Os docentes da USP estão preocupados em fazer o melhor possível para gerir a situação provocada pela pandemia da Covid-19 com aulas, pesquisas e outras atividades remotas, “procurando criar um cotidiano de excepcionalidade, que mantenha as atividades acadêmicas na medida do possível, mas valorizando sobretudo a preservação das vidas não somente de nossa categoria, mas de todas as que compõem a comunidade uspiana”. Portanto, “é fundamental que a direção da universidade faça o mesmo”.

Essa é uma das conclusões do relatório com os resultados da pesquisa sobre as condições de trabalho dos docentes durante a pandemia, que a Adusp acaba de publicar. O questionário, aplicado de 8 a 20/7, contou com a participação de 675 professores e professoras de 46 unidades da USP.

O relatório aponta que a categoria fez uma avaliação positiva, ainda que com críticas, da manutenção do ensino remoto até o efetivo controle ou extinção da pandemia. Porém, a proposta de retomar as atividades presenciais, conforme prevê o Plano USP, lançado pela Reitoria, é alvo de questionamento.

“Se nós, docentes, podemos continuar a nos valer desse recurso, preservando-nos da Covid-19, o que dizer da atual decisão da USP de retomar o quanto antes as atividades não essenciais, quando a pandemia ainda não baixou seus níveis de contaminação, colocando em risco, sobretudo, funcionárias e funcionários, além de outros grupos minoritários? O distanciamento ainda é a maior arma contra a pandemia e não pode ser abandonado sem que haja extrema necessidade”, afirma o texto.

“O plano de retomada paulatina das atividades presenciais por parte da Reitoria vem na contramão dessa orientação, colocando em sério risco grande parte da comunidade uspiana, motivado exclusivamente pela demanda do governo do Estado, sem qualquer fundamentação no campo da saúde pública e das recomendações da Organização Mundial da Saúde. Essa postura da Reitoria ignora, inclusive, as contribuições de colegas das áreas de conhecimento diretamente envolvidas com a temática da pandemia, o que é absolutamente incompreensível e inaceitável!”, prossegue o relatório.

A realização do levantamento foi uma sugestão do grupo de trabalho constituído pela Adusp para auxiliar a Diretoria em suas ações durante o período da pandemia. Os dados coletados e apresentados no relatório são resultado de uma consulta à categoria docente que não se orientou pelo rigor que demandaria uma pesquisa científica, mas que ainda assim possibilita uma ideia geral da percepção da categoria quanto ao “impacto da pandemia de Covid-19 no trabalho acadêmico”, ressalva o documento.

91,3% dos docentes participantes ofereceram disciplinas no primeiro semestre

Ofereceram disciplinas no primeiro semestre 91,3% dos docentes. A maioria (73%) concorda com o trabalho remoto, entre outras razões pelo fato de ser o único meio de garantir a saúde e a continuidade do trabalho durante a pandemia, porém admite haver problemas na modalidade.

Os que não concordam com as aulas remotas somam 19,5% e apontam como razões, entre outras, a opinião de que a modalidade favorece a exclusão de estudantes ou provoca acúmulo de trabalho aos docentes. Quase todos os participantes (98,5%) declararam estar realizando suas atividades exclusivamente a partir de sua residência. Entre os homens, 40,1% julgam que têm uma carga de atividades maior do que antes da pandemia, número que sobe para 51,1% entre as mulheres.

Responderam que encerrariam o primeiro semestre dentro do calendário proposto por sua unidade 75,3% dos participantes. Entre os que julgaram que isso não seria possível, o maior motivo foi o da necessidade de práticas presenciais.

Em relação à participação dos estudantes nas atividades remotas, avalia-se que o contingente de 27,5% de estudantes com frequência menor do que 60%, comparado ao contexto de aulas presenciais, é bastante preocupante. O aproveitamento dessas aulas por parte dos estudantes também foi questionado.

Mais da metade dos entrevistados (57%) possuía atividades de extensão programadas para o período da pandemia. Dentre esses, 42% foram forçados a suspendê-las e 44% a adaptá-las. Apenas 16% dessas atividades foram concluídas parcialmente e ínfimos 3% completamente.

Para o segundo semestre, 38,8% afirmaram que se sentiam despreparados ou pouco preparados para atuar nas atividades de extensão, 33% responderam medianamente preparados e somente 24,8% bem preparados, “o que revela as incertezas e inseguranças da categoria para atuar junto à comunidade fora da USP por meio de atividades não presenciais”, aponta o relatório. Metade dos participantes da pesquisa considerou que não há solução em curto e médio prazos para o retorno à normalidade das atividades.

Mulheres sofrem maior ônus com trabalho remoto

A maioria dos docentes que responderam à pesquisa se encontra na faixa etária entre 41 e 60 anos (66,6%), sendo 22,8% acima dessa faixa etária e 10,5% abaixo dela. Quanto à identidade de gênero, 50,5% se reconhecem como homem, 47,4%, como mulher e 0,4% reúnem um travesti, um homem trans e uma pessoa não binária.

Mais mulheres (52%) do que homens (49%) são responsáveis pelo cuidado de outras pessoas, sendo que mais mulheres (7,2%) do que homens (4,1%) tinham tido ou estavam com Covid-19 na altura da pesquisa. “Entre outros fatores, a maior responsabilidade atribuída à mulher em cuidar dos familiares, que vem de nossa tradição de masculinidade tóxica e dominante, explica esses dados”, aponta o relatório. Declararam-se no grupo de risco para a Covid-19 41,9% dos participantes.

Os dados colhidos na pesquisa não foram suficientes para mensurar se a pandemia afetou de forma peculiar os que se declaram pertencentes ao grupo LGBTQI+ (6,5%). A mesma constatação pode ser feita em relação ao recorte racial, pois apenas 12,1% da categoria não se reconhece como branco, percentual muito abaixo daqueles registrados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segundo a qual 46,8% da população se reconhece como parda, 9,4% como preta e 1,1% como amarela ou indígena.

Na avaliação do relatório, “o fato de termos no corpo docente um número inexpressivo de professor(a)es LGBTQI+, assim como de negra(o)s, parda(o)s ou indígenas já revela como a USP lida muito mal com essas questões, ignorando-as até recentemente e tratando-as de forma ainda pouco satisfatória”.

Desmotivação, esgotamento e desamparo por parte da Reitoria estão entre os problemas citados

Além das questões de múltipla escolha (outros dados podem ser consultados aqui), a pesquisa abriu espaço para manifestações livres dos participantes. A análise qualitativa das respostas revelou que o principal tema abordado foi a atuação da Reitoria, “considerada pela maioria como omissa na liderança e gestão no que se refere à qualidade de vida no interior da universidade, chegando a ‘envergonhar o professor’”, demonstra o relatório.

Também foram ressaltadas a falta de capacitação de docentes e a demora no estabelecimento de diretrizes para o ensino online. A falta de recursos técnicos para o modelo remoto comprometeu o ensino em termos de conteúdo e qualidade, e a modalidade “aprofundou as desigualdades de classe social, de gênero, de raça, digital, entre outras”.

Entre os tópicos abordados nas respostas estavam a exigência de dedicação exclusiva em contraposição à desvalorização dos docentes por conta de perdas salariais, quinquênios, sexta-parte e concursos suspensos, a falta de protocolos de biossegurança e testagem da comunidade e o uso da crise sanitária para justificar dificuldades de gestão. “Foram referidos problemas como insegurança, desmotivação, vergonha — por se sentirem fraudando a educação de fato —, esgotamento mental e físico, isolamento social, constatação de desamparo por parte da instituição”, diz o relatório.

Houve também referência à crise como oportunidade de mudança nos modelos atuais de ensino presencial e de pesquisa, além de críticas a estudantes que contestaram a qualidade e eficácia do ensino remoto, considerando-se que “reclamaram da autonomia e preferem o modelo presencial passivo”. Porém, assim como ocorreu com os docentes, houve o reconhecimento de que estudantes também ficaram sobrecarregados e com dificuldade de acompanhar as aulas.

O documento aponta um descompasso entre a análise qualitativa e a quantitativa em relação à atuação da Reitoria da USP no período da pandemia. Na pesquisa quantitativa, 41,6% das respostas a consideraram boa ou ótima, 25,3% ruim ou péssima, e 33% razoável. Já entre as 273 respostas escritas, as avaliações são predominantemente negativas. A questão “precisa ser pensada mais detidamente”, considera o relatório.