“Só os funcionários estão sendo intimados a trabalhar presencialmente”,  mas as aulas presenciais “só serão retomadas em 2021”, protesta o Sintusp. “Essa é uma greve diferente, pois não nos recusamos a trabalhar, queremos manter o nosso trabalho em segurança, considerando que a situação daa pandemia ainda requer cuidados. Por isso, nesta greve, manteremos o teletrabalho, bem como as atividades presenciais essenciais, recusando-nos a comparecer aos dias de convocação presenciais”

Os funcionários técnico-administrativos da USP entram em “greve sanitária, em defesa da vida”, a partir desta segunda-feira (9/11), conforme decisão de assembléia geral virtual da categoria realizada em 5/11, como forma de protesto contra o retorno compulsório às atividades presenciais determinado pela Reitoria da USP apesar da pandemia Covid-19, com base na sétima versão do “Plano USP” elaborado pelo Grupo de Trabalho para a Elaboração do Plano de Readequação do Ano Acadêmico de 2020 (GT PRAA).

Em nota intitulada “Por que entraremos em Greve Sanitária nesta Segunda, dia 9/11?”, a diretoria colegiada do Sintusp aponta sete motivos para o movimento, a começar pelo fato de que a Reitoria não considerou as necessidades reais do trabalho neste momento, uma vez que “a maioria dos funcionários estão mantendo o funcionamento da universidade através do teletrabalho, e garantindo presencialmente todo o trabalho essencial e mesmo atividades não essenciais em caráter eventual”.

Duas das razões apontadas remetem à conduta discriminatória da Reitoria: “Porque só os funcionários estão sendo intimados a trabalhar presencialmente quando as aulas presenciais só serão retomadas em 2021” e “Porque enquanto a Reitoria se preocupa em preservar os professores e estudantes, pelo menos 13 funcionários morreram de Covid-19, de acordo com levantamento do Sintusp. Lembrando que no início da quarentena os funcionários continuaram trabalhando mesmo após a suspensão das aulas”.

De acordo com a nota do Sintusp, a Reitoria “desconsiderou todo o acúmulo da área médica sobre o que compõe os fatores de risco para desenvolver a forma grave da Covid-19”, uma vez no plano elaborado pelo GT PRAA “não estão incluídos nesse grupo os maiores de 60 anos, e mesmo as comorbidades só são consideradas para aqueles que as apresentem na sua forma grave ou descontrolada”. Ainda em referência ao GT, o texto do Sintusp observa que “seis dirigentes elaboraram um plano que atinge a vida de milhares de pessoas sem consultar ninguém, sem nenhuma representação de trabalhadores na comissão que elaborou o plano, e sem nenhum diálogo com o sindicato

Por fim, registra que até o momento a Reitoria não respondeu a nenhuma das solicitações de reunião para negociação dos pontos críticos do Plano USP. “Diante do exposto, os funcionários e funcionárias da USP iniciam nesta segunda uma Greve Sanitária, em Defesa da Vida, por tempo indeterminado. Essa é uma greve diferente, pois não nos recusamos a trabalhar, queremos manter o nosso trabalho em segurança, considerando que a situação da pandemia ainda requer cuidados. Por isso, nesta greve, manteremos o teletrabalho, bem como as atividades presenciais essenciais, recusando-nos a comparecer aos dias de convocação presenciais”.

O Sintusp divulgou no seu boletim a relação de 13 funcionários da USP e trabalhadores terceirizados que foram a óbito em razão da Covid-19. São eles: Carlos Sérgio de Castro Silva (Viola), da Superintendência de Assistência Social; Edila Aparecida da Silva, do Instituto de Psicologia; Edison Geraldo de Araújo (Mineirinho), da Faculdade de Medicina; Euripides Honofre da Silva, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto; Geraldo José da Cunha (Geraldinho), da Superintendência de Tecnologia da Informação; Gilson Francisco de Oliveira, da Prefeitura do Câmpus da Capital; Jeton Neves, do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais de Bauru (HRAC); Marcello Bitencourt, da Rádio USP; Jair Alves de Souza, Manuel Nunes de Souza (ambos vigilantes do Museu de Arte Contemporânea), José Alípio dos Santos, Odair Reis de Castro (ambos a serviço do Instituto de Ciências Biomédicas) e Maurício (o sobrenome não foi fornecido), todos trabalhadores da empresa Albatroz.

Em nota à imprensa divulgada em 5/11, o sindicato enfatizou que deve ser mantido o distanciamento social como estratégia de enfrentamento da Covid-19: “Entendemos que a situação da pandemia, em que pese a diminuição do número de casos e de mortes, está longe de estar controlada. Ainda temos cerca de 500 mortes por dia no país, quase 100 somente no estado de São Paulo, e uma taxa de transmissão ainda próxima de 1, o que caracteriza uma situação preocupante. Neste sentido, a manutenção do isolamento social e das atividades remotas para aqueles que estão nesta condição é importante não apenas para estas pessoas, mas também para manter o quadro mais geral da pandemia estável”.

Diferentes unidades de ensino, como a Faculdade de Saúde Pública (FSP), Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Faculdade de Educação (FE) e Instituto de Psicologia (IP) têm manifestado total desacordo com a imposição do retorno compulsório e com outros aspectos da versão atual do Plano USP. Também o Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) protestou contra a medida. Além disso, a decisão do Sintusp de entrar em greve tem recebido apoio de entidades de representação como APG-Capital, DCE e do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital da Faculdade de Direito.