Alvos do PAD instaurado em abril, Edson Fedelino e Lurdinha Farias são diretores regionais do SindSaúde. A perseguição aos sindicalistas foi revelada pelo Sintusp, que oficiou à Superintendência do HC pedindo o cancelamento do processo

A Diretoria Colegiada do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) enviou no último dia 20/5 um ofício à Superintendência do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (HC-FMRP) no qual requer o cancelamento imediato do processo administrativo aberto em abril contra os servidores Edson Fedelino e Lurdinha Farias.

Fedelino e Lurdinha, diretores regionais do Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde no Estado de São Paulo (SindSaúde-SP), foram transformados em alvo de sindicância e processo administrativo após cobrarem o fornecimento dos equipamentos de proteção individual (EPIs) necessários aos servidores do HC de Ribeirão Preto para prevenção contra a Covid-19.

Como ressalta o ofício do Sintusp, os trabalhadores “vivenciam um grave momento da nossa história, submetidos a condições de trabalho estressantes, muitas vezes sem as condições ideais e, mesmo sob enorme pressão, cumprindo o seu indispensável papel social”. É preciso, portanto, que “tenham proteção e condições físicas e mentais” para exercer suas funções.

Em meados de abril, após o recebimento de denúncias quanto à falta de EPIs para todos os trabalhadores, os diretores do SindSaúde fizeram uma panfletagem nos corredores da Unidade de Emergência do hospital e conversaram com alguns servidores individualmente, evitando aglomerações. Fedelino, que trabalha no hospital há vinte anos, também deu uma entrevista à EPTV, afiliada local da Rede Globo, cobrando a entrega dos equipamentos e a realização de testes rápidos em todos os funcionários.

A seguir, o superintendente do HC, professor Benedito Carlos Maciel, docente da FMRP, procurou a imprensa para contestar as declarações dos diretores sindicais e, no dia 23/4, instaurou processo administrativo contra eles, além de ter aberto também um processo civil contra o SindSaúde-SP.

“Para não dizer que estávamos mentindo, todas as medidas relativas à entrega de EPIs e outros procedimentos para evitar aglomerações, por exemplo, foram tomadas depois das nossas ações e das entrevistas”, relatou Edson Fedelino ao Informativo Adusp. “Os EPIs agora existem, mas nem em todos os locais são os mais adequados. Há alguns dias o material foi recolhido em alguns andares porque era inadequado e foi trocado. Ou seja: estávamos corretos nas nossas denúncias.”

O servidor diz compreender que a Covid-19 é uma doença nova e que os EPIs necessários são diferentes daqueles utilizados anteriormente. “Mas o que estávamos cobrando é que as coisas fossem regularizadas”, defende.

“Não há diálogo com a direção do hospital”, diz servidor

Fedelino e Lurdinha ainda não foram ouvidos na sindicância aberta pela superintendência. O servidor considera “um absurdo” sofrer um processo administrativo por exercer sua atividade sindical. “Sou representante sindical em outros hospitais do Estado em Ribeirão Preto. Se vou a um deles e faço alguma atuação enquanto diretor do sindicato, não posso ser processado administrativamente. Se for o caso, o processo é aberto contra o sindicato”, afirma.

Na avaliação de Fedelino, a representação do SindSaúde e a Superintendência do HC poderiam conversar para resolver os problemas. “Mas não há diálogo com a administração do hospital, que é muito autoritária”, diz.

O servidor lembra ainda que o HC-FMRP é o único da cidade em condições de receber os pacientes mais graves da Covid-19. No momento, o espaço destinado a esses pacientes está com 40% de ocupação. “Por enquanto, estamos bem e a situação ainda está controlada, mas temos que estar realmente preparados para quando chegar o pico alto, o que ainda não aconteceu aqui em Ribeirão Preto”, considera.

O Informativo Adusp solicitou à Assessoria de Comunicação do HC de Ribeirão Preto uma manifestação da Superintendência do hospital sobre a motivação do processo administrativo e sobre o ofício enviado pelo Sintusp. "O HCFMRP-USP não se manifestará de forma específica sobre os fatos relacionados ao processo administrativo mencionado, para evitar maior exposição dos servidores envolvidos", respondeu a Superintendência, em "nota de esclarecimento" encaminhada nesta quarta-feira (27/5).
 
"O hospital, como instituição pública, não faz nenhum tipo de pré-julgamento, ao contrário, todos os fatos reportados são apurados em processo no qual se assegura o pleno exercício do direito de defesa. A abertura de um procedimento não representa a atribuição prévia de culpa, ao contrário, significa que no curso da instrução deverá se formar a convicção sobre a existência ou não de infração administrativa", prossegue a nota.
 
"Independentemente do caso relatado, o hospital não cerceia, tampouco pune servidores que expressem suas opiniões ou mesmo exerçam as atividades sindicais. Entretanto, a instituição tem o dever de apurar quando, eventualmente, o exercício do direito de manifestação ultrapassa a fronteira da verdade e quando o exercício da atividade, sindical ou não, se dá em detrimento do funcionamento da entidade ou colocando em risco servidores", finaliza.