Mais de vinte trabalhadoras(es) do Hospital Universário testaram positivo para Covid-19, com duas delas internadas no Hospital das Clínicas. Ato público em defesa da vida do pessoal de saúde está marcado para 12h30

“Apesar de a Superintendência e Reitoria dizerem que o HU [Hospital Universitário] é ‘hospital livre do Covid-19’, já contabilizamos 22 casos de funcionários com Covid-19 e outros aguardando resultados — e pior ainda, alguns que nem exame colheram, pois o HU se recusa a colher de todos que apresentam sintomas. Estamos com duas colegas de trabalho internadas no HC [Hospital das Clínicas], sendo que uma delas é do grupo de risco, deveria ser afastada, mas ao contrário disso foi escalada para dar assistência no ‘gripário’ (local onde são atendidos pacientes suspeitos de Covid-19). Não vamos aceitar ter mais colegas nesta situação”.

O depoimento é de profissional da equipe de saúde do HU, em mensagem de convocação de um protesto que será realizado por trabalhadoras(es) em frente ao hospital nesta quinta-feira (23/4), a partir de 12h30, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores (Sintusp) e do Coletivo Butantã na Luta (CBL). A manifestação vai enfatizar a reivindicação de que todos os funcionários que integrem o grupo de risco para Covid-19, como aqueles com mais de 60 anos de idade, portadores de comorbidades, grávidas e lactantes, “sejam afastados, para que suas vidas sejam preservadas”.

Estima-se que cerca de 300 delas(es) apresentam condições de risco e precisariam ser substituídos por outros profissionais, o que exigiria contratações imediatas. “Precisamos urgentemente de contratações, precisamos que os funcionários sejam respeitados”, diz o relato que chegou ao Informativo Adusp.

A Reitoria, em comunicado emitido em 2/4, anunciou seu entendimento e decisão de que “a dispensa irrestrita do trabalho para o contingente específico de funcionários com idade superior a 60 anos, com comorbidades ou com filhos menores de 10 anos equivale, na prática, a fechar a instituição, pois esse grupo corresponde a cerca de 30% dos recursos humanos do HU”, sob a alegação de que “foram minimizados os riscos aos funcionários por meio do foco especial em ações de higienização, uso adequado de equipamentos de proteção individual, restrição de contato, no que for possível, e adoção de protocolos rígidos e compatíveis com a gravidade do cenário que se enfrenta”.

“São oferecidas duas máscaras cirúrgicas para o plantão de 12 horas”

No entanto, o relato recebido pela reportagem sugere que a “adoção de protocolos rígidos e compatíveis” tem sido retórica até o momento. Os equipamentos de proteção individual (EPI) estariam sendo distribuídos em quantidade insuficiente: “São oferecidas uma máscara cirúrgica para um plantão de 6 horas e duas para o plantão de 12 horas. Os funcionários de outros setores trabalham sem a proteção ideal, pois o serviço de infecção hospitalar do hospital (CCIH) insiste que não é necessário”.

Desde 2014, primeiro ano da gestão M.A. Zago-Vahan Agopyan, o HU vive um processo de sucateamento que envolve redução do quadro de pessoal, corte de recursos e assédio moral. O chamado Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV) fez com que o hospital perdesse de uma só vez, em 2015, mais de 200 funcionárias(os), inclusive médicos e médicas, o que desencadeou novas perdas nos anos posteriores. Em 2019 houve uma contratação emergencial que repôs apenas parte do quadro. Atualmente o HU tem 78 leitos inativados por falta de funcionários.

“Tentamos diversas vezes reuniões com a Superintendência e a Reitoria, mas conseguimos poucas respostas até agora, e a maioria delas insuficientes”, afirma em vídeo divulgado pelas redes sociais a auxiliar de enfermagem, e diretora do Sintusp, Rosane Meire Vieira. “Diante dessa situação”, prossegue Rosane, decidiu-se realizar uma ação na entrada do HU nesta quinta-feira, “para denunciar, para usuários e para a imprensa”, as condições do hospital. “Vamos seguir todos os protocolos de segurança, como distanciamento mínimo e uso de máscaras”.

Para Mário Balanco, da coordenação do CBL, o que o HU está enfrentando “é um problema sério de gestão e decisão politica para resolver”, na medida em que existem recursos à disposição da Reitoria. “Sendo assim, é inadmissível deixar trabalhadores do hospital à mercê da sorte e não fazer uma contratação emergencial para substituir os que se encontram no grupo de risco. Lembramos que nos últimos três anos o movimento em defesa do HU trouxe R$ 108 milhões através de emendas parlamentares na Alesp. E por fim: já acionamos o Ministério Público [MPE-SP] e estamos esperando uma resposta”.