O Jornal da USP, publicação digital oficial da Universidade de São Paulo, está sendo usado como plataforma publicitária para cursos pagos de especialização ou do tipo master of business administration (MBA), oferecidos ou geridos por entidades privadas ditas “de apoio”. Não se trata de publicidade tradicional (“propaganda”), mas de matérias supostamente jornalísticas inseridas em espaço nobre do noticiário da universidade.

Assim, no dia 18/1 foi publicada matéria intitulada “Cursos de especialização e MBA em Gestão e Negócios recebem inscrições”, com a seguinte linha fina (destaque): “Cursos são parceria entre a Fundação Vanzolini e a Escola Politécnica da USP, em São Paulo”. Ligada ao Departamento de Engenharia de Produção da Poli, a Fundação Vanzolini é uma das mais antigas fundações privadas ditas “de apoio” à USP e objeto de diversas controvérsias relatadas tanto na Revista Adusp como no Informativo Adusp.

O texto informa que o “Departamento de Engenharia de Produção [e não a fundação] está com inscrições abertas” para quatro novas turmas de cursos de especialização e uma turma de MBA, com início previsto para fevereiro de 2021 e “operacionalizados pela Fundação Vanzolini, instituição mantida e gerida por professores da USP”. O viés puramente comercial da iniciativa é confirmado pela narrativa-padrão utilizada para descrever suas finalidades: “Os cursos pretendem proporcionar a possibilidade de aumento da empregabilidade, o reconhecimento profissional, o senso empreendedor e o redirecionamento de carreira, além de tornar o currículo mais competitivo”.

Um link remete para o site da própria Fundação Vanzolini, onde é possível constatar que o “investimento” (sic) necessário a quem se interessar pelo MBA em Engenharia de Produção é de nada menos do que 24 parcelas mensais de R$ 1.825, o que totaliza R$ 43.800.

Os cursos de especialização, por sua vez, são denominados “Pós-Graduação USP em Qualidade e Produtividade” (R$. 28.800), “Pós-Graduação USP em Gestão de Projetos” (R$ 33.120), “Pós-Graduação USP em Administração Industrial” (R$ 30.240) e “Pós-Graduação USP em Logística Empresarial” (R$ 28.160). As respectivas páginas destacam o fato de que todos oferecem “certificado emitido pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo”.

Publicada no dia 15/1, outra matéria em formato semelhante, intitulada “MBA com especialistas da USP apresenta últimas tecnologias em segurança de dados”, traz informações sobre o “MBA em Gestão de Segurança de Dados”, que vem a ser um “curso com aulas a distância promovido pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos, em parceria com o Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI)”.

Esse mesmo texto já traz as informações sobre os valores envolvidos: taxa de inscrição de R$ 500, “taxa de matrícula de R$ 850 e 12 mensalidades no valor de R$ 1.250 cada, mas é possível concorrer a 20 bolsas de estudo”. Somando-se a taxa de inscrição, matrícula e mensalidades chega-se ao total de R$ 16.350.

O formato de tais publicações assemelha-se ao que, na mídia impressa tradicional, ficou conhecido como “informe publicitário”. Como fica claro pela leitura da linha fina do MBA do ICMC: “Curso aborda novas tecnologias de segurança como blockchain, inteligência artificial para segurança em redes de computadores e aplicações web baseadas em nuvens; inscrições vão até 15 de fevereiro”.

Como as demais matérias publicadas pelo Jornal da USP,  as duas aqui citadas contam com fotografias ilustrativas coloridas e botões de compartilhamento nas redes sociais, o que valoriza seu conteúdo e favorece sua divulgação.

Ao veicular esse tipo de material, as mídias públicas mantidas pela USP agem de modo a fortalecer a “indústria” de cursos pagos fomentada pelas fundações ditas “de apoio” e por outros grupos privados, em prejuízo do caráter público e gratuito da universidade, bem como de seu referenciamento social, na medida em que os cursos pagos têm óbvia natureza excludente.

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