Exclusão do pessoal terceirizado do processo de vacinação contra Covid-19 só foi revertida pela mobilização liderada pelo Sintusp ao longo da semana. “Tal decisão, tomada unilateralmente pela Superintendência do Hospital Universitário desconsiderando decisão do Conselho Deliberativo, parece-nos discriminatória, antiética e imoral”, avalia a professora Michele Schultz Ramos, 1ª vice-presidenta da Adusp

Na quarta-feira (3/2), terceiro dia de paralisação da(o)s trabalhadora(e)s para reivindicar vacinação contra a Covid-19 para todas as pessoas que trabalham no Hospital Universitário (HU) da USP — efetiva(o)s, terceirizada(o)s e residentes —, a Superintendência do hospital comunicou que havia recebido 800 doses da vacina de Oxford-AstraZeneca.

A vacinação da(o)s servidora(e)s que ainda não haviam recebido a primeira dose da imunização começou já na noite de quarta-feira e prosseguiu na quinta-feira (4/2).

O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) organizou um ato para protestar contra a exclusão da(o)s funcionária(o)s terceirizada(o)s do plano de vacinação. “Sequer as trabalhadoras que higienizam as áreas de alto risco (como o gripário e a UTI) foram chamadas, e o mesmo ocorre com os vigilantes que estão em contato direto com pacientes”, denunciou o Sintusp na ocasião. “Essa discriminação de Paulo Margarido [superintendente do HU] contra os terceirizados é inadmissível, pois a Covid-19 não discrimina terceirizados ou efetivos!”

No ato, o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) comunicou que protocolou nesta quinta-feira um requerimento de convocação do superintendente do HU para prestar depoimento sobre a situação do hospital na Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa (Alesp). Também se manifestaram a vereadora Luana Alves (PSOL), psicóloga formada pela USP que fez estágio no HU, e o vereador Celso Giannazi (PSOL).

O HU já havia aplicado 700 doses da CoronaVac. O total de 1.500 pessoas vacinadas, somando-se as doses do produto de Oxford-AstraZeneca, ainda é insuficiente para o contingente de 1.998 pessoas que necessitam ser imunizadas no HU, aponta o sindicato.

A pressão surtiu efeito. Em reunião realizada nesta sexta-feira (5/2), foi informado ao Conselho Deliberativo (CD) e ao Grupo de Trabalho (GT-HU) que funcionária(o)s terceirizada(o)s começaram a ser vacinada(o)s, conforme critérios de idade e morbidades. Vale dizer que em reunião realizada no dia 21/1 o CD havia estabelecido níveis de prioridade que não consideravam distinção entre efetiva(o)s e terceirizada(o)s.

“Como justificar a protelação na vacinação de terceirizada(o)s que atuam na UTI, Pronto-Socorro e gripário? Tal decisão, tomada unilateralmente pela Superintendência do HU desconsiderando decisão do CD, parece-nos discriminatória, antiética e imoral”, avalia a professora Michele Schultz Ramos, 1ª vice-presidenta da Adusp e integrante do GT-HU.

“Depois de dias de paralisação, que garantiram a vacina a todos os funcionários efetivos do HU, e do ótimo ato realizado nesta quinta-feira, 4/2, as terceirizadas e residentes finalmente também começaram a ser chamadas para vacinação!”, registrou o Boletim do Sintusp publicado nesta sexta. “A Assembleia realizada às 20 horas, em 4/2, decidiu suspender a paralisação, mas seguir a luta até a vacinação de todos os trabalhadores efetivos, terceirizados e estagiários que fazem o hospital funcionar, e contra qualquer ameaça de punição aos grevistas!”, destaca a publicação. 

Reunião no MP-SP pauta discussões sobre futuro do hospital e substituição do superintendente

O CD do HU e as entidades que se mantêm à frente no trabalho pela sua recuperação — especialmente o Coletivo Butantã na Luta (CBL), a Adusp e o Sintusp — participaram de reunião convocada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e realizada em formato remoto na tarde desta quarta-feira (3/2). A Adusp foi representada pela professora Michele Schultz Ramos.

Entre os encaminhamentos do encontro está o agendamento de reuniões para tratar especificamente da discussão de um projeto estruturante e de longo prazo para o HU e da substituição do atual superintendente, Paulo Ramos Margarido.

“Lamentavelmente esta Superintendência faliu e perdeu a legitimidade”, considera Lester Amaral Junior, da coordenação do CBL. “Sabemos que essa luta pelo HU tem avanços e recuos. O momento, agora que conseguimos alguns avanços, é de potencializá-los. Temos que dar rapidamente os próximos passos para avançar no projeto estruturante do hospital.”

Amaral lamenta que o representante da Procuradoria-Geral da USP presente à reunião não tenha conseguido responder às questões formuladas sobre as contratações temporárias no hospital (em andamento e futuras) e sobre a destinação de R$ 20 milhões obtidos por emenda parlamentar para o HU em 2019, cuja aplicação deveria ter ocorrido no ano passado.

Na reunião, o presidente do CD, professor Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, diretor da Faculdade de Medicina da USP, reconheceu a importância da atuação do Grupo de Trabalho do HU (GT-HU), criado em junho do ano passado e composto pelas entidades e por representantes discentes.

Desencontros de informação e “triagem médica” feita por seguranças persistem no hospital

O CD agendou a reunião desta sexta com os integrantes do GT-HU em resposta a ofício enviado na última segunda-feira (1º/2). No documento, o grupo de trabalho salienta a necessidade de discussão do plano de vacinação “da(o)s servidora(e)s, residentes e funcionária(o)s terceirizada(o)s que trabalham no HU”, uma vez que “os critérios de prioridade estabelecidos pelo próprio CD em reunião do dia 21 de janeiro — pessoas que trabalham na UTI e gripário (contato direto com pacientes com Covid-19), pessoas com mais de 60 anos e morbidades, pessoas que realizam atendimento a pacientes, pessoas que não estão em contato com pacientes e, por último, pessoas dos setores administrativos, em teletrabalho e afastamentos — não foram seguidos pela Superintendência”.

O GT-HU menciona ainda que novamente há relatos de diversas fontes de que no hospital a “triagem médica” vem sendo realizada, muitas vezes, “pelo guarda da segurança que se encontra na porta da recepção, fato este totalmente inadequado”.

Adicionalmente, prossegue o ofício, usuária(o)s que procuram o HU têm recebido “informações contraditórias e equivocadas como ‘o HU só trata pessoas em estado grave da Covid-19’ (sic) ou ‘os exames de Covid são apenas para funcionária(o)s do hospital’ (sic)”.

“Os relatos evidenciam que as diretrizes do HU não estão sendo adequadamente transmitidas e compreendidas pelas diferentes equipes (aparentemente, há desencontros sobre procedimentos entre equipes médicas e seguranças), acarretando confusão entre as mesmas e a(o)s usuária(o)s que procuram o HU”, considera o GT-HU.

Assim como fizeram na reunião com o MP-SP, os representantes da entidade já haviam defendido no ofício que é necessário agendar uma reunião com pauta única e específica para tratar do futuro do hospital. “É preciso discutir sobre projetos estruturantes para o HU, que proponham e especifiquem sua caracterização e funcionalidade enquanto hospital universitário, mas também de um hospital que, segundo informações contidas na Resolução USP 8.058/2020, tem atualmente uma área de abrangência de 1 milhão de pessoas, o que traz diversas implicações e preocupações”, aponta o GT-HU.

Na avaliação do grupo, os problemas de atendimento à comunidade “só se acentuaram com a atual pandemia da Covid-19”, na qual “foram tomadas ações de curto prazo, mas que podem se tornar perenes, não resolvendo os reais problemas do HU”.

Estagiários que atuam no hospital não foram incluídos no plano de vacinação

Questionado, na reunião desta sexta entre CD e GT-HU, quanto ao número de estagiários que atuam no hospital, o superintendente Paulo Margarido não soube informar. Os estagiários simplesmente deixaram de ser incluídos no plano de vacinação, embora muitos deles estejam na chamada “linha de frente” do atendimento a pacientes do HU — e portanto mais expostos a eventual contato com portadores de Covid-19. Assim, formou-se um grupo encarregado de fazer levantamento a respeito, composto por docentes da Escola de Enfermagem, da Faculdade de Saúde Pública e do Instituto de Psicologia.

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