Parcela do corpo docente da USP que se opunha às atividades remotas (ou pelo menos à conversão improvisada impulsionada pela Reitoria) teria passado a aceitar essa opção como inevitável por acreditar que, frente ao avanço da Covid-19 e às sucessivas prorrogações da quarentena, não haverá retorno às atividades presenciais em 2020

O Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), reunido virtualmente em 7/5 (e, antes, em 16/4) com a participação da diretora da unidade Maria Arminda Arruda e do vice-diretor Paulo Martins, e levando em conta que “os semestres letivos de 2020 terão continuidade”, decidiu que “as disciplinas em curso devem ser ministradas remotamente porque a situação de excepcionalidade em que vivemos nos impede, por um lado, de aferir com justeza o fim da pandemia e, por outro, de buscar identificar as necessidades e possibilidades de acompanhamento dos problemas de todos os alunos”.

Como justificativa para a medida, tomada “diante da grave crise imposta pela pandemia da Covid-19”, o CTA e a Diretoria da FFLCH alegam que sua finalidade é “mitigar os danos acadêmicos que não poderão ser completamente evitados”. A Congregação da FFLCH, reunida em 8/5, referendou a decisão. Além disso, todos os cursos começarão o segundo semestre entre 1º/9 e 30/9.

A decisão de aderir ao ensino virtual reflete uma mudança de opinião de uma parcela do corpo docente da USP e da própria unidade, que se opunha às atividades remotas (ou pelo menos à conversão improvisada impulsionada pela Reitoria), mas passou a aceitar essa opção como inevitável por acreditar que, frente ao avanço da Covid-19 e às sucessivas prorrogações da quarentena, não haverá retorno às atividades presenciais em 2020.

De acordo com o comunicado do CTA, “a vocação da FFLCH e dos cursos de graduação nela ministrados desde sua origem está intimamente relacionada e comprometida com o ensino presencial e assim permanecerá; entretanto, é mister indicar que, devido às medidas de distanciamento social instauradas para conter a propagação do novo coronavírus, atividades remotas diversas serão necessárias a fim de que o calendário letivo seja recomposto devido à imprevisibilidade do retorno às aulas presenciais”. Salienta, no entanto, que “as atividades remotas não supõem a adoção do ‘ensino a distância’ (EaD), pois este possui particularidades didáticas e tecnológicas próprias, para as quais não estamos habilitados e cuja eficácia não nos é clara”.

Afirma ainda o comunicado que, “considerando que não existe uma data certa para retorno a aulas presenciais, alguma forma de reposição presencial, caso necessária, será devidamente assegurada”. A questão da desigualdade do acesso à Internet recebe uma curta menção no texto do CTA: “Alunos e docentes com dificuldades poderão se capacitar tecnicamente junto ao setor especializado da FFLCH, a STI, e didaticamente junto a colegas que possuam mais experiência sobre a utilização de ferramentas como Google Meet, Moodle, YouTube, Zoom, entre outras, para manutenção das atividades remotas”.

Acrescenta que, mediante a atuação de “Comissões de Apoio” a serem criadas, “os cursos e seus docentes se comprometem a serem compreensivos e solidários com discentes que tenham dificuldades técnicas e de saúde psíquica e física para acompanhar ou realizar as atividades remotas” e que “também estarão atentos para que nenhum aluno seja prejudicado, incluindo alunos de intercâmbio”.

Ainda segundo o comunicado, a FFLCH assume o “compromisso de flexibilizar todos os prazos relativos ao calendário letivo, inclusive o cancelamento/trancamento das disciplinas pelos alunos, sem registro nos seus históricos escolares”. Para tanto, explica, “atuará junto à Pró-Reitoria de Graduação em consonância com a nossa Comissão de Graduação [CG], que já deliberou sobre esta questão”. Caberá à Comissão de Cultura e Extensão Universitária da FFLCH “estudar e auxiliar os casos de vulnerabilidade do corpo discente, técnicoadministrativo e docente durante o período emergencial de combate à pandemia”. Quanto às avaliações, “devem ser discutidas, em tempo hábil e no momento oportuno, pelas instâncias competentes da FFLCH e da USP, evitando-se o descompasso entre professores do mesmo curso”.

Setorial da Adusp propôs comissões de acompanhamento por curso

A criação das Comissões de Apoio (embora com outro nome) e a flexibilização de prazos foram medidas sugeridas à Congregação da FFLCH por membros desse colegiado, por departamentos e, ainda, pela Assembleia Setorial da Adusp, que se reuniu em 29/4. A Setorial considera que não se pode ignorar o fato de que a FFLCH é “uma das unidades da USP que reúne um maior número de estudantes em situação socioeconômica mais vulnerável, nem naturalizar o fato de que eles serão seguramente os mais prejudicados” pela crise atual. “E, também, uma vez que a nossa vocação é sabidamente o ensino presencial, não podemos minimizar o desafio que representa a passagem para outra forma de ensino, muito menos numa conjuntura complexa como a que vivemos hoje”.

Assim, com a intenção de criar “meios para construir um caminho e enfrentar esse momento excepcional sem naturalizar as perdas”, a Setorial propôs medidas em três frentes: 1) Criação de “Comissões para o Acompanhamento da Crise Sanitária (CACS) por curso com a participação de docentes, discentes e funcionários com a finalidade de fazer um levantamento suficientemente preciso e sistemático sobre as condições em que se encontram discentes e docentes em relação não apenas ao acesso à Internet, mas também quanto a aspectos habitacionais, emocionais, de rotina e de saúde que sejam relevantes e possam interferir diretamente no seu desempenho durante as atividades letivas”; 2) fortalecimento dos colegiados, “para que as decisões tomadas neste momento extremo aconteçam da forma mais democrática e transparente possível”; e 3) “extensão ampla de prazos que, posteriormente revista conforme o andamento da crise, considere que muitos docentes estão ainda ajustando seus modos de trabalho, e que a pandemia está entrando, precisamente agora, no seu momento mais crítico, isto é, que o encaminhamento do semestre está apenas no seu início e no pior cenário de saúde pública”.

CG e CTA, por sua vez, emitiram um documento de Orientações, no qual se informa que o primeiro semestre de 2020 poderá ser estendido a critério dos cursos e dos departamentos, “considerando decisões coletivas e de seus respectivos colegiados e respeitando as diretrizes de base curricular”. A extensão do semestre inclui “desde a prorrogação de datas para o desenvolvimento das atividades necessárias para o ensino/aprendizagem dos conteúdos até a manutenção da abertura do sistema Júpiter para o registro de frequências e/ou notas”. As atividades remotas — desde orientação on-line e estudos dirigidos, ao oferecimento de conteúdos em plataformas interativas — devem ser consideradas para cômputo de carga horária. “A definição de parâmetros para esse cômputo deve ser priorizada de imediato”.

Solicitações de trancamento de matrícula em disciplinas, ainda que restem ao aluno menos de 12 créditos em matrículas no semestre, serão deferidas de plano, sem necessidade de consulta ao coordenador do curso/habilitação nem à CG. Solicitações de trancamento total de matrícula, ainda que o aluno não tenha integralizado os 24 créditos exigidos, serão igualmente deferidas de imediato. Solicitações de retificação de matrícula fora do prazo, no caso de exclusão de disciplinas, receberão o mesmo tratamento.

“Tendo em vista a magnitude de conteúdos oferecidos pela FFLCH — mais de 10.000 alunos de graduação ativos, 434 docentes — e a pluralidade —cinco cursos, 25 habilitações, 327 disciplinas sendo ministradas no primeiro semestre de 2020 —, a adoção de uma única conduta em relação ao primeiro semestre de 2020 não atenderá a todas as situações existentes, razão pela qual os departamentos e os cursos têm toda a autonomia para avaliar quais ações são necessárias e dar consecução ao término do semestre”, afirmam CG e CTA.

Retomada não será nos moldes anteriores, diz Faculdade de Educação

Também a Faculdade de Educação começa a dar uma forte guinada em direção ao ensino remoto, conforme revela o documento intitulado “Reorganização do Calendário e das ações da Graduação para 2020”, assinado pelo diretor da unidade, Marcos Garcia Neira, pelo vice-diretor Vinício de Macedo Santos, pela presidenta da CG, Rosângela Gavioli Prieto, e pelos coordenadores da Comissão do Curso de Pedagogia, Roni Cleber Dias de Menezes, e da Comissão de Cursos de Licenciaturas, Cláudia Valentina Assumpção Galian.

“Durante estes dois meses, considerávamos a possibilidade de um retorno próximo; agora, já precisamos trabalhar com a consciência de que a vida tal como vivíamos não é mais possível”, diz o documento. “O que podemos aprender a partir da experiência de outros países e os cuidados que vêm sendo tomados e o que se pode concluir pelas características da pandemia no Brasil é que a retomada de atividades não será nos moldes anteriores e nem mesmo como projetávamos há um mês”.
Enquanto não houver vacina que possa garantir a imunização de todas(os) ou tratamento capaz de interromper a evolução da doença, argumenta, “há três aspectos indiscutíveis de que precisaremos cuidar na saída do isolamento e retomada das atividades: a) ele só será possível a partir de extremo rigor com os protocolos de limpeza e higiene; b) a retomada terá que passar pelo uso criterioso e escalonado do espaço: não será possível voltar a reunir grandes grupos, assim como não teremos possibilidade de reunir toda a comunidade (estudantes, funcionárias(os) e docentes) ao mesmo tempo; c) reconhecimento de que há docentes, funcionárias(os) e estudantes em grupos de risco e possivelmente não poderão retomar suas atividades presenciais ao longo de todo o ano de 2020”.

Depois de outras considerações e da enunciação de princípios gerais — 1) “toda e qualquer iniciativa institucional estará comprometida com a produção de estratégias de acesso ao conjunto integral de estudantes, o que implica: reconhecer e mapear as distintas realidades vividas por estudantes, funcionárias(os) e docentes durante a pandemia”; 2) “toda e qualquer retomada deve ter em mente o replanejamento das disciplinas a partir do que vivemos, não será uma retomada ‘de onde se parou’” —  o documento conclui que “a mudança de cenário, com a prorrogação e possivelmente intensificação da necessidade de isolamento social e de sua forma, leva-nos a repensar o modo como conduzimos as atividades de formação”, e “neste momento, a utilização de meios remotos é a única condição possível para interagir e promover atividades de ensino da graduação, sem colocar em risco os membros da comunidade; tal utilização não poderá ser dispensada numa eventual retomada das atividades presenciais”.

O “eventual retorno”, acrescenta, “não se dará no modo como estamos habituadas(os), mas sim com a redução do número de pessoas circulando na faculdade para garantia de condições de distanciamento social, com possível redução do horário de permanência na instituição, e outros cuidados imprescindíveis com a higienização, em data cuja definição depende da evolução da pandemia”; “possivelmente será constituído pela alternância entre períodos de presença e de isolamento, isto é, pela necessidade de planejamento combinando atividades presenciais e à distância”; “também será com limitação de número de pessoas circulando nos prédios da faculdade. Isso vai requerer escalonamento [...]”.
O documento propõe o seguinte “Cronograma com três fases para um cenário de retomada de algum nível de atividade presencial a partir de agosto de 2020”:

“I. Suspensão das atividades para replanejamento (de 18 a 29/5).

II. Retomada para encerramento das disciplinas ativas do 1º semestre de 2020 (de 1º/6 a 31/8), subdividida em dois períodos, um para quem participou das atividades remotas e assim pode continuar (esses casos podem ter sua situação fechada até 31/7), e outro para quem não participou e demandará encontros presenciais de orientação no primeiro mês de retomada presencial (3/8 a 31/8) e negociação de extensão de prazo por meio do recurso à segunda avaliação (até o final de setembro).

III. Atividades correspondentes ao 2º semestre letivo de 2020, provavelmente com a manutenção das atividades remotas (14/9, podendo se estender até o início de 2021, com um intervalo para o recesso de final de ano)”.