Receberá R$ 400 mil, no máximo, para sediar evento que vai gerar R$ 260 milhões. Uma das luxuosas embarcações à venda tem cinquenta pés e custa R$ 4 milhões, quantia igual a dez vezes a possível remuneração da USP pela cessão do local — que inclui “melhorias”, doação de um barco e parte da receita do estacionamento

Contra vento e maré, a Reitoria manteve a realização do São Paulo Boat Show (SPBS), feira náutica privada que tem início nesta quinta-feira (19/11) na Raia Olímpica da USP, situada na Cidade Universitária do Butantã. Os organizadores esperam contar com cerca de 30 mil visitantes, dispostos a pagar 70 reais pelo ingresso.

O recrudescimento da Covid-19 no Estado de São Paulo e na capital, que obrigou o governo estadual a rever o cronograma do “Plano São Paulo” e fez com que a própria Reitoria recuasse da determinação de impor o retorno compulsório dos funcionários técnico-administrativos às atividades presenciais, não parece incomodar o reitor Vahan Agopyan, que se engajou pessoalmente na promoção do evento e dá a entender que os “protocolos de segurança” são suficientes para neutralizar os riscos de aglomeração na Raia.

Em razão da pandemia, “a Raia da USP vai receber, no máximo, 2 mil pessoas simultaneamente”, segundo o site da revista Veja. “Até o ano passado, no Pavilhão da Imigrantes, eram 6 mil visitantes por dia”. Esse dado, porém, é contraditório com o total aguardado de 30 mil visitantes ao longo da feira: se respeitado o limite diário de 2 mil visitantes, serão 10 mil pessoas ao cabo dos cinco dias de exposição.

Nada menos do que setenta embarcações foram levadas para a Raia nos últimos dias, além de trinta píeres, que deixaram Angra dos Reis (RJ) em direção à Cidade Universitária. Os sites especializados em negócios e em náutica informam detalhes saborosos sobre o evento, prioritariamente voltado para um público endinheirado.

“Espera-se que a 23ª edição do principal evento náutico da América Latina movimente mais de R$ 260 milhões em negócios, um crescimento projetado de 20% em relação a 2019, quando 250 embarcações foram comercializadas”, noticiou o site da revista Veja já em 19/10. “Por coronavírus, São Paulo Boat Show mergulha na Raia da USP”, estampou nesta terça-feira (17/11) o site Exame, cometendo um trocadilho de gosto duvidoso. “A 23ª edição do evento ocorre entre os 19 e 24 de novembro com a pretensão de movimentar mais de R$ 260 milhões, 20% a mais que no ano passado”.

Para sediar um evento desse porte na única Raia Olímpica do Brasil, a USP receberá uma magra remuneração, como revelou o Informativo Adusp em primeira mão. Nas palavras da própria Reitoria: “O custo da cessão foi de R$ 90 mil, além da realização de melhorias na estrutura da Raia (balizamentos e troca de cabeamento), a doação de um barco de 18 pés, avaliado em R$ 70 mil, e 50% da renda do estacionamento do evento destinada ao Centro de Práticas Esportivas (CEPE). Somados esses investimentos, o Grupo Náutica, promotor da feira, espera deixar um legado que pode chegar a R$ 400 mil para a Raia da USP”.

Tal “legado” que “pode chegar a R$ 400 mil” parece modestíssimo quanto comparado aos preços de alguns dos modelos que serão vendidos na feira instalada na Raia, como se depreende do relato dos sites especializados: “Em um verdadeiro show náutico, o SPBS receberá inúmeros tipos de embarcações, com tamanhos que variam entre 12 e 50 pés, e valores que vão de R$ 45 mil a R$ 3,4 milhões”, informa o site Mercado&Eventos.

A embarcação Solara 500 HT, que será lançada no SPBS, é avaliada em R$ 4 milhões e será o modelo de mais alto valor do evento: “Com 50 pés, o barco possui espaço interno diferenciado e uma área de popa de impressionar. Com um design esportivo, graças à área fechada no convés, possui teto solar elétrico e ainda oferece três camarotes na cabine, além de cozinha completa e dois banheiros”.