros fabricantes de opioides para impedir o ‘tratamento rigoroso’ pela Food and Drug Administration [FDA]”. Como se sabe, a FDA é o orgão responsável nos Estados Unidos pela aprovação e controle da produção e comercialização de medicamentos.

“Maura Healey, a procuradora-geral de Massachusetts, disse que a investigação envolveu a revisão de ‘milhares e milhares de documentos e e-mails’ que, em conjunto, contavam ‘a história do delito da McKinsey’”, relata o jornal. “‘Sempre foi uma questão de responsabilizar aqueles que criaram e lucraram com a epidemia de opioides’, disse ela, a primeira procuradora-geral do estado a investigar os negócios da McKinsey com Purdue”.

Em 2009, exemplifica o New York Times, a McKinsey enviou um relatório para a Purdue dizendo que novas táticas comerciais aumentariam as vendas de OxyContin em até US$ 400 milhões anuais e sugeriu “impulsionadores de vendas” com base na ideia de que “os opioides reduzem o estresse e tornam os pacientes mais otimistas e menos isolados”, de acordo com a ação movida pelo Estado de Massachusetts. “A McKinsey trabalhou com executivos da Purdue para encontrar maneiras de ‘conter as mensagens emocionais de mães com adolescentes que tiveram uma overdose’ de OxyContin”. A revista brasileira Superinteressante publicou esclarecedora reportagem sobre esse medicamento, que designou como “O remédio mais perigoso do mundo”.

A consultoria não admitirá irregularidades, mas concordará com as restrições ordenadas pela justiça ao seu trabalho com alguns tipos de entorpecentes que causam dependência. A McKinsey também reterá e-mails por cinco anos e divulgará potenciais conflitos de interesse ao fazer licitações para contratos estaduais. “A quantia que a McKinsey está pagando é substancialmente mais do que ganhou com o trabalho relacionado a opioides com a Purdue ou Johnson & Johnson, Endo International e Mallinckrodt Pharmaceuticals, seus outros clientes fabricantes de opioides”, relata o New York Times baseando-se em uma fonte que acompanhou o acordo.

Adusp denunciou em 2016 acordo nebuloso entre USP, Comunitas e McKinsey

O acordo entre a USP, na gestão comandada pelo reitor M.A. Zago, e a McKinsey&Company talvez continuasse em segredo até os dias de hoje, se a Adusp não tivesse recebido, em 14 de setembro de 2016, uma denúncia anônima sobre o caso e, em seguida, desse publicidade a ela, fazendo com que a Reitoria fosse apanhada de surpresa e tivesse de improvisar sucessivas (e contraditórias) notas oficiais a respeito.

Até mesmo o Conselho Universitário havia sido posto de lado pela Reitoria: o principal colegiado da USP só tomou conhecimento do affair McKinsey depois que a Adusp tornou pública a existência do acordo envolvendo a consultoria, a “organização social” Comunitas (uma entidade criada pela professora Ruth Cardoso e fortemente ligada ao PSDB), que agiu como intermediária, e a USP. Pressionada, nos meses seguintes a Reitoria foi revelando, “a conta-gotas”, informações sobre o projeto.

Descobriu-se rapidamente que a iniciativa do acordo USP-McKinsey partiu do Palácio dos Bandeirantes. O próprio governador à época, Geraldo Alckmin (PSDB), patrocinou uma reunião em 5 setembro de 2016 com a participação de Zago e Vahan, do “coordenador do projeto USP do Futuro” Américo Ceici Sakamoto (professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto), de quatro executivos da consultoria norte-americana — entre os quais Nicola Calicchio Neto, presidente da McKinsey América Latina, e Patrícia Ellen, da McKinsey Brasil (hoje secretária de Desenvolvimento Econômico do governo Doria) — e de magnatas como Rubens Ometto (grupo Cosan), Roberto Setúbal (grupo Itaú) e Pedro Passos (Natura).

Soube-se, mais tarde, que os “serviços” da McKinsey custariam R$ 5 milhões, em tese cobertos pela Comunitas, que por sua vez teria recebido essas verbas daquele mesmo grupo de empresários: Ometto, Setúbal, Passos e ainda Pedro Wongtschowski (grupo Ultra), Ana Maria Diniz (Península) e Beto Sicupira (Anheuser-Busch Inbev), que é um dos homens mais ricos do mundo. Posteriormente, Wongtschowski e Maria Alice (Neca) Setúbal (irmã de Roberto) seriam nomeados pelo então reitor M.A. Zago membros do Conselho Consultivo da USP.

Os serviços da consultoria seriam “doados” à USP pelos generosos empresários envolvidos na iniciativa. E o reitor inventou uma narrativa edificante para justificar o financiamento do projeto: os empresários que assumiram essa despesa, dizia ele, eram ex-alunos da USP, interessados em investir na instituição que os formou. Seriam os tais “Amigos da USP”, assim oficialmente designados no “Termo de Doação”, documento firmado entre Comunitas,  McKinsey e USP. Mas a pessoa jurídica “Amigos da USP” jamais foi qualificada nos papéis oficiais que tratam do assunto, o que mostra que alguma coisa deu errado no planejamento.

Somente em dezembro de 2016, três meses depois que a Adusp divulgou a denúncia anônima, é que M.A. Zago comunicou ao Conselho Universitário os nomes dos financiadores do projeto (quando a Adusp já os havia publicado). Como relatou à época o Informativo Adusp: “Embora sempre apresentados como um ‘grupo de ex-alunos’, a Reitoria admitiu que dos seis empresários designados apenas quatro teriam sido alunos da USP: Pedro Passos (Natura), Pedro Wongtschowski (Ultra), Roberto Setúbal (Itaú) e Rubens Ometto (Cosan). Os outros dois não são ex-alunos: Ana Maria Diniz (Península e Centro de Liderança Pública) e Beto Sicupira (Anheuser-Busch Inbev e 3GCapital), cujo nome aparece grafado erroneamente no slide da Reitoria [apresentado aos conselheiros], como ‘Sucupira’”.

Se tudo se resumisse a uma comédia “pastelão” não haveria problemas. Mas não: era tudo muito grave. A Adusp precisou processar judicialmente a Reitoria para obter parte dos documentos sobre o caso. Além disso, o documento de encerramento juntado pela Reitoria ao processo, denominado “Minuta de Termo de Recebimento de Doação, com Encerramento do Acordo de Cooperação e Contrato de Prestação de Serviços de Consultoria”, celebrado pela Comunitas, pela USP e pela Mckinsey, tem data de 24 de abril de 2018, a atestar que só foi confeccionado depois que a justiça determinou à Reitoria que o apresentasse!

Outro documento juntado aos autos pela Reitoria, com tarja de “confidencial” e denominado “Criando as bases para a USP do Futuro – Relatório Final”, no qual se indica que “cobre a primeira fase do projeto USP do Futuro”, tem data de 24 de outubro de 2016, a revelar um inexplicável intervalo de um ano e meio entre esse relatório final e a assinatura do termo de encerramento do contrato.

Outros documentos, como os relatórios finais das fases 2 e 3 do projeto e as atas das reuniões da coordenação, jamais foram apresentados, ou jamais foram produzidos — o que seria igualmente inaceitável, uma vez que os termos contratuais firmados entre as partes exigiam que tais papeis fossem elaborados. De qualquer modo, a documentação obtida após decisão judicial favorável permitiu saber que as tratativas sigilosas entre USP e McKinsey tiveram início já em 2015, nove meses antes da oficialização do acordo entre uma e outra.

O fato é que depois do envolvimento com a McKinsey a Reitoria passou a aplicar uma série de medidas ultraliberais na universidade, envolvendo em especial maior controle sobre o corpo docente — nova “Comissão Permanente de Avaliação” e “Estatuto do Docente”; austeridade fiscal absoluta — “Parâmetros de Sustentabilidade Econômico-Financeira” e programas de demissão voluntária-PIDV; e destinação de maiores recursos para “unidades-chave” segundo a ótica do produtivismo acadêmico e da visão empresarial, em detrimento das finalidades sociais da universidade pública e gratuita.

Na reunião do Conselho Universitário de 4 de outubro de 2016, frente às críticas de conselheiros aos acordos finalmente vindos a público, o reitor M.A. Zago reagiu defendendo a McKinsey: “Deve ser uma companhia boa. Deve dar boas sugestões, porque se os empresários estão em geral contratando esta consultoria e pagando bem por ela, ela deve ser interessante”. Uma opinião que se revelou inconsistente, para não dizer flagrantemente pueril, frente às revelações advindas da crise dos opioides nos Estados Unidos.  

A Reitoria da USP ainda deve à comunidade universitária e às sociedades paulista e brasileira muitas explicações sobre o projeto encomendado à McKinsey. O caso OxinConty-Purdue Pharma é um enérgico lembrete disso.