Associação também oficiou à Comissão Especial de Regimes de Trabalho (CERT) e à Pró-Reitoria de Pesquisa, às quais requereu a prorrogação de prazos em razão da epidemia

Em ofício encaminhado na quinta-feira (16/4) ao pró-reitor Edmund Chada Baracat, a Diretoria da Adusp manifestou seu entendimento de que a Pró-Reitoria de Graduação (PRG) “deve traçar um plano que respeite todas as consequências que a grave pandemia impõe, desde limitações de acesso a ferramentas remotas, até impactos emocionais e nas rotinas de cada pessoa”, e sugeriu que sejam estabelecidas pela PRG, democraticamente, diretrizes que considerem “a garantia de um novo calendário escolar, que permita que as disciplinas sejam ministradas de forma presencial e com a qualidade como foram pensadas e planejadas”, “o abandono da retórica discursiva de que as atividades não pararam” e, ainda, “a avaliação efetiva de suspensão do semestre letivo”.

Tais diretrizes, aponta o documento, devem levar em conta, igualmente, “as atividades realizadas por docentes e estudantes que aderiram aos meios remotos”, bem como “a previsão de condições adequadas para a retomada de atividades em unidades, departamentos e disciplinas que suspenderam atividades (como estimativa, até que as áreas de saúde e sanitárias declarem o recuo da epidemia)”.

No ofício encaminhado a Baracat, a Diretoria da Adusp critica a “forma como a PRG lidou com a situação, sem diretrizes claras e planejamento, [porque] provocou uma corrida desenfreada ao uso de estratégias, independentemente de quais fossem”, e porque levou docentes a começarem “a se valer de ferramentas sem ao menos analisar a viabilidade ou questionar barreiras impostas pela opção feita”.

“A pressa e a falta de entendimento dos vários perfis de pessoas que compõem a Universidade de São Paulo”, continua o documento, “resultaram em reações de parte considerável de estudantes, docentes e funcionárias/os, que passaram a denunciar que a medida aprofunda a desigualdade de acesso aos meios digitais” e, portanto, impede estudantes mais vulneráveis “de terem acesso aos conteúdos que se pretende trabalhar”. Desse modo, conclui, ampliou-se a “vulnerabilidade daquelas pessoas que, nesse difícil momento, são as que mais precisam de respeito, amparo e cuidado”.

Oferta online de 90% das 6 mil disciplinas “não parece factível”

No ofício, a Diretoria da Adusp questiona o índice oficial de conversão de disciplinas presenciais em disciplinas online: “A Reitoria e a PRG divulgam efusivamente que 90% das 6 mil disciplinas estão sendo oferecidas. Essa não nos parece uma realidade factível, uma vez que várias unidades, departamentos e cursos não aderiram à pretensão oficial e, individualmente, muitas/os estudantes e docentes têm relatado extensas dificuldades”.

O documento questiona a alegação da Reitoria de que a Portaria 343 do MEC, de 17/3, que dispõe sobre a substituição de aulas presenciais por aulas em meios digitais em virtude da Covid-19, justificaria a orientação adotada na USP, “pois no próprio dispositivo se lê que a regulação se aplica a instituições do sistema federal”, além do que permite a suspensão das atividades, “medida que poderia ter sido tomada de pronto”.

Rebate ainda a política de distribuição de kits de Internet como pretensa solução para os problemas de acesso adequado do corpo discente às aulas online: “A Reitoria anunciou em seu quinto comunicado (6/4) que foram alugados e serão distribuídos modens e chips para celulares a ‘alguns alunos’. A medida fez com que algumas unidades convocassem estudantes para retirarem equipamentos presencialmente, colocando-os em risco, assim como as/os funcionárias/os responsáveis pela distribuição. Questionamos se a medida irá de fato resolver a falta de acesso de estudantes, sobretudo porque celulares não são equipamentos adequados para acompanhamento significativo de atividades didáticas ou produção de materiais delas decorrentes”. Isso pode servir para manter o contato com estudantes, acrescenta, “mas não fará com que estejam em pé de igualdade com estudantes que são mais abastadas/os e dispõem de mais recursos”.

Por outro lado, “mesmo não tendo havido diretrizes claras e nem efetivo suporte da instituição para prover alternativas às aulas presenciais, não é lícito ignorar o esforço de muitas/os colegas na preparação e disponibilização de materiais e na busca de outras soluções para atender estudantes que não estão conseguindo acompanhar as atividades não presenciais”, ressalva a Diretoria da Adusp.

“Que os prazos estabelecidos pela CERT sejam alargados”

Nesta sexta-feira (17/4), em ofícios encaminhados à Comissão Especial de Regimes de Trabalho (CERT) e à Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), a Diretoria da Adusp requer que estes órgãos promovam “ações que minimizem os efeitos causados pela realidade difícil, singular e inédita a que estamos submetidos”, e reivindica que “os prazos estabelecidos previamente sejam alargados, de modo a desconsiderar o período de distanciamento social e suas consequências”.

Ao presidente da CERT, Osvaldo Novais de Oliveira Jr., é solicitada especificamente a prorrogação dos “prazos do estágio probatório e da entrega de relatórios referentes ao período de experimentação dos regimes de trabalho”. Ao pró-reitor Sylvio Accioly Canuto, da PRP, propõe-se a prorrogação dos “prazos de conclusão e de entrega de relatórios de Iniciação Científica e de Pós-Doutorado”.

Os documentos descrevem, resumidamente, a situação vivida na atualidade pelo corpo docente da USP: “Muitas/os colegas tiveram que adaptar-se a uma realidade bastante distinta daquela com a qual estavam acostumadas/os”, a saber: “O fechamento das escolas fez com que mães e pais passassem a lidar com o cuidado de suas crianças ao longo dos dias e, em muitos casos, acompanhassem seus estudos. Os cuidados com os idosos sob responsabilidade de colegas também sofreram mudanças e adaptações, assim como os cuidados com a casa e com a comida. A necessidade de cumprir compromissos e prazos estabelecidos previamente pelas atividades de pesquisa e extensão e [a] de apropriar-se dos mecanismos remotos que possibilitam estabelecer alguma forma de contato com os estudantes das disciplinas pelas quais somos responsáveis geraram uma carga de trabalho ainda mais intensa da que se tinha, e que já se apresentava demasiadamente pesada”. 

Também mencionam o fato de que “as moradias não se encontram adaptadas ou mesmo equipadas com os recursos necessários para garantir que as pessoas possam exercer de modo adequado suas atividades de trabalho ou de estudo nesses espaços”, bem como os aspectos relacionados à saúde mental: “Abatimentos, estresses, preocupações e outras questões de ordem psicológica passaram a fazer parte da vida das/os colegas por conta do momento particular imposto por essa pandemia”.