Constatação inversa, de que mais de um terço dos alunos e metade dos docentes não se utilizaram da principal plataforma online da universidade nesse período, parece lançar dúvidas sobre o discurso da Reitoria de oferta remota de “90% das disciplinas”. Mas o autor do levantamento, professor Ewout ter Haar (IF), tem opinião diferente:“Um número de alunos ‘ativos’ de 60% é perfeitamente compatível com 90% das disciplinas sendo oferecidos. São indicadores diferentes

No período de março a maio de 2020, cerca de 38 mil alunos de graduação da USP acessaram a plataforma e-Disciplinas do sistema Moodle pelo menos uma vez por semana. O número equivale a 62% do total de 61 mil estudantes dos cursos de graduação da universidade. Nesse mesmo intervalo de tempo, “de um terço a metade” do corpo docente utilizou-se dessa plataforma pelo menos uma vez por semana. São 2,4 mil usuários que o sistema designa indistintamente como “servidores”, mas que na sua quase totalidade são docentes e não funcionários técnico-administrativos. Acessaram o e-Disciplinas nesse período, ainda, 4 mil aluno(a)s de pós-graduação — 10,5% do total de 38 mil.

O autor desse levantamento é o professor Ewout ter Haar, do Instituto de Física (IF), que proferiu palestra no fórum virtual “Avaliação online de Disciplinas”, realizado em 18/5 e coordenado pela professora Patricia Castelucci, presidente da Comissão de Graduação do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB). O evento reuniu docentes de diferentes unidades para discussão de questões relacionadas à avaliação do desempenho discente em disciplinas oferecidas a distância, tais como formatos de provas, aferição da competência dos alunos, risco de “trapaças” e de condutas indesejáveis (copia-e-cola e outros). Confira aqui o vídeo integral do fórum online.

A plataforma digital e-Disciplinas, que consiste em um ambiente de apoio às disciplinas oferecidas pelos docentes da USP, é vinculada ao software Moodle. “A ideia era apoio às suas interações presenciais, mas agora estamos nessa situação emergencial”, explicou o professor ter Haar na palestra intitulada “Avaliação online usando Moodle”, referindo-se ao ensino remoto contingencial adotado em meio à quarentena sanitária imposta pela Covid-19.

Ele também exibiu índices de acesso específicos de cada uma das unidades da USP. Nesses gráficos é possível constatar uma alta participação dos estudantes de um número expressivo de unidades: “Quase 90% dos alunos da Faculdade de Direito [FD] acessam regularmente o Moodle”, exemplificou o docente. “Mas como vocês vêem, há uma grande variação entre unidades”.

Registraram altos índices de participação discente, segundo o levantamento, Escola Politécnica (EP), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), Faculdade de Economia e Administração (FEA), Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto (FEARP), Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP), Instituto de Física de São Carlos (IFSC) e outras.

Por outro lado, diversas unidades apresentam índices de participação discente no período de março a maio inferiores a 50% (em alguns casos, bem inferiores), caso da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Faculdade de Educação (FE), Faculdade de Odontologia (FO), Instituto de Psicologia (IP), Instituto Oceanográfico (IO), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), Escola de Comunicações e Artes (ECA) etc. O ICB é uma das que ficaram “dentro da média”, isto é: em torno de 60%.

Docente destaca que “e-Disciplinas não é única plataforma à disposição

Tais dados indicam, por contraposição, que entre março e maio mais de um terço dos estudantes de graduação da USP e pelo menos metade dos docentes não se utilizaram do e-Disciplinas, principal plataforma online da universidade para fins didáticos. Constatação que lança dúvidas sobre o discurso da Reitoria, particularmente da Pró-Reitoria de Graduação (PRG), de que “90% das disciplinas” vêm sendo oferecidas remotamente neste primeiro semestre. Destaque-se, porém, que ter Haar não compartilha desse questionamento.

“É importante ressaltar que o e-Disciplinas não é a única plataforma à disposição dos docentes e discentes da USP. A Faculdade de Medicina, por exemplo, usa Google Classroom pelo que sei. Mas só tenho acesso a dados do e-Disciplinas, o Moodle da USP”, declarou em 28/5 o docente do IF, que é um dos administradores do sistema e dispõe de acesso ao banco de dados do Moodle e a algumas informações do Júpiter para fins de gestão do ambiente virtual e-Disciplinas. O levantamento completo está disponível aqui.

“Deve perguntar à PRG como levantaram este número ‘90% das disciplinas sendo oferecidos’, mas de qualquer forma um número de alunos ‘ativos’ de 60% é perfeitamente compatível com 90% das disciplinas sendo oferecidos. São indicadores diferentes”, responde ter Haar ao Informativo Adusp quando indagamos a ele se os dados que levantou não colocam em xeque o índice anunciado pela PRG. “Hipoteticamente, pode haver oferecimento de 100% das disciplinas, e simultaneamente é possível que só 10% dos alunos matriculados assistam às aulas. Neste sentido 90% e 60% são indicadores ‘compatíveis’”, esclarece.

Contudo, ele faz uma ressalva. “Não estou emitindo um julgamento de valor, se 60% dos alunos entrando uma vez por semana no e-Disciplinas é alto, baixo, se é bom ou não. O indicador que gerei, logins/semana, é um indicador pobre e raso demais para fazer inferências sobre o ensino durante a pandemia. ‘Mais estudos são necessários’, diriam os acadêmicos...”, brinca. “Na minha opinião, indicadores gerados a partir do e-Disciplinas podem exercer uma função importante na gestão pública, sempre resguardando a proteção aos dados pessoais e levando em conta princípios éticos. Acredito também que o foco desta gestão deve estar nas unidades, que podem usar os indicadores como um dos ingredientes na sua relação com seu corpo discente”.

“Devíamos perguntar aos estudantes os problemas que enfrentaram”

Ele propõe que a USP promova estudos sobre a experiência do corpo discente neste semestre. “Antes de mais nada, devíamos perguntar a eles [estudantes] o que aconteceu, os problemas que enfrentaram, os acertos e erros dos docentes, etc. etc. Os dados gerados pelas interações dos alunos com uma das plataformas online em apoio às disciplinas da USP devem ser um ingrediente importante neste estudo e estou à disposição da USP para ajudar”.

No seu entender, interações mediadas por plataformas online “podem ser analisadas com muito mais detalhes do que interações presenciais em sala de aula”, e devem ser objeto de problematização e debate por parte da universidade. “Este olhar ‘de longe’ ou ‘de cima’ sobre os processos educacionais e o comportamento dos membros da comunidade USP é cheio de potencialidades e perigos. A comunidade USP deve se inteirar e debater se e como devemos usar estes dados”, diz ter Haar. “Vamos ter uma marca legal em breve, o LGPD, que baliza minimamente como lidar com esta nova realidade, mas devemos chamar muito mais atores para o debate, em particular os colegas nas áreas de educação e as ciências de informação”, sugere.

“Não sei em que vai resultar este debate, mas tenho convicção de que a USP deve criar capacidade e autonomia na área de tecnologia educacional”, adverte o professor. “Não podemos nos entregar ao capitalismo de vigilância das plataformas corporativas, que inevitavelmente preencherão o vácuo se não investimos neste área”. A seu ver, os produtos educacionais de gigantes como Google e Microsoft representam ameaças à autonomia das instituições de educação públicas.

“O uso destes produtos vai atrofiar a nossa capacidade técnica e pedagógica de desenhar espaços online de aprendizagem. Mas criar experiências educacionais não é algo que deva ser terceirizado”, argumenta. “Não devemos submeter nossa comunidade ao chamado capitalismo de vigilância, aquele modelo de negócio onde as interações das pessoas mediadas pelas plataformas online são comodificadas  e transformadas em instrumentos de modificação de comportamento (de consumo, inicialmente)”. Manter controle da infraestrutura de tecnologia de informação usada para mediar interações pedagógicas é necessário para evitar os riscos acima, conclui ter Haar.