Levantamento da CG que “mapeou” 305 das 326 disciplinas da unidade no primeiro semestre de 2020 revela que, embora 227 (quase 75%) venham oferecendo ao corpo discente algum tipo de interação online, apenas 41 delas acontecem em tempo real, e na grande maioria das disciplinas 75% das síncronas e 86% das assíncronas — os docentes não determinam participação obrigatória dos estudantes

A grande maioria dos docentes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), responsáveis por 69,6% (227) das 326 disciplinas de graduação oferecidas pela unidade no primeiro semestre de 2020, está desenvolvendo atividades a distância, de modo síncrono ou assíncrono. Porém, em apenas 41 disciplinas (12,5%) estão sendo ministradas aulas síncronas — ou seja: em tempo real — e na maior parte dessas aulas síncronas (31 disciplinas) os docentes não exigem participação dos discentes. Por outro lado, em nada menos do que 175 disciplinas da graduação (53,6% do total de 326) os discentes relatam problemas de acesso às atividades online.

Divulgados pela Comissão de Graduação (CG-FFLCH), os dados constam de documento denominado “Resultados do questionário ‘A graduação da FFLCH e a crise do CoViD-19’”, assinado por sua presidenta, professora Mona Mohamad Hawi. Encaminhado ao corpo docente da unidade no dia 13/4, pela Assistência Acadêmica, o questionário contou com 305 respostas, o que representa 93,5% do total de 326 disciplinas de graduação ministradas neste 1º semestre. Os docentes preencheram um formulário para cada uma das disciplinas pelas quais são responsáveis neste primeiro semestre.

“No caso dos docentes que não ministram aulas síncronas, mas desenvolvem algum tipo de atividade a distância, a porcentagem daqueles que não exigem obrigatoriedade é ainda maior: 85,9% (195)”, registrou o documento da CPG-FFLCH (o percentual, no caso, diz respeito às 227 respostas a esse item). Outro dado relevante: 12,1% (37) das 305 disciplinas mapeadas “não contam com nenhuma espécie de atividade a distância”.

Quanto aos problemas de acesso às aulas ou às atividades a distância propostas, registrados na maior parte das disciplinas (57,4% do total de 305 formulários preenchidos), foram especificados nas respostas à penúltima pergunta do questionário. Era possível marcar diversas opções. O documento da CG-FFLCH elencou os itens numa tabela, em ordem decrescente. Assim, os principais problemas de acesso dos estudantes às disciplinas a distância, segundo apontam os-as docentes participantes, são: “dificuldades de acesso à Internet”: 46,7%; “falta de equipamento adequado (acesso apenas por celular ou equipamento de configuração insuficiente)”: 44,4%; “ausência de ambiente favorável (falta de privacidade, ruído etc.)”: 31%. Também foram relatados “problemas de saúde física e/ou mental (do aluno ou de pessoa próxima)”, com 20,9%; “problemas financeiros em decorrência da crise econômico-sanitária”, com 15,4%; e “outro” com 15,7%. Contudo, em 33% dos formulários foi marcada a opção “Não se aplica”.

Docentes que assinalaram o campo “Outro” descreveram alguns motivos frequentes relatados pelos discentes. “Entre os que mais apareceram, cabe destaque [para] o acúmulo e a sobreposição de atividades domésticas e profissionais. Relata-se o aumento tanto da carga de tarefas domésticas quanto das exigências profissionais com o home office”. Além disso, prossegue a presidenta da CG-FFLCH, “alguns docentes relatam não ter obtido nenhum feedback dos alunos, não sendo capazes de dizer se ao menos receberam as indicações de leituras”, e outra parte declara “não ter obtido nenhuma comunicação por parte dos discentes que não estão participando das atividades propostas”.

“Comunicados da Reitoria assumem um discurso triunfalista”

Opcional, a última pergunta do questionário — “Caso queira, descreva no espaço abaixo os principais problemas enfrentados nesse período na condição de docente da universidade” — recebeu 139 respostas, que representam 45,6% dos respondentes. “Seria interessante uma leitura extensiva dessas respostas, porém cabe destaque a frequência de relatos indicando uma sobreposição de tarefas, devido à sobrecarga com as atividades domésticas, de criação de filhos e de cuidados com familiares idosos”, diz a professora Mona.

Nas respostas que foram transcritas no documento da CG-FFLCH, docentes descrevem certas dificuldades práticas que vêm enfrentando — por uma combinação das circunstâncias impostas pela epidemia e pela decorrente quarentena com a adoção improvisada, sob pressão da Pró-Reitoria de Graduação, de atividades didáticas online — e ao mesmo tempo criticam a conduta política da Reitoria e a falta de protagonismo da direção da unidade:

Sinto que os comunicados da Reitoria não consideram a gravidade da situação e assumem um discurso triunfalista que não se aplica a tudo aquilo que vivemos e que ainda podemos chegar a viver. Nesse sentido, falta para mim um pronunciamento mais articulado da FFLCH, espero que surja da análise destes questionários e que possamos nos posicionar como a situação merece.

Gostaria de que a Faculdade pudesse definir um posicionamento, levando em conta de modo especial os comunicados da Reitoria, que parecem não saber caracterizar a situação a partir do real. Espero que este formulário sirva para produzir uma resposta mais acorde ao que as pessoas estão vivendo.

A quantidade de trabalho aumentou muito, mas atinjo poucos alunos. Estou usando todos os meios que me ocorrem. De 60 matriculados, uns 12 estão sempre presentes. Os outros, apenas em alguma parte dos canais e modos de contato.

O momento é sensível, muito sensível. Portanto, acredito que antes de pensarmos numa postura conteudista em relação a nosso contato com os alunos, o mais importante é atuarmos como agentes públicos que permitem situações de suporte emocional aos estudantes. Tenho tido relatos de alunos que dizem ser muito importante a interação sincrônica, como forma de suporte emocional, para além do conteúdo acadêmico que norteia os encontros.

Espero que os colegas docentes não tornem esta crise sanitária em uma crise humanitária. Ainda acredito no poder transformador das instituições educacionais. E amplio este raciocínio para a manutenção de boas interações humanas. O bom senso toma como medida valores éticos de diversas perspectivas. Portanto, acredito que neste momento a questão mais importante a ser feita é a seguinte: O que nós, como docentes, podemos empreender em favor da segurança emocional, social e formativa dos jovens para quem damos aulas?

(1) Falta de apoio institucional tanto para a organização das atividades a distância, quanto para o debate e a tomada de decisões coletivas. (2) Pressão para a realização de algo que está sendo em todas as circunstâncias chamado EaD, sem fazer as necessárias distinções. (3) Dificuldade para estabelecer contato com uma parte das/os alunas/os (apenas aquelas/es alunas/os que conhecia há mais tempo estão relatando seus problemas e participando de alguma forma dos encontros).

A nossa atividade foi profundamente afetada nesse período, devido à situação em si, ao fato de, em particular no meu caso, ter que me isolar totalmente por morar com meu pai idoso. Além disso, exatamente nesse período, ele teve uma intercorrência cardíaca, o que acarretou ainda mais estresse ao momento. Ademais, inúmeras questões poderiam ser enumeradas: acúmulo de atividades domésticas, ambiente pouco propício ao trabalho, dentre outros.