Um grupo de professoras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP) divulgou, em maio último, uma “Carta aberta à comunidade USP”, que trata das condições de trabalho durante a pandemia e chama atenção para os impactos da desigualdade de gênero sobre o desempenho acadêmico das docentes mulheres. O documento, que ainda está aberto a adesões, foi depois encaminhado ao Gabinete do Reitor.

“Nós, docentes-mulheres atuantes na USP, gostaríamos de nos pronunciar a respeito da pressão pela manutenção irrestrita das atividades-fim da universidade”, principia a carta aberta, colocando em xeque, assim, a orientação reitoral de que “a USP não vai parar”. Em seguida, passa a comparar as atuais circunstâncias com a situação anterior à pandemia, quando a sobrecarga de trabalho das mulheres já existia, mas era aliviada por uma estrutura de suporte.

“Salientamos que, em tempos de normalidade, para conduzirmos adequadamente nossas atividades na USP, costumamos contar com uma série de recursos que nos auxiliam no gerenciamento de nossas atividades domésticas, historicamente relegadas às mulheres”. Aquelas que têm filhos, acrescenta, contam também com “unidades de ensino, que recebem nossas crianças enquanto trabalhamos”. O advento da Covid-19 impôs mudanças nesses arranjos.

“Neste momento de isolamento, porém, somos solicitadas a cuidar de nossas famílias, nucleares e estendidas: filhos, pais e avós idosos, que compõem o principal grupo de risco da doença, dando-lhes a assistência necessária do ponto de vista material e emocional. Além disso, no geral, devido à maneira como nossa sociedade brasileira é estruturada, as mulheres ainda são as principais responsáveis pelas tarefas domésticas, que, neste momento, não podem ser negligenciadas, uma vez que, na prevenção da Covid-19, a limpeza e a higiene são apontadas como os recursos mais eficientes”.

No caso das mães de crianças e adolescentes, “o encargo de cuidar das inúmeras atividades escolares que pululam em diferentes plataformas educacionais virtuais” é acrescido às atividades domésticas, tornando-se um novo fator de sobrecarga. “Trata-se de uma demanda criada pela atual situação de isolamento somada à incapacidade social de perceber que não é possível exigirmos normalidade a um aluno e a sua família em uma situação de extrema e inédita anormalidade”.

As implicações da nova situação, explica o documento, não podem ser ignoradas no âmbito universitário. “Frisamos que atualmente não há normalidade nas rotinas das famílias e, mais especificamente, na rotina das mulheres-docentes da USP”, continua, mais uma vez opondo-se ao discurso reitoral de que a universidade está “funcionando normalmente”. “Em tempos de normalidade, costumamos dedicar grande parte de nossas horas diárias às atividades de docência e pesquisa. Neste momento, os filhos estão em casa sob nossos cuidados durante todo o dia; os pais e os avós precisam receber de nós alimentos, remédios, vacinas, além de apoio psíquico, pois são os que mais isolados estão e os mais afetados emocionalmente, por serem o grupo de risco da doença”.

As autoras vão além ao afirmar que, dada a anormalidade da rotina vivida na epidemia, “é inviável solicitar a qualquer um, mas principalmente a elas”, as docentes, “que sigam com suas atividades regulares e, mais que isso, que tenham ainda mais comprometimento de seu tempo com a adaptação de seus cursos às atividades remotas e com metas de produtividade, em termos de publicações, como as que eram esperadas no período anterior ao da pandemia”.

Após destacar as mudanças impostas pela Covid-19 ao cotidiano das professoras universitárias, a carta aberta elaborada por Mariângela de Araújo, Beatriz Daruj Gil, Flaviane Romani Fernandes Svartman, Maria Clara Paixão de Sousa e Vanessa Martins do Monte — e logo endossada pela Rede Não Cala! — solicita “sensibilidade” a dirigentes e colegas: “Nosso trabalho, não somente neste período de isolamento social, mas especialmente neste período, é fortemente impactado por questões de gênero (e também de raça/etnia, geração, condições cotidianas de existência e outros). Gostaríamos de saber se avaliações deste período, por exemplo, apresentarão resultados distintos por gênero, dadas as circunstâncias aqui apresentadas”.

As autoras questionam se há, na universidade, iniciativas voltadas para as questões apontadas. “Neste sentido, gostaríamos de indagar igualmente se há alguma política ou, preferencialmente, uma política atrelada a um conjunto de ações propostas a nível institucional, considerando o imenso contingente de mulheres que compõem a Universidade e os pontos aqui levantados. Caso essa política ainda não esteja em discussão, indagamos como ela poderia ser elaborada e direcionada em um conjunto de operações para este período. A dinâmica de cuidados, notadamente realizada por mulheres, estende-se também para outros aspectos da universidade”.

O documento lembra que muitas dessas afirmações são válidas para as mulheres funcionárias e estudantes da USP. “No que se refere às estudantes, é necessário reafirmar que as realidades de nossos cursos são muito diversas e, não raro, há, entre nossos discentes mulheres que têm filhos ou que são responsáveis pelos cuidados de seus pais e pessoas idosas da família. Assim sendo, solicitar a elas que conduzam normalmente seus estudos também é, no mínimo, uma atitude insensível e injusta. Em um momento de extrema vulnerabilidade, é colocá-las em desigualdade em relação a estudantes que ainda não tenham tais responsabilidades. Sem contar aqueles, estudantes mulheres e homens, que não têm facilidade de acesso à Internet, muito menos a dispositivos e ambientes adequados para o estudo”.

Por fim, é mencionada a “situação extremamente precária” a que estão submetidas as mães do Conjunto Residencial (Crusp): “Há muitas mães que, além de alunas, são também estagiárias em diversas unidades. Assim, a demanda de seguir o curso online se soma à das atividades profissionais, em um cenário de verdadeira calamidade social que enfrentam por sua condição de moradia e por serem mulheres”.

Demanda que aumenta vertiginosamente dentro das nossas casas

“Nossa experiência pessoal, minha e das outras quatro autoras, esteve bem presente na ideia, na concepção da carta”, diz a professora Vanessa Martins do Monte, em resposta a uma pergunta do Informativo Adusp. “Quando a gente começou a perceber que, por exemplo, o andamento das disciplinas acontecia com um ritmo diferente entre homens e mulheres. Entre os docentes homens as coisas praticamente continuaram, e houve uma transição que foi acontecendo de forma mais ou menos gradual para o ambiente online, para esse ambiente de ensino remoto emergencial, mas no caso das docentes mulheres não acontecia da mesma maneira”. Essa constatação inquietou as docentes.

“Aí a gente começou a conversar sobre isso: uma demanda que aumenta vertiginosamente quando os cuidados passam a ser efetuados exclusivamente dentro das nossas casas, por nós, e a universidade nos exige uma produtividade, em termos de preparação de aulas, familiarização com ambientes, plataformas de educação remota, como se as horas dedicadas ao trabalho tivessem se mantido as mesmas. E isso efetivamente não corresponde à realidade, porque nessa situação a gente se viu obrigada a por exemplo dar conta do ensino a distância dos nossos filhos, cuidar dos nossos pais idosos, avós”.

Apesar disso, ela pondera que esse fator deve ser visto com cautela: “Eu gostaria de ressaltar que essa condição a que as mulheres se vêem sujeitas não é uma condição pessoal. Não existe esse poder de escolha. A escolha já está feita pelo modo como a nossa sociedade se estrutura, então é uma coisa mais ampla, é uma condição social. Para a gente não cair num certo discurso de conversar com os homens: exigir que os homens sejam mais parceiros, por exemplo. A gente vê esse discurso ser veiculado e o ponto não é este”.

Foi esse o espírito que norteou a carta aberta, esclarece Vanessa. “Por isso também que a gente fez questão de escrever de uma forma mais ampla, que abarcasse essa condição social a que as mulheres estão sujeitas e que a universidade não pode mais fingir que não existe, até porque tem várias pesquisadoras que fazem estudos levantando essas questões da desigualdade. Em muitas áreas existem estudos desse tipo, então a universidade não pode desconsiderar”.

Um texto que inspirou as autoras foi “Women academics seem to be submitting fewer papers during coronavirus. ‘Never seen anything like it,’ says one editor”, publicado pelo Washington Post, que fala especificamente da quantidade de submissões de artigos a periódicos, mostrando como o fator gênero impacta uma queda acentuada da submissão por parte das mulheres. “A gente sabe que o quantitativo ainda sobressai muito nos métodos de avaliação utilizados pela universidade. Eu por exemplo recentemente submeti à CERT [Comissão Especial de Regimes de Trabalho] meu terceiro relatório bienal, e tive que fazer um ofício pedindo prorrogação de prazo. Então não foi uma coisa automática, é mais um trabalho burocrático que o docente precisa cumprir: fazer um oficio, submeter o ofício à CERT pedindo a prorrogação”.

Ela considera que, embora pareça haver “uma tentativa de tornar a avaliação um pouco mais qualitativa”, por meio de perguntas qualitativas dirigidas aos docentes, ainda não está claro como isso vai refletir-se na avaliação conjunta das respostas com o relatório submetido à CERT. “Tem ainda uma questão muito quantitativa”, adverte a professora. “Quando a gente pensa em termos numéricos apenas, desconsidera essa realidade própria e estruturante da condição de trabalho das mulheres na universidade”.

Um exemplo seriam as questões relacionadas à saúde: “A CERT não considera na avaliação nem o período de licença-maternidade nem o de licença-saúde. E sabemos que é bastante comum acontecer de a mulher desenvolver doenças relacionadas à maternidade. São vários fatos da vida de uma mulher que são institucionalmente ignorados pela burocracia universitária”.

O Gabinete do Reitor informou às autoras, por meio de ofício, que a carta aberta foi encaminhada para o Escritório USP Mulheres. “Tem aí um certo enviesamento, porque a discussão sobre as políticas institucionais voltadas à questão do gênero deveria estar presente em todas as instâncias, e não ser fruto do trabalho de um órgão, um escritório à parte. Deveria ser uma coisa presente no Regimento da própria universidade. Mas foi encaminhado para o Escritório USP Mulheres e a gente teve duas reuniões até o momento com esse escritório, para tratar dos assuntos colocadas na carta e também de algumas demandas elaboradas em conjunto por docentes do grupo de novos docentes, que tem a ver também com essas questões de gênero”.

Nessas reuniões foram encaminhadas algumas propostas, que a Reitoria ficou de responder. Vanessa, no entanto, não demonstra otimismo. “Porque são muitas lutas, de muito tempo. Por exemplo: a luta das creches é muito antiga dentro da universidade. Foram apresentados vários estudos, e a gente vê que a Reitoria não encampa, muito pelo contrário. E essa questão de desconsiderar o espaço da creche como espaço de pesquisa e como espaço de acolhimento é uma posição política da universidade. Então é um pouco difícil ter uma expectativa alta sobre alguma mudança, quando a gente vê que num ponto tão fundamental, como é a questão da creche para as docentes mulheres, funcionárias mulheres, a USP vai exatamente na contramão do que deveria ser uma política que considerasse as questões de gênero”.

Da mesma forma, a professora critica o modo como a universidade lida com as terceirizações. “Houve uma renegociação dos contratos das empresas terceirizadas, e a gente sabe que um alto volume dos contratos diz respeito à terceirização da limpeza. As funcionárias terceirizadas são na sua maioria mulheres, e mulheres negras. A USP está renegociando esses contratos, as empresas demitem, mas isso parte da Reitoria”.