Em “Carta Aberta ao Reitor em Defesa da Vida”, sindicatos registram preocupação com a decisão do governador João Doria de relaxar o distanciamento social, porque a USP “não pode adotar o mesmo caminho de negação das evidências para favorecer grupos econômicos”

As diretorias da Adusp e do Sindicato dos Docentes da USP (Sintusp) divulgaram nesta quinta-feira (4/6) uma “Carta Aberta ao Reitor em Defesa da Vida”, na qual registram sua “grande preocupação” com a iniciativa do governador João Doria (PSDB) de “iniciar o relaxamento da quarentena, na contramão de qualquer orientação científica”, e defendem prioridade para a preservação da vida da comunidade universitária, “o que inclui estudantes, professora(e)s e funcionária(o)s, efetivos e terceirizados”.

Na carta aberta, as entidades apresentam três solicitações à Reitoria. A primeira é de que seja mantida a quarentena na universidade, “garantida também às/aos terceirizada(o)s e funcionária(o)s de grupos de risco dos serviços essenciais”. Qualquer iniciativa de abertura, ainda que parcial, prossegue o texto, “representaria um grave equívoco, e tornaria a Reitoria cúmplice do aumento de contágios e eventuais mortes dos membros da comunidade universitária”.

O documento lembra que, no início da pandemia, a Reitoria estabeleceu uma diferenciação entre docentes e estudantes, de um lado, e funcionária(o)s administrativa(o)s de outro, “mantendo as atividades administrativas mesmo quando o próprio governo do Estado havia dispensado o restante do funcionalismo, o que representou uma temerária exposição de milhares de pessoas aos riscos de contaminação”. “Esperamos que tal equívoco não se repita agora”, diz o texto.

Na carta aberta, as entidades citam as estatísticas oficiais relativas à pandemia no Brasil — 584 mil casos de contágio e mais de 32 mil óbitos até o dia 3/6 — e afirmam que, ao propor o relaxamento da quarentena, “o governador se orientou pelas pressões de grupos econômicos, e não pelos indicadores e pelas recomendações dos infectologistas”.

O documento lembra que “há duas semanas o governo apontava que o índice de isolamento era baixo, o que levou, inclusive, a medidas como antecipação do feriado de 9 de julho em todo o Estado e, no caso do município de São Paulo, de outros feriados também”.

As entidades citam ainda a nota técnica emitida pelos grupos Ação Covid 19 e Covid-19 Brasil, formados por pesquisadores de diversas universidades, incluindo a USP, segundo a qual “com o número de casos ainda em ascensão, sem uma clara política de testagem, com uma clara expansão do contágio das grandes metrópoles para o interior do Estado e com um número ainda alarmante de ocupação de leitos, a redução prematura do isolamento social pode ter graves consequências. Conclui-se ainda que o esforço de 3 meses de isolamento pode retroceder em apenas uma semana, gerando o caos no sistema de saúde que já se encontra atualmente próximo do seu limite”. Diante disso, prossegue a carta aberta, “entendemos que a universidade não pode adotar o mesmo caminho de negação das evidências para favorecer grupos econômicos”.

Distanciamento “é medida mais eficaz para achatar a curva de contaminação”

As entidades apontam que, no mais recente comunicado do reitor à comunidade, “há uma referência à exposição feita pelo professor Dimas Covas, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, na reunião com dirigentes da USP, na qual aponta, em resumo, que a situação da pandemia no Estado ainda estava no meio da crise, não atingido o pico da epidemia”. “Isto só reforça a necessidade de manutenção do isolamento social, como medida mais eficaz para achatar a curva de contaminação e, por essa via, preservar a vida”, diz o texto.

A “reunião de dirigentes” citada pelo documento foi realizada de forma virtual no dia 26/5. Uma das decisões anunciadas pelo reitor Vahan Agopyan na ocasião foi que as direções das unidades devem responder à Reitoria até o próximo dia 9/6, entre outras questões, “quanto tempo será necessário para concluir o primeiro semestre letivo de 2020, considerando as condições de distanciamento social”. Uma comissão liderada pelo vice-reitor Antonio Carlos Hernandes vai sistematizar as informações e apresentar um quadro geral na próxima reunião do colegiado, no dia 16/6.

No sétimo comunicado à comunidade acadêmica durante a pandemia, publicado no dia 27/5, o reitor afirmou que a partir da sistematização das informações recebidas será possível “definir um calendário viável” para o “eventual retorno às atividades presenciais” na universidade.

Empregos de terceirizada(o)s devem ser mantidos

A segunda solicitação da carta aberta é a defesa da “manutenção dos empregos da(o)s trabalhadora(e)s terceirizada(o)s da universidade”. De acordo com as entidades, a orientação da Reitoria para que as unidades revejam os contratos de serviços “já implicou várias demissões de trabalhadora(e)s, ou suspensão de contratos com respectiva perda salarial”.

“Não é possível preservar a vida da comunidade universitária expondo uma parte dela, justamente a mais vulnerável, ao desemprego. É necessário que a Reitoria tenha uma política de manutenção dos contratos com garantia de manutenção dos empregos, e que a quarentena seja garantida também a essa(e)s trabalhadora(e)s”, prossegue o documento, lembrando que dois trabalhadores terceirizados já faleceram em decorrência da Covid-19. Mesmo sendo do grupo de risco, esses funcionários tiveram que continuar trabalhando. “A Reitoria precisa reverter esse descaso com a vida da(o)s funcionária(o)s terceirizada(o)s imediatamente!”, ressalta a carta aberta.

A terceira solicitação é de que a Reitoria receba os sindicatos para discutir esses e outros temas, como a situação do Hospital Universitário da USP (HU). Desde o início da pandemia, registram a Adusp e o Sintusp, os pedidos de reuniões foram totalmente ignorados, “com o falso argumento de que as questões de enfrentamento à pandemia seriam técnicas, e não políticas”. “Está cada vez mais nítido que várias das decisões são políticas”, prossegue o documento, “e o mínimo que esperamos é que as entidades sejam respeitadas nesse momento”.

Adusp e Sindustp reforçam que “qualquer iniciativa de abertura”, bem como as definições sobre a manutenção do ano letivo, “devem ser debatidas com as entidades representativas de funcionária(o)s, docentes e estudantes”.