O domingo ensolarado lotou as praias da Baixada Santista: cerca de 180 mil veículos se dirigiram à região no final de semana pelo sistema Anchieta-Imigrantes, de acordo com a empresa que administra as rodovias. Na orla, aglomerações e muitos frequentadores sem máscara e sem preocupação em preservar o distanciamento social.

No dia seguinte (31/8), o balanço da situação da pandemia da Covid-19 mostrou que ainda estão longe as razões para o relaxamento das medidas sanitárias restritivas: o Estado de São Paulo ultrapassou uma nova marca trágica, chegando a 30.014 mortes provocadas pela doença – quase 11,5 mil somente na capital.

São mais de 804 mil casos registrados, o que transforma São Paulo no estado ou província com maior número de casos no mundo, de acordo com o levantamento diário da Universidade Johns Hopkins. A segunda posição é ocupada pelo Estado de Maharashtra, na Índia, e em terceiro lugar está a Califórnia, nos Estados Unidos.

São Paulo já superou o número de mortos de países como Espanha (29 mil), Rússia (17 mil) ou África do Sul (14 mil) e, sozinho, tem mais óbitos do que a soma de seis países da América do Sul (Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai e Venezuela).

“Uma das coisas mais graves desse número é que, quando chegamos a 15 mil óbitos, no dia 1º de julho, o governador e o secretário de Saúde vieram a público dizer que o Estado já havia atingido o platô, como estão dizendo desde o lançamento do Plano São Paulo. O secretário declarou que era de se esperar que chegaríamos ao final da pandemia com 18 mil óbitos. Isso já foi ultrapassado em muito”, afirma o professor Domingos Alves, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, um dos idealizadores do portal Covid-19 Brasil.

O plano, lançado no dia 1º de junho, é anunciado em sua página oficial na Internet como “a retomada consciente dos setores da economia”. Um mês depois, em 1º de julho, quando o Estado ultrapassou a marca de 15 mil mortes e chegou a quase 290 mil casos, o governador João Doria (PSDB) declarou numa coletiva à imprensa: “Eu não quero ser otimista, mas também não quero ser pessimista; quero ser realista. E a análise desses dados nos traz esperança de que São Paulo está chegando próximo do platô e na sequência esperamos o decréscimo de pessoas infectadas e principalmente de pessoas vítimas do coronavírus”. Ao seu lado, o então secretário de Saúde, José Henrique Germann, fez coro à afirmação.

Critérios do Plano São Paulo têm sido alterados para favorecer abertura

O professor da FMRP lembra que passaram-se quase três meses para que o Estado alcançasse 10 mil mortes: de 17/3, quando foi registrada a primeira, a 11/6. A seguir, porém, o tempo para que esse mesmo número de óbitos fosse atingido caiu consideravelmente: São Paulo chegou a 20 mil mortes pouco mais de um mês depois (em 21/7), assim como ocorre agora com as 30 mil vidas perdidas.

“Em que situação isso mostra um controle?”, pergunta o docente. “Nos primeiros dias de vigência do plano, não tínhamos atingido ainda 10 mil mortos. Ou seja, o Plano São Paulo é o motivo pelo qual chegamos aos 30 mil óbitos. Isso fica claro, não?”

“O dano está estabelecido, e numa velocidade muito grande. Demorarmos três meses para chegar a 10 mil, em um mês e meio fomos a 20 mil e em mais um mês e meio a 30 mil. A estabilidade que está sendo propagandeada é uma estabilidade de genocídio da população. Estamos estáveis matando pessoas”, afirma. Mantida a tendência atual, o patamar de 40 mil mortes será atingido nos primeiros dias de outubro, projeta.

Na avaliação do professor, o governo se utiliza de flutuações em períodos determinados para passar à população a ideia de que o platô já foi atingido. Porém, essas variações não são sustentáveis. “O governo está passando uma mensagem de que as coisas estão bem, e aí você vê a invasão das pessoas na praia. Se podem ser abertos os bares e as igrejas, as pessoas se perguntam: por que não posso ir à praia?”, diz.

Tão alarmantes quanto passar à população a ideia de que tudo está melhorando são as tentativas de ampliar a “abertura”, incluindo-se também a possibilidade de volta às aulas presenciais, considera Alves: “A grande maioria dos municípios já passou para a fase amarela e a tendência é que até as vésperas das eleições municipais [em 15/11] a maioria já esteja na fase verde”.

O professor diz que os critérios do Plano São Paulo vêm sendo constantemente alterados para que se possa permitir essa abertura gradual. Uma das mudanças foi considerar as taxas de ocupação de leitos por região, e não por cidade, o que permitiu que municípios como Campinas, com mais de um milhão de habitantes, avançasse da fase laranja para a amarela no início de agosto. O mesmo ocorre com Guarulhos, segunda cidade mais populosa do Estado, que tem a altíssima taxa de 7,4% de letalidade entre os doentes. “A mudança de peso dos indicadores tem sido feita sistematicamente na evolução do Plano São Paulo, e ninguém fala disso”, afirma.

“Estratégia brasileira tem sido um desastre”, considera professor Paulo Narvai

“O SARS-CoV-2 chegou a São Paulo em pleno carnaval, em 26/2, com o registro do primeiro caso importado da Itália. Duas semanas depois, em 11/3, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a Covid-19 como pandemia. A transmissão sustentada (comunitária) se iniciou entre nós em 20/3. Desde então, constata-se que a estratégia brasileira tem sido um desastre sanitário e administrativo”, considera Paulo Capel Narvai, professor sênior da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

“Predomina no governo federal o que eu denominei de ‘terraplanismo epidemiológico’, uma mistura macabra de misticismo com negacionismo, sob a liderança de um presidente da República avesso a evidências científicas e que se converteu em garoto-propaganda de um medicamento sem eficácia comprovada e sem registro na Agência Nacional de Vigiância Sanitária [Anvisa]”, continua.

De acordo com Narvai, “o governo paulista teve tempo e recursos para agir tempestivamente, apoiado pela reconhecida capacidade técnico-científica de que o Estado dispõe”. A largada no enfrentamento da pandemia foi boa, diz. “O Estado superou dificuldades decorrentes da falta de informações sobre o comportamento do vírus e, apoiando as decisões de governo em recomendações adequadas, manteve-se em sintonia com os conhecimentos disponíveis internacionalmente. Apesar do bom início, o governo paulista cedeu a muitas pressões da área econômica e acabou cometendo erros que inviabilizaram atingir os objetivos de contenção da pandemia.”

O principal erro, aponta o docente, “foi ceder à estratégia do governo federal, baseada na ideologização e partidarização do enfrentamento da pandemia”. “O governo paulista permitiu que o negacionismo de Bolsonaro influenciasse a opinião pública, na medida em que evitou o confronto, quando confrontar Bolsonaro era o mais certo a fazer. O resultado é que a população paulista, influenciada pelo modo irresponsável com que o governo federal conduziu suas ações, optando por não agir e apostando no delírio da imunidade de rebanho, foi aos poucos relaxando as medidas preconizadas pela OMS para superar a falta de uma vacina e de medicamentos eficazes para tratar doentes. O silêncio do governador, contemporizando a inconsequência vinda de Brasília, agravou a situação”, afirma.

Governo paulista está iludido com o platô e não consegue ver o mundo exterior

Narvai considera que “a impermeabilidade da gestão à participação da população organizada é notável, aprofundando as dificuldades sanitárias e prejudicando as ações das instituições paulistas, sobretudo o Sistema Único de Saúde [SUS] e as incumbidas da proteção social”. Em sua avaliação, o governo paulista poderia ter tomado a iniciativa de agilizar as medidas de apoio financeiro decididas no Congresso Nacional, “que a área econômica federal fez de tudo para inviabilizar e dificultar”. São Paulo poderia também ter ampliado essa ajuda com recursos do orçamento estadual, aponta.

“Atrapalhando-se com decisões que tentam compatibilizar ações de saúde com ações comerciais, o governo paulista afasta-se das melhores decisões, tomadas em países bem-sucedidos no controle da pandemia. Iludido com o platô, parece não conseguir ver o mundo exterior”, afirma Narvai.

Países como França e Espanha veem-se às voltas com uma possível segunda onda da Covid-19. “Isso é que deveria estar no foco do governo paulista, e não a insistência na reabertura de escolas e outros ambientes que propiciam aglomerações, deixando-se levar por ‘tendências’ que ainda precisam ser vistas com reservas, mesmo que sinalizem a esperança de diminuição da enorme pressão sobre os serviços de saúde. O platô não altera o fato de que o patamar ainda é alto e de que pessoas, às centenas, seguem morrendo em território paulista”, finaliza.