Nesta reportagem, o Informativo Adusp ouviu sete docentes (seis mães e um pai) sobre a árdua realidade do seu cotidiano sob a Covid-19. O lema da Reitoria “ignora, num contexto de anormalidade e de excepcionalidade, a condição de sobrevivência que conforma a comunidade USP”, diz a professora Teise de Oliveira Garcia, da FFCLRP, que entre suas responsabilidades cuida em tempo integral da mãe, que tem mais de 90 anos de idade e doença de Alzheimer

A ideia de que a circunstância do teletrabalho — para o qual a universidade migrou por força da pandemia do novo coronavírus — permite aos docentes desempenhar normalmente as atividades letivas, acadêmicas, científicas e administrativas a partir de sua casa pode figurar bem na retórica da administração uspiana, mas não encontra eco na realidade. Tendo que lidar simultaneamente com as demandas do trabalho — sem a devida preparação para ministrar suas aulas remotamente — e com os cuidados domésticos em tempo integral (filhos pequenos, pais idosos, alimentação, limpeza, higiene etc.), docentes relatam cansaço extremo, falta de condições tanto técnicas quanto pessoais para lidar com a multiplicidade de tarefas, e preocupação com os impactos dessa situação nos estudantes.

A preocupação com a geração de conhecimento sobre maternidade e paternidade no universo da ciência no Brasil, por sinal, motivou a criação, em 2017, do Parent in Science, grupo formado por cientistas mães (“e um pai”, diz a sua apresentação). Em sua página na Facebook, o Parent in Science tem publicado vários artigos abordando os impactos do teletrabalho na produtividade dos cientistas, tema que ganha dimensão inédita com a pandemia da Covid-19. Uma pesquisa online do grupo está levantando dados sobre os impactos da pandemia na vida acadêmica dos cientistas do país.

Nesta reportagem, o Informativo Adusp ouviu sete docentes (seis mães e um pai) sobre a realidade do seu cotidiano, em que as exigências do produtivismo acadêmico são confrontadas com uma realidade em que cai por terra a ilusão vendida no discurso oficial de que “a USP não pode parar”.

Que fazer se “50% dos alunos não têm condições de participar de atividades online?”

Vanessa Martins, docente do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)

“Sou mãe de um menino de cinco anos e tenho a sorte de não estar sozinha. Moro com meu marido e minha mãe, e mesmo assim não consigo dar conta de todas as demandas. A gente tem todos os cuidados domésticos, que são muito diferentes do que se pudéssemos sair. Todas as brincadeiras e atividades de lazer dele têm que ser bastante dirigidas. A criança ainda não entende, por exemplo, que no momento em que a gente vai fazer um encontro online com os alunos ela não pode entrar. Eu não moro num ambiente que tenha um espaço separado para fazer isso – então é tudo improvisado e a criança não entende que ali está acontecendo um outro ambiente ou momento, sendo que a gente está no meio da sala da casa. Várias vezes meu filho acabou interrompendo meus encontros online com os alunos. São coisas que fazem parte.

As tarefas domésticas acabam recaindo mais sobre as mulheres, e aí o trabalho de limpeza, de preparação de comida etc. demanda bastante tempo. Meu filho ficava oito horas na escola, onde tinha almoço e lanche. Agora, além de não ter isso, a escola manda atividades para ele fazer. Quanto mais nova, mais ajuda a criança precisa para realizar essas atividades. É muito difícil equilibrar tudo. É um acúmulo, uma sobrecarga. No meu caso, minha mãe é idosa e está na faixa de risco, e meu marido também é do grupo de risco. Então sou eu que saio de casa e faço as compras etc. É bem complicado dar conta de tudo isso.

Em relação ao trabalho, acredito que existem duas dimensões. Uma é o nosso compromisso enquanto servidores públicos com o nosso ofício, o que envolve a manutenção de um contato com os alunos não do ponto de vista de conteúdo, mas do ofício da docência mesmo. Isso significa estar em contato com esses discentes para que possamos pensar juntos este momento pelo qual estamos passando. Isso é fundamental, considerando-se principalmente que estamos na FFLCH. Não se trata tanto da questão conteudista, mas da questão humana mesmo da figura do professor, e tenho procurado fazer isso com as minhas turmas.

Agora, é claro que existe uma pressão muito forte da Reitoria de que a gente não pare. Mas não vi em nenhum momento a Reitoria lamentar a morte [pela Covid-19] de pessoas que fazem parte da comunidade acadêmica, como funcionários e alunos. Para mim, tem sido bastante decepcionante e frustrante trabalhar numa instituição que é sim de pesquisa, ensino e extensão, mas também de acolhimento humano, e que não emite nenhum comunicado desse tipo. Só há comunicados produtivistas, na linha ‘a USP não pode parar’ — e você faz o que no meu caso, em que 50% dos alunos não têm condições de participar?

Tive recentemente um encontro online em que a aluna disse que o padrasto está em isolamento dentro da casa com a Covid-19 e pedindo desculpas porque não tinha conseguido entrar na semana anterior. Ou seja: não é uma situação na qual basta dar um chip para os alunos. É uma questão bem mais complexa e profunda, que a Reitoria está claramente se furtando a analisar.

Faço parte da Comissão de Graduação e sou coordenadora das licenciaturas de Letras. Aumentou muito o trabalho de quem está nessas comissões, e temos nos reunido com frequência. Temos que trabalhar com prazos mais curtos, porque os nossos cenários não podem ser traçados para médio e longo prazo. Os representantes apresentam as situações que estão ocorrendo em cada departamento e temos preparado documentos bem precisos para informar a direção sobre o que está efetivamente se passando com o ensino de graduação. Estamos gerando dados para que as decisões da direção, nos seus órgãos colegiados, sejam mais bem informadas.

Faz muita falta ter orientações precisas, como fez por exemplo a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Ter diretrizes claras e concretas ajuda demais tanto os docentes, que sabem como se comportar diante dessa situação inédita, quanto os alunos, que ficam muito angustiados. Cada professor praticamente está fazendo de um jeito, e eles não sabem como reagir a isso.”

“Vira uma loucura a lógica do trabalho invadindo a vida privada”

Cristiane Kerches da Silva Leite, docente do curso de Gestão de Políticas Públicas (GPP) e no programa de pós-graduação Mudança Social e Participação Política da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH)

“Mantive uma disciplina do Ciclo Básico e uma obrigatória no GPP, mas mudando totalmente o cronograma e a perspectiva de avaliação. Também não estou considerando a questão da frequência. Na realidade, estou valorizando o aluno estar na reunião, dar notícia. Não dá para pensar em avaliação tal como ela era antes da pandemia. Inclusive não sei como vai ser do ponto de vista da avaliação docente.

É uma mudança total do ponto de vista de conduta. Do ponto de vista pedagógico, sem dúvida fica bem mais complicado alcançar alguns objetivos. Uma das disciplinas é bastante teórica, então fiz uma primeira interação de duas horas no Google Meet, mas isso é muito cansativo tanto para os docentes quanto para os alunos.

Na verdade, esse ajuste para a interação ou contato remoto — acho que EaD é outra coisa — é muito difícil para nós. Nunca trabalhei com esse tipo de ferramenta. Sou professora desde 2002 e na USP desde 2007, e nunca tinha dado aula com esse tipo de ferramenta. É de grande complexidade.

Tenho dois filhos pequenos, um de dez e uma de seis anos, que têm diariamente demandas escolares usando ferramentas do Google. Mesmo que sejam atividades que podem ser feitas a qualquer momento, é pesado, porque acumula para os pais o papel de auxiliar as crianças na hora da atividade. Meu marido é professor horista em duas instituições de ensino privadas. Ele dá muito mais aula que eu, então quem fica mais com as crianças sou eu.

O que estou conseguindo fazer? Tenho essa interação com os alunos e as minhas orientações estão bastante atrasadas. Estou apagando os incêndios de quem tem prazos próximos. Está tudo desorganizado.

Com os alunos do Ciclo Básico, que são calouros, fiz uma consulta e vários deles responderam que não tinham acesso a computador em casa. Ou seja, é uma situação supercomplexa quando você propõe uma atividade no Meet e o aluno não tem condições de acompanhar. Criei então grupos de WhatsApp e fico propondo questões e discutindo com eles — são três grupos ao mesmo tempo, com uma monitora me ajudando. Isso é para a disciplina de Resolução de Problemas, para você ter uma ideia.

No fundo, o constrangimento na EACH é que as coordenações e as instâncias hierárquicas encamparam a ideia da continuidade. Isso gera uma situação complexa. Eu resolvi continuar, mas estou bem desconfortável e bem descontente com o resultado de tudo isso — e com o processo também.

Observo que a maioria está dando aula, mas acredito que tem gente que encampou a ideia e depois percebeu que é uma roubada, que o buraco é mais embaixo. É uma certa ingenuidade achar que de uma semana para outra as coisas se resolveriam. Qual é o pressuposto? O de que o aluno tem uma vida privada organizada, um quarto, uma escrivaninha… Não há condições de pressupor isso.

Os mapeamentos foram feitos todos a posteriori. Acaba que cada um está fazendo de um jeito. O que está acontecendo na universidade é o que está acontecendo no Brasil, ou seja, a falta de um plano nacional, porque temos um presidente que não acredita na ciência; logo, não está seguindo a orientação internacional sobre a pandemia. E temos governadores e prefeitos lutando para ter espaços institucionais para poder administrar seus territórios de forma um pouco mais racional do ponto de vista do bom senso científico.

Na USP está acontecendo mais ou menos a mesma coisa. Ficou assim: há recomendações de seguir em EaD, mas quem avaliou que em sua disciplina não era possível ou que não tinha condições, achou melhor não fazer.

Creio que todos estão tendo algum contato com os alunos. É importante não deixá-los à deriva.

Meus filhos estudavam à tarde. Agora, todo dia às 14h entra um professor para alguma atividade com o meu filho de dez anos: ler um livro junto ou alguma outra proposta, mas não é uma aula sistemática. Não há muito a obrigação de fazer, mas eles acabam colocando prazos. Eu falei com a coordenação da escola para expor a situação da minha casa, porque o meu filho começou a ficar com lições atrasadas. Enfim, vamos fazer o que é possível neste momento.

No fundo, há um modo de sobrevivência das unidades familiares em todos os níveis socioeconômicos. Obviamente para os mais pobres isso é ainda mais visceral, mas fazer o que é possível acabou virando a grande tônica.

Em casa, tudo tem que ser coordenado. Eu iria participar de uma banca de doutorado e tive que combinar o horário com o meu marido 15 dias antes. Quando estou em atividade acadêmica ele não está, só que ele tem seis turmas e eu tenho duas. É muito difícil lidar com a lógica do trabalho invadindo a vida privada. Vira uma loucura. Alguma coisa vai sair perdendo.

A USP construiu uma ideia de que isso é uma oportunidade de entrar em contato com a EaD, um aprendizado, alguma coisa positiva — mas a realidade é que o peso que está se apresentando é muito maior do que o lado do senso de oportunidade. É um outro modo de vida que é violento.

Cada esfera da nossa vida é prejudicada, inclusive a esfera íntima dos casais, as dinâmicas familiares… Há toda essa questão da violência doméstica aparecendo, questões psicológicas e sistêmicas das famílias que são mal resolvidas e que aparecem de forma muito forte nesse confinamento.”

“O trabalho é intermitente: está sempre acontecendo alguma coisa com as crianças”

Annie Schmaltz Hsiou, docente do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP)

“Tenho um menino de cinco anos e uma menina de um ano e onze meses e moro com meu companheiro. Meus filhos estudam na creche Carochinha, da USP, que também parou. Eu já havia entrado na quarentena no dia 14/3, porque tinha ido a um congresso onde havia participantes com suspeita de contaminação.

Desde que a USP anunciou a quarentena, a minha coordenação de curso e minha Comissão de Graduação enviaram um formulário-padrão no intuito de informar quais ferramentas seriam usadas neste momento para as aulas remotas e também perguntando se o docente iria manter ou não as disciplinas e por quê. Na minha disciplina, o conteúdo é teórico, mas há saída de campo e algumas atividades práticas e coletivas, como seminários etc. Respondi que iria cancelar essas atividades, mas tentaria manter um vínculo de apoio para que os alunos tivessem acesso de alguma forma ao conteúdo que não seria dado presencialmente. Como não sou responsável sozinha por essa disciplina e a divido com um colega, me senti numa sinuca de bico, porque o colega me escreveu que daria as aulas. Essa condição de ter uma disciplina compartilhada, em que um docente dá aula e outro não e em que você não tem autonomia, é uma coisa complicada. Fico com medo, e ainda estou, de sofrer retaliações futuras — não do meu colega, mas do colegiado.

Há disciplinas que não estão sendo dadas no meu curso porque o aluno precisa acessar a internet em sala de aula com o professor para testes estatísticos, modelagem etc.

Escrevi para a minha coordenação ponderando que as pessoas que não fossem aderir às aulas online não fossem punidas, porque em algum momento teremos que fazer o calendário de reposição das aulas presenciais. Creio que a grande pressão vem pelos e-mails da Reitoria.

Eu não dou aula em vídeo e não marco live com os alunos. Gravo aulas com slides e subo o arquivo em PowerPoint. Quando gravo, tenho que ‘me esconder’ das crianças e meu marido fica com elas. Mas há essa carga mental e da dupla jornada. Tenho as demandas da pós-graduação, longas reuniões – e no meio disso tudo é preciso fazer almoço, jantar, dar atenção às crianças... Está sendo bem difícil, porque não tenho horário, não tenho local adequado para fazer essas aulas ou para as reuniões com os colegas. Em geral participo com o vídeo desligado, porque as crianças estão passando, correndo…

É difícil manter um trabalho concentrado. Ele é intermitente: está sempre acontecendo alguma coisa com as crianças. Elas estão dormindo mais tarde, e eu geralmente vou dormir às duas horas da madrugada. Meu marido está acordando mais cedo para poder trabalhar mais em casa.

Escrevo aos alunos pedindo paciência, porque não consigo sentar como se estivesse no laboratório e ler um projeto em um dia ou um paper em alguns dias. É um trabalho intermitente mesmo e pouco produtivo. E há vários papers sendo submetidos na quarentena…

Há os docentes que não têm filhos pequenos, mas existe também uma demanda muito alta de cuidado com idosos ou pessoas com doenças crônicas, no grupo de risco. Temos uma geração de docentes na casa dos 60 anos, alguns com pais vivos, e uma na faixa etária de 45 a 55 anos, com pais vivos também e filhos em idade escolar. Ou seja, estão sendo professores duplamente, porque fazem EaD com os alunos na universidade e com os próprios filhos, porque as escolas não param de mandar atividades.

No final do formulário perguntava-se se havia condições de trabalho e eu respondi que não. Não sei se essas questões serão levadas para o Conselho de Graduação (CoG) ou para as pró-reitorias para que seja feito um balanço.

Há também as questões com servidores técnico-administrativos. Qual é a quantidade e a qualidade do teletrabalho? Qual é a demanda principalmente para as trabalhadoras, que estão sendo exigidas por questões burocráticas e por professores que também estão estressados? É uma reação em cadeia.”

“A gente tenta se estabilizar emocionalmente, porque a demanda ficou triplicada”

Flaviane Svartman, docente do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH

“Estou conseguindo manter o contato com os alunos. Essa é uma posição tanto da Reitoria quanto da direção da FFLCH: manter alguma forma de interação e tentar seguir com o conteúdo.

Tenho feito reuniões pelo Google Meet. Estou inclusive gravando o material para deixá-lo disponível quando isso for possível. Não estou exigindo presença dos alunos e também a avaliação está suspensa por enquanto.

Sou bolsista de produtividade do CNPq, tenho alunos de pós-graduação e iniciação científica, sou coordenadora, com a professora Márcia Santos, do Grupo de Estudos de Línguas em Contato (Gelic), atuo em outros grupos de pesquisa e ainda tenho demandas administrativas, porque sou vice-coordenadora de um programa de pós. Está bem pesado gerir tudo isso ao lado das filhas e dos cuidados da casa.

Faço as reuniões pelo Google Meet ou por Skype. Mas, principalmente com os alunos, acabo marcando reuniões para o final de semana. Perde-se essa noção de fim de semana ou feriado

Tenho duas filhas, de sete e quatro anos de idade. Antes elas ficavam na escola, meus pais me ajudavam e também meu ex-marido ficava com elas nos dias propostos. Agora quem está mais ajudando com elas é meu ex-marido. Mas os cuidados de maneira integral ficam comigo mesmo.

Peço para elas terem compreensão e ficarem um pouco quietinhas quando estou em alguma reunião. Mas às vezes é complicado e tenho que parar o microfone ou o vídeo para dar conta delas. Às vezes elas brigam — são crianças.

Outro complicador é o homeschooling. Agora a escola delas deu uma pausa, férias de duas semanas, mas antes as aulas da mais velha batiam com reuniões que eu tinha na USP. Como não conseguia fazer sozinha as atividades online, ela ficava num computador e eu no computador ao lado, com fone, tentando ajudá-la e ainda participando de reuniões. Então era caótico. A gente tenta buscar condições de se estabilizar emocionalmente, porque a demanda ficou triplicada.

Não sei como as coordenações veem essa questão das diferenças entre os docentes. Eu tenho crianças pequenas e estou sozinha com elas. Há docentes que não têm essa demanda. Espero que as coordenações tenham compreensão. Nas reuniões da pós, se eu saía era porque estava cuidando das crianças. A coordenadora sabe e seguia tocando a reunião. Ainda bem que sou a vice, senão seria o caos...

É um período muito difícil. Ninguém estava esperando uma situação dessas, que mudou a vida de todo mundo. A demanda das crianças pequenas, da escola online, as nossas tarefas profissionais… Gerir tudo isso e mais as questões domésticas está esgotando a gente tanto do ponto de vista físico quanto emocional.”

“Parte técnica é o de menos. Tenho duas crianças em casa e a rotina está muito cansativa”

Gisela Tunes da Silva, docente do Departamento de Estatística do Instituto de Matemática e Estatística (IME)

“Tenho uma menina de seis anos, que está no primeiro ano, e um pequenininho de três anos. Moro sozinha com eles e nesse período de quarentena tenho ficado com as crianças de quarta a sábado. O pai, de domingo a terça-feira.

No IME, senti uma certa pressão para continuarmos com as aulas online. Há professores que estão fazendo tudo online e outros que pararam. Mas logo nos primeiros dias da quarentena eu já tinha recebido não sei quantos e-mails da Reitoria.

Conversei com os alunos e mantive o contato com eles. Uma das minhas disciplinas é do último ano do bacharelado em Estatística. Fui pressionada por alguns desses alunos, por e-mail, para continuar com a atividade online em duas aulas por semana. A minha resposta foi que eu não podia. Dou aula na segunda-feira, quando estou sem as crianças. Talvez eu conseguisse duas aulas por semana se estivesse só com a maior, mas com o de três anos realmente só tenho condições de fazer alguma coisa de trabalho quando não estou com ele. Meus filhos normalmente ficam em período integral na escola. Não consegui vaga na creche da USP nem na Escola de Aplicação.

Combinei então com os alunos que tentaria fazer um encontro online uma vez por semana, mas, caso alguém não consiga acompanhar ou tenha qualquer problema, vou repor tudo presencialmente quando retornarmos, sem prejuízo para os alunos. É uma preocupação minha. Também enviei uma lista de exercícios e falei que poderiam fazer, mas sem data de entrega. Também cancelei uma prova que já estava marcada. Acredito que os alunos estão gostando do sistema.

Creio que inicialmente a diretoria da unidade se mobilizou bastante para resolver o problema dos alunos que não tinham computador ou acesso à Internet para as aulas a distância. Com relação aos docentes, há muitos colegas se dispondo a ajudar na parte técnica — como gravar uma aula, como fazer isso ou aquilo com as ferramentas digitais.

Recentemente foi enviado aos docentes um questionário mais voltado para isso. A última questão era se haveria algum outro ponto que você gostaria de levantar. Eu respondi: a parte técnica, para mim, é o de menos. Eu tenho duas crianças em casa, fico três dias sem elas e, desses, preciso tirar um dia para arrumar a casa. Nesses dois dias que restam eu dou aula, oriento alunos de graduação e pós — passo o dia todo conversando online com os alunos.

Além de as crianças terem idades muito diferentes, minha filha também tem aula online todas as tardes e ainda há lições para fazer em casa. A escola pede para haver algum responsável junto durante as aulas, e enquanto isso o menor está correndo para cima e para baixo. É uma dinâmica bem difícil.

Eu estou muito cansada. Para mim, não tem isso de assistir a séries e filmes, colocar os livros em dia… É uma rotina muito cansativa.”

“A sensação é de que os alunos não estão lidando muito bem com a situação”

Alexandre da Silva Freire, docente do curso de Sistemas de Informação da EACH

“Não estou propriamente tentando me adequar às orientações ou às exigências que estão sendo feitas. A recomendação que estou seguindo é evitar fazer lives — ou, se fizer, que elas fiquem gravadas para que o aluno que não puder estar ao vivo possa acessar. Não estou fazendo lives: gravo vídeos e os coloco no YouTube, ferramenta que eu já estava acostumado a usar. Mas não estou cobrando nem como frequência nem como nota. Tenho também um grupo de WhatsApp com os alunos, no qual a gente vai conversando e tirando dúvidas.

Tenho sentido que realmente perdi o contato com os alunos. Por mais que a gente fale que está à disposição, eles acabam não procurando. Estou começando a pensar em fazer alguma live para ver como os alunos estão. A sensação é de que não estão lidando muito bem com isso.

Sou separado e moro sozinho. Eu e a mãe das crianças [o docente foi casado com a professora Gisela, do IME] estamos dividindo os dias da semana com as crianças. Nos dias em que fico com elas, basicamente não trabalho. Posso acessar algum e-mail ou ver alguma coisa depois que elas dormem, mas é quase como se não fosse um dia de trabalho. Além desses dias com as crianças, há as tarefas da casa. Isso tudo dá um impacto no trabalho, sem dúvida. Vamos trabalhar menos, não tem jeito, e esse menos vai depender da rotina de cada um.

Pelo que o governador está falando, a partir do dia 11/5 devemos começar a sair do isolamento. Não sei se nesse relaxamento as escolas também vão voltar. Agora, se esse período se prolongar por muito tempo, vamos ter que colocar as coisas na mesa para conversar. O ensino está totalmente prejudicado, e eu estou no último ano do estágio probatório. Minha preocupação maior é como será esse último biênio de relatórios CERT [Comissão Especial de Regimes de Trabalho].”

“Temos uma responsabilidade muito grande com os que estão sob nossos cuidados”

Teise de Oliveira Garcia, docente do Departamento de Educação, Informação e Comunicação da FFCLRP

“Na graduação, nosso departamento tomou a decisão de não oferecer disciplinas remotas apressadamente e estamos com as aulas suspensas. No curso de Pedagogia, dialogamos e temos diferentes posições. Eu me integro a um grupo que pretende articular formas de contato e de atividades com os estudantes. Porém, temos a característica de ser um curso muito ancorado na realização de estágios, os quais compreendemos que não podem ser oferecidos de maneira remota. No meu ponto de vista isso não faria nenhum sentido.

Há um interesse, por parte de alguns docentes, em oferecer disciplinas remotas, mas também a visão de que, neste momento, possamos construir atividades e ações que possibilitem algum nível de integração mais regular com os estudantes — integração na perspectiva de contribuir para que eles alcancem uma compreensão maior da crise que vivemos, com uma reflexão mais densa, e que ao mesmo tempo se sintam acolhidos.

Estamos bastante preocupados com as dificuldades de acesso que muitos estudantes têm. Há estudantes que retornaram para a casa da família, estão em cidades menores ou em repúblicas e não têm condições de acessar a Internet.

Compartilho da ideia de que é precipitado entender que a oferta de aula remota possibilita uma qualificação ou a continuidade regular das atividades da universidade. Isso merece uma discussão mais cuidadosa e mais profunda, que passa pela questão do acesso e da qualidade, pela reflexão acerca dos princípios que orientam a nossa atuação docente.

No nosso programa de pós-graduação, o conjunto dos professores suspendeu as aulas. Produzimos um documento que veiculamos para a CPG [Comissão de Pós-Graduação] e para os estudantes com as nossas argumentações. Estamos trabalhando remotamente em reuniões quinzenais de avaliação da crise e estamos construindo com os estudantes possibilidades de atividades como fóruns e oficinas.

Uma parte dos estudantes, assim como na graduação, tem muita dificuldade de acesso porque estão em localidades pequenas ou são profissionais de educação básica e têm suas próprias demandas de trabalho em casa. Pelo menos uma aluna mora em zona rural e não tem acesso à Internet, e uma orientanda está lutando pela sobrevivência: concluiu agora o mestrado, não pode sair para ir para a casa dos pais no Mato Grosso e está tomada pela urgência da sobrevivência.

Estou na coordenação do programa, e temos tido reuniões quinzenais da CCP [Comissão Coordenadora de Programa]. Discutimos o documento do Cruesp [Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas] com a visão de que ele trata de atividade remota onde e quando for possível, e entendemos que a oferta das disciplinas neste momento não é possível. A segunda observação é o compromisso assumido pelos reitores de que há que se cuidar da saúde mental e emocional da comunidade. Entendemos que, ao pensarmos cuidadosamente sobre cada uma de nossas ações e como estabelecemos a relação com os estudantes, estamos nos cuidando e nos protegendo desse ponto de vista também.

‘A USP não pode parar’ é, para mim, um lema muito ruim porque ignora, num contexto de anormalidade e de excepcionalidade, a condição de sobrevivência que conforma a comunidade USP.

Eu moro em Ribeirão Preto com meu marido, ambos com quase 60 anos. Sou responsável pelos meus pais, que têm mais de 90 anos, minha mãe está com o Mal de Alzheimer e tenho um filho que mora em São Paulo. A cuidadora da minha mãe está em licença, também cuidando dos pais dela, com afastamento remunerado.

O dia a dia é composto, além das tarefas de coordenação de programa, da tentativa de olhar a graduação, do apoio aos orientandos e do trabalho com a pesquisa, pela responsabilidade da limpeza da casa, cuidados de higiene, manutenção do estímulo à minha mãe, verificação e logística para a chegada da comida e sua higienização… O cotidiano se tornou mais ocupado de atividades domésticas e mais tenso porque, além do cuidado que temos que ter com a própria saúde, temos uma responsabilidade muito grande com aqueles que estão sob nossos cuidados.

O ponto mais duro é vivenciar uma crise inédita distante da sua cria. Meu filho está no epicentro da crise e eu não o vejo desde fevereiro, o que não é comum entre nós. Ele é um adulto, tem 28 anos e já mora fora de casa há muito tempo, mas essa distância imposta, essa sombra do que pode acontecer e esse distanciamento são muito difíceis.

Existe essa tensão permanente — enfim, a vida se modificou drasticamente. Me parece que é sobre-humano supor que neste contexto seja possível manter uma agenda produtiva como se nada estivesse ocorrendo.

Temos um grupo que dialoga muito sobre questões de trabalho, mas é também um grupo de apoio, porque há situações muito tensas. Temos colegas em grupo de risco que moram sozinhos e que estão impossibilitados de sair de casa, colegas em casas pequenas com várias crianças… Há um conjunto de variáveis estranhas ao cotidiano que se introduziram na nossa vida, e é impossível falar que há uma normalidade naquilo que se chama de atividade produtiva. Penso que vamos pagar um preço muito alto em relação à saúde se não houver uma reflexão mais cuidadosa sobre essa produtividade exigida no trabalho acadêmico.

O esforço que estamos desenvolvendo no departamento e nos espaços onde se constrói mais debate é onde encontramos alguma âncora pra poder agir com um pouco mais de racionalidade e de tranquilidade. Isso tem sido muito importante. Que bom observar que neste contexto não fomos precipitados na migração para as disciplinas remotas. Que bom que estamos debatendo. Isso é salutar.”