Em vídeo promocional que não faz qualquer referência à Covid-19, reitor Vahan Agopyan tenta justificar a realização da feira náutica sob a alegação de que a Raia “é uma infraestrutura que pertence a toda a sociedade”. Em contrapartida pela uso do espaço entre 19 e 24/11, a USP vai receber R$ 90 mil reais, “melhorias na estrutura”, doação de um barco de 18 pés e “50% da renda do estacionamento”

“Prepare-se! Você vai viver uma experiência inesquecível. Nada será como antes”, promete o vídeo de apresentação do São Paulo Boat Show (SPBS), feira náutica que será realizada de 19 a 24 de novembro na Raia Olímpica da Universidade de São Paulo, na Cidade Universitária do Butantã — e que, espera-se, deverá atrair dezenas de milhares de visitantes endinheirados interessados na compra de iates, lanchas, jet-skis, botes infláveis e outros equipamentos flutuantes.

Realmente, “nada será como antes”: depois da Covid-19, nada será igual ao que era. Ou quase nada. A Reitoria da Universidade de São Paulo, por exemplo, é imutável no que diz respeito ao seu modus operandi. Ela decidiu autorizar a realização do SPBS na Raia Olímpica em plena pandemia e — como costuma ocorrer em diversos episódios de cessão de uso de vias e equipamentos da Cidade Universitária para realização de eventos privados — não há transparência nessa estranha transação.

As edições anteriores do SPBS ocorriam em salões fechados (indoor). O advento da epidemia inviabilizou esse formato, em razão dos riscos de contágio, de modo que os organizadores do evento buscaram um local a céu aberto (outdoor) onde pudessem exibir e comercializar seus equipamentos. Há fartas evidências de que obtiveram o apoio do governo estadual para sediá-lo na Raia Olímpica da USP, que o vídeo de apresentação do evento — uma animação onde foram enxertadas algumas cenas reais — faz parecer uma atraente marina.

A animação de 3 minutos e 44 segundos “povoa” virtualmente a Raia com lanchas e outras embarcações, atracadouros desmontáveis, passarelas, bilheteria, restaurante, além de outras instalações típicas de eventos comerciais, tais como stands de vendas, lounge, food trucks etc. Há uma referência de meros 20 segundos ao “protocolo de saúde”,  numa sequência em que aparece meteoricamente um dispenser de álcool em gel e, depois, a frase “distanciamento entre mesas”, ilustrada por imagens de visitantes virtuais sentados em mesas distantes vários metros umas das outras. A isso se resume o “protocolo de saúde”, não havendo orientação contra eventuais aglomerações. Curiosamente, na animação nem os “funcionários” do SPBS nem os “visitantes” usam máscaras.

Repudiada em assembleia geral do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), a realização desse evento privado que poderá atrair à Cidade Universitária dezenas de milhares de pessoas em plena epidemia de Covid-19 foi tem causado preocupação, e mesmo indignação, na comunidade acadêmica. “É simplesmente um tapa na cara de quem está trabalhando que nem um doido durante essa pandemia, com risco de se contaminar e contaminar a própria família. A USP não merece os docentes que tem”, comentou, a propósito do evento, o professor Bruno Gualano, da Faculdade de Medicina (FM). “Tem muita gente dando duro: médicos, enfermeiros, técnicos, alunos e pesquisadores. Isso é injusto demais”, declarou ele ao Informativo Adusp.

“Verdadeiro cartão postal da cidade de São Paulo”, diz diretor da EEFE

O reitor da USP, Vahan Agopyan, e o diretor da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE), Júlio Cerca Serrão, engajaram-se diretamente na promoção comercial do evento, ao participarem de um vídeo promocional ao lado de empresários como Ernani Paciornik (Grupo Nautika) e Thalita Vicentini (diretora do SPBS) e de dois representantes do governo João Doria (PSDB): os secretários estaduais de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, e de Turismo, Vinicius Lummertz.

Vídeo promocional tem participação do reitor da USP e do diretor da EEFE

No primoroso vídeo de 2 minutos e 49 segundos de duração, postado em 5/11 na página do SPBS no Facebook, Vahan se esforça para racionalizar a cessão da Cidade Universitária para a realização do evento: “O Boat Show aqui no câmpus da USP, utilizando a Raia, uma infraestrutura que é de toda a sociedade...”, diz ele. Tal afirmação, porém, choca-se com a realidade, na medida em que o uso da Raia vem sendo privatizado — desde a gestão passada a Reitoria deve explicações sobre o assunto — e o acesso da população ao câmpus central é restrito.

A frase seguinte do reitor é ainda mais desastrada: “Quando tem um evento desse tipo, em que a sociedade vem à universidade, a sociedade compartilha com a universidade as suas preocupações e as suas ações, isso ajuda muito essa integração”. Serrão, da EEFE, não deixa por menos: “Nós estamos pensando no aproveitamento de um espaço muito nobre, que é a nossa Raia, que é um verdadeiro cartão postal da cidade de São Paulo”.

Igualmente digna de nota é a contribuição dos representantes do governador ao vídeo do SPBS. “A Raia da USP é a única do Brasil. Dentro da Universidade de São Paulo, a maior da América Latina. Ou seja: nós temos um atrativo fantástico”, comemora o secretário Penido. “Nós estávamos indoor, agora estamos outdoor”,  destaca por sua vez o secretário Lummertz, elogiando a “criatividade” da solução encontrada para o evento: “Estamos fundando uma relação com a USP, com conhecimento, e uma semana náutica para celebrar a economia, a inteligência da área, o mercado da área, e a relação com a academia, com a sociedade, com o rio [Pinheiros] que está sendo despoluído, com o lazer, com uma série de elementos que aparecem juntos, começando uma nova etapa náutica, e a relação com a cidade de São Paulo”.

Embora todos apareçam usando máscaras, nenhum dos protagonistas do vídeo faz qualquer referência à Covid-19. A pandemia é cuidadosamente escamoteada pelos protagonistas da peça promocional, em flagrante contraste com a proteção que ostentam no rosto, sem falar no fato de que Vahan, Serrão, Penido e Lummertz exercem importantes cargos públicos. No caso dos dois últimos, integrantes do primeiro escalão de um governo que fez do combate à pandemia uma plataforma eleitoral que envolveu pronunciamentos midiáticos diários.

Retorno compulsório pode estar vinculado à realização do Boat Show

A cessão do espaço para a iniciativa privada teria ocorrido no início do segundo semestre. “No blog de Amaury Jr, lê-se, já em julho!, que o São Paulo Boat Show já tinha local e data para acontecer. Basta consultar o link. O mês de julho correspondeu a 1/3 das mortes por Covid-19 desde o início da pandemia. Quer dizer, no pior mês da pandemia, a Reitoria negociava a locação da Raia Olímpica para um evento privado”, revelou um funcionário administrativo da universidade, indignado com a atitude da gestão Vahan Agopyan-Antonio Hernandes. “Outros eventos foram cancelados, até mesmo o Carnaval de 2021 foi adiado pela Prefeitura de São Paulo. E, na contramão da saúde pública, a Reitoria aceitou ser a sede de um evento pago e com aglomeração. Com previsão de 30 mil pessoas”.

Na opinião desse funcionário, que por receio de represálias prefere não se identificar, o SBPS é a motivação para o retorno compulsório às atividades presenciais determinado pelo “Plano USP”. Seu raciocínio, baseado na resposta oficial do reitor às considerações da Congregação do Instituto de Psicologia, faz sentido: “Como justificar a abertura da Universidade para um evento privado, enquanto vigora a ausência de aulas presenciais, o estrito controle dos espaços — como dos laboratórios — e o trabalho remoto? Então, o sétimo documento [do GT PRAA] sofreu claras pressões políticas, mas de outra ordem. A ‘opinião pública’ é uma expressão irônica de mal estar da Reitoria por ter realizado uma negociação imoral”, argumenta.

“Para não melindrar docentes e alunos, o cálculo político foi claro”, prossegue. “Somente pode ser justificada a existência do evento se a Universidade estiver funcionando fisicamente e não remotamente. Não havendo aulas, que se faça o retorno compulsório dos trabalhadores”. Ele avalia que o caso, por sua gravidade, merece ser investigado pelo Ministério Público (MPE-SP).

O Informativo Adusp indagou à Reitoria da USP, por intermédio de sua assessoria de imprensa, por qual motivo a Raia Olímpica foi cedida para o SPBS e quais os valores cobrados dos organizadores desse evento. “A Raia Olímpica é usualmente cedida para eventos esportivos e afins mediante ressarcimento”, declarou a Reitoria. “O custo da cessão foi de R$ 90 mil, além da realização de melhorias na estrutura da Raia (balizamentos e troca de cabeamento), a doação de um barco de 18 pés, avaliado em R$ 70 mil, e 50% da renda do estacionamento do evento destinada ao Centro de Práticas Esportivas (CEPE). Somados esses investimentos, o Grupo Náutica, promotor da feira, espera deixar um legado que pode chegar a R$ 400 mil para a Raia da USP”.

A Reitoria foi questionada, ainda, sobre a razão para que tal autorização seja mantida, “sabendo-se que a pandemia Covid-19 continua provocando óbitos no Estado de São Paulo e, nos últimos dias, tem ocorrido crescimento do número de casos confirmados de contágio na capital”. A resposta foi a seguinte: “A flexibilização das atividades na Universidade está sendo realizada de acordo com o Plano USP para o retorno gradual das atividades presenciais. A Cidade Universitária entrou na Fase C do Plano USP no dia 6 de novembro, momento em houve uma diminuição das restrições para as atividades esportivas em ambiente externo”.

No entender do professor Rodrigo Ricupero, presidente da Adusp, duas questões chamam particularmente a atenção nas respostas da Reitoria. “A primeira é tentar passar a ideia que se trata de um evento esportivo e que por isso não existiria um problema para a sua realização no atual estágio da pandemia. Contudo, o evento é na verdade uma feira de barcos e produtos náuticos — portanto, trata-se de um evento comercial, nada tendo de esportivo”, assinala. “A segunda questão que causa espanto é o valor de R$ 90 mil pagos pelo uso direto da Raia por quase uma semana. A própria exaltação da importância da Raia por parte dos organizadores sugere que tal valor é de fato irrisório para um evento dessa magnitude, com produtos de altíssimo valor”.

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