Interação com alunos por meio de recursos eletrônicos, incluindo atividades didáticas, não constitui em geral um substituto adequado para disciplinas concebidas e planejadas para ensino presencial, por várias razões”, pondera Departamento de Matemática do IME

A Escola de Enfermagem (EE) não tomou posição oficial quanto às pressões da Reitoria para substituição de disciplinas presenciais em disciplinas virtuais. No entanto, não há notícias de que a direção venha incidindo sobre o corpo docente com esta finalidade. “Não houve conversão direta de atividades presenciais em atividades à distância. Temos muitas disciplinas que exigem atividade prática, assim é impensável tal alternativa”, afirma Maria Rita Bertolozzi, professora associada do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da EE.

“Algumas disciplinas de conteúdo teórico têm trabalhado com os alunos por meio do Moodle e WhatsApp. Entretanto, temos tomado muito cuidado para que não se configure como uma atividade à distância, pois sabemos os prejuízos que tal interpretação pode causar”. Também na Pós-Graduação, segundo a docente, não houve pressão para ministrar as disciplinas e, na medida do possível, algumas delas têm sido oferecidas de forma remota.

A título de exemplo, Maria Rita informa que, no âmbito de uma disciplina de Graduação à qual está vinculada (é uma das responsáveis por ela), “há constante preocupação com o aprendizado dos alunos e temos semanalmente nos reunido para reorientar as atividades, buscando incluir os alunos e fazê-los refletir sobre os conteúdos”, relata. “Há que se apontar, inclusive, que nem todos os alunos têm acesso à rede e alguns sequer têm computador/notebook. Muitos alunos não conseguem acessar conteúdos que exigem maior capacidade do celular e o plano de pagamento de que dispõem não é suficientemente amplo”.

A seu ver, a expansão da educação a distância (EaD) pode responder “a um processo de privatização do ensino”, algo que ela repudia “veementemente”, por defender a “Universidade pública e gratuita, que cuide da formação de indivíduos com alta capacidade para a transformação da sociedade brasileira”, orientada para a inclusão social.

“Nos preocupa que haja uma interpretação geral de que a EaD é possível na USP. Minha opinião é de que a USP não deveria permitir a expansão de cursos via EaD, uma vez que a relação professor-aluno, nas atividades de ensino (em todos os níveis), e de pesquisa, é fundamentalmente importante quando ocorre face a face. A educação é uma prática social e, como tal, não se limita ao conhecimento, mas é um processo de formação”, diz Maria Rita. O espaço de encontro entre estudantes e professores, enfatiza ela, “é um espaço onde aprendemos a lidar com as diferenças e, num processo coletivo, de inclusão, tentar superá-las”.

Por outro lado, acrescenta, é importante considerar “que a EaD de qualidade requer investimento para o desenvolvimento de instrumentos de interatividade, plataformas que possibilitem fácil operação, além de capacitação e recursos humanos compatíveis para interagir com os alunos”, e que “os estudantes devem, de igual forma, ter acesso e capacitação para lidar com os instrumentos necessários (rede de qualidade, computador, etc.) e essa não é a realidade para todos os estudantes, ao contrário”.

EERP parte para EaD “sem discussões acerca das implicações”

Na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) também não foi possível encontrar, no site, qualquer comunicado que faça referência à questão da eventual migração de disciplinas presenciais para disciplinas online. “A unidade está se organizando nessa direção, sem discussões acerca das implicações para a formação universitária e para as condições de trabalho docente. A unidade parece muito adaptável em seu conjunto, então há como uma naturalização da estratégia. Eu, particularmente, discordo dela, não me sinto ‘totalmente’ pressionada explicitamente, mas as ‘entrelinhas’ vão nessa direção”, comenta uma docente da EERP.

Assim, prossegue a professora, na EERP “naturalizou-se a adaptação do presencial em EaD e os alunos acabam entrando nisso sem condições de outras reflexões, em uma lógica marcadamente produtivista e cumpridora de um cronograma que parece intocável para alguns”. Essa visão acabou por refletir-se em reuniões das quais participou, nas quais a apreciação das questões relacionadas à conversão presencial-virtual restringiu-se à avaliação técnica do acesso dos alunos às ferramentas propostas, “e não [envolveu] uma leitura crítica em termos de aprendizagem, sentido e implicações da incorporação da EaD nesse momento de pandemia na nossa universidade!”.

“Reafirmo que sou contrária a essa decisão, pois ela precisa ser contextualizada a partir das políticas do Estado de São Paulo, do lugar de pouco prestígio que ocupa o ensino de graduação (no sentido de formação), da apropriação de EaD como sinônimo de ‘boa formação’ na atualidade (neotecnicismo), da ausência de espaços coletivos reflexivos para entendimento dessa decisão que se insere em contexto político mais amplo em termos de construção do projeto da ‘universidade empresa’!”.  

“USP fez tudo atabalhoado e de cima para baixo”, diz docente do IAG

“O Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas [IAG] da Universidade de São Paulo informa que, como medida preventiva à pandemia de coronavírus, funcionará com regime especial de expediente a partir de 23/03/2020”, diz comunicado da unidade publicado nessa mesma data. Informa que o “atendimento em todos os setores será mantido, priorizando opções a distância (telefone ou email), para contribuir com as medidas de redução da transmissão”. E conclui prestando um “esclarecimento” lacônico: “O IAG esclarece que dará continuidade a suas atividades de ensino e pesquisa, com o apoio de seus serviços administrativos”.

Esta informação sumária, de que “dará continuidade a suas atividades de ensino”, é a única pista sobre a posição do IAG no tocante ao período de suspensão das aulas presenciais, dando a entender que a unidade pretende aderir às aulas a distância conforme a “recomendação” da Reitora.

Não foi possível ao Informativo Adusp localizar nenhum documento da Comissão de Graduação ou da Diretoria do IAG sobre a conversão de disciplinas presenciais em disciplinas remotas, preconizada pelas pró-reitorias de Graduação (PRG) e Pós-Graduação (PRPG). Contudo, relato de uma docente explica o que vem ocorrendo na unidade: “O próprio diretor foi o primeiro a colocar para todos que a disciplina dele seria a distância e propôs um modelo para se fazer. Mas não teve nenhuma discussão coordenada pela CG, apenas o diretor sempre colocando que era para começarmos a dar aulas a distância!!!” Na Pós-Graduação, diz ela, os programas “estão dando aulas a distância!”

A Congregação do IAG reuniu-se em 8/4, quando realizou “uma discussão longa sobre as capacidades da rede para todos trabalharem a distância!!! Esta é a principal preocupação!!!”, lamenta a professora consultada. “Os três cursos de graduação (Meteorologia, Geofísica e Astronomia) estão tendo cerca de 70% das aulas em sistema online, sendo que nós somos dependentes de disciplinas no IF e no IME e o presidente da CG-IAG conseguiu informação apenas de que Física 1 e Física 3 estão tendo ‘aula normal’ online, mas sem aulas de laboratório”.

Ainda de acordo com a docente, a situação leva a questionamentos em série. “Fomos atropelados pela realidade, e a USP, com o slogan ‘A USP não vai parar’, fez tudo muito atabalhoado e de cima para baixo, ao mesmo tempo que muitos docentes estão perdidos ainda (eu me sinto muito perdida — pensei minha disciplina com atividades presenciais e não sou apta em ferramentas virtuais!!!). Não estou dando aulas de laboratório, mas acho muito complicado ter uma parte das disciplinas em ‘funcionamento’ e ainda nada definido sobre as aulas que necessitam de laboratórios ou campo e estão paradas!!!! Teremos dois calendários correndo quando voltarmos a qualquer coisa parecida com normalidade depois disso tudo!!! ????”.

No IB, 73% das disciplinas foram adaptadas para ambiente virtual

No Instituto de Biociências (IB), no começo da crise houve discussões presenciais com a participação da direção, chefias de departamento, presidentes de comissão, assistentes e outros funcionários não docentes. “Depois de debates, decidiu-se aconselhar os docentes a continuar com suas disciplinas utilizando atividades não presenciais, se possível”, conforme relato das professoras Adriana Maria Zanforlin Martini e Ana Lúcia Brandimarte, do Departamento de Ecologia. Trinta e oito disciplinas, que correspondem a 73% do total, foram adaptadas para ambiente virtual. “Algumas disciplinas eminentemente práticas estão sendo suspensas”.

As discussões prosseguem, agora por meio de um grupo de WhatsApp, e envolvem os seguintes aspectos, segundo as docentes:

  1. dificuldades dos alunos para acessar os materiais, em “disciplinas com 120 alunos”. Um levantamento da CG-IB entre os alunos para saber quantos estão com esse problema foi realizado e, com base nele, houve tentativas de compra de chips, empréstimos de laptops, contatos com a Vivo para conseguir planos de Internet. O IB emprestará oficialmente os laptops para os alunos identificados (os empréstimos já estão sendo liberados). Porém, “não conseguimos os chips nem a doação da Vivo, apesar de vários esforços terem sido feitos nessa direção”;
  2. dificuldades relacionadas sobretudo às “disciplinas obrigatórias que têm turmas de 60 a 70 alunos”, já tendo em vista a futura reposição: “Não temos salas de aulas em número, ou grandes o suficiente para atender mais disciplinas do que as que existem atualmente, ocorrendo ao mesmo tempo. Neste sentido, houve uma preocupação com a possibilidade de as disciplinas virem a ser dadas juntas com as do segundo semestre, ou mesmo com terem que ser oferecidas para duas turmas simultaneamente no primeiro semestre de 2021”.

Na opinião de Adriana e Ana Lúcia, “algumas disciplinas realmente podem ser adaptadas sem perda efetiva de qualidade, principalmente na Pós-Graduação, que geralmente tem turmas menores, o que facilita a discussão em grupo por meio dos aplicativos disponíveis”. Porém, advertem: “No caso do curso de Ciências Biológicas, disciplinas práticas são impossíveis de serem adaptadas em um tempo tão curto”. Elas elencam algumas das suas preocupações nesse momento:

Como será a adequação se parte das disciplinas ocorrer e outra parte não (que é o que está acontecendo)? Teremos um calendário alternativo???

Estamos conseguindo mapear e ajudar aluno(a)s que não possuem computador, acesso à rede e/ou condições domiciliares que permitam a realização das atividades sugeridas nas disciplinas?

Os docentes estão cientes das dificuldades que o(a)s aluno(a)s podem estar passando e estão modulando a quantidade de atividades que precisam ser desenvolvidas?

Quais garantias aluno(a)s que não têm condições de acompanhar as disciplinas online têm de que poderão cursar as disciplinas em tempo hábil para formaturas, pré-requisitos etc?

Departamento de Matemática propõe “reposição adequada”

Em reunião virtual realizada em 8/4, o Conselho do Departamento de Matemática (DM) do Instituto de Matemática e Estatística (IME) aprovou manifestação na qual destaca o esforço de muitos docentes “para manter alguma forma de contato e interação com seus alunos” durante o período de suspensão das aulas presenciais, o que inclui “atividades didáticas”, por meio de recursos eletrônicos, mas adverte igualmente: “Entretanto, não se considera, em geral, que essas atividades constituam um substituto adequado para disciplinas concebidas e planejadas para ensino presencial, por várias razões [...]” (destaques nossos).

O Conselho do DM propôs ainda na ocasião que a USP estabeleça “um diálogo entre dirigentes, unidades, docentes e estudantes de modo a garantir, assim que a situação sanitária permitir, uma reposição adequada das atividades de ensino que não puderam ser realizadas, conforme foram pensadas e planejadas, sempre que isto se mostrar desejável. Para isso, será fundamental que o calendário escolar seja reformulado de modo a permitir uma reposição de qualidade nos moldes do parágrafo anterior,oferecendo condições para que as aulas e as outras atividades previstas no período de suspensão possam ser ministradas na modalidade presencial” (destaques nossos). A seguir o texto aprovado:

Os membros do Conselho do Departamento de Matemática do IME-USP, reunidos em sessão eletrônica à distância no dia 8 de abril de 2020, manifestaram forte preocupação com a situação inédita criada em nosso meio pela atual pandemia. O texto que segue procura resumir a discussão desenvolvida.

A situação de emergência mundial causada pela epidemia do coronavírus tem impacto imediato, profundo e de difícil avaliação neste momento para as atividades acadêmicas e, em particular, para as atividades de ensino.

A suspensão das aulas presenciais na USP a partir do dia 17/3 é ainda muito recente, assim como outras medidas restritivas que estão sendo tomadas, e nossa compreensão da situação é claramente insuficiente para orientar adequadamente nossas decisões e ações.

Em relação à atividade didática, nossa preocupação é garantir que ela seja ministrada com qualidade, de acordo com as possibilidades e dificuldades de alunos e docentes.

Muitos de nossos docentes estão fazendo um considerável esforço para manter alguma forma de contato e interação com seus alunos, incluindo atividades didáticas, por meio de recursos eletrônicos. Entretanto, não se considera, em geral, que essas atividades constituam um substituto adequado para disciplinas concebidas e planejadas para ensino presencial, por várias razões, entre as quais:

  1. Muitas disciplinas foram concebidas para interação próxima entre docentes e alunas/os e a adaptação para ensino a distância seria problemática, mesmo em condições ideais. Entre estas, figuram, por exemplo, disciplinas que precisam da presença física de alunas/os em laboratórios, incluem estágios ou discussões em grupo, que ficam impossibilitadas ou muito dificultadas em ambientes virtuais.
  2. Não houve nenhum planejamento ou treinamento prévio que permitisse a docentes, alunas/os e funcionárias/os realizar essas atividades que, nessas circunstâncias, somente podem ser realizadas de modo improvisado e precário, mesmo com o considerável esforço empreendido pelos participantes.
  3. Muitas/os alunas/os e docentes não possuem os meios materiais para um acesso e participação adequada por meios eletrônicos e, além disso, neste momento difícil, muitas/os viverão situações de emergência e dificuldades pessoais e familiares, tornando inviável o aproveitamento escolar. 

Em vista do exposto, os membros do Conselho entendem que seja imprescindível estabelecer um diálogo entre dirigentes, unidades, docentes e estudantes de modo a garantir, assim que a situação sanitária permitir, uma reposição adequada das atividades de ensino que não puderam ser realizadas, conforme foram pensadas e planejadas, sempre que isto se mostrar desejável. Para isso, será fundamental que o calendário escolar seja reformulado de modo a permitir uma reposição de qualidade nos moldes do parágrafo anterior, oferecendo condições para que as aulas e as outras atividades previstas no período de suspensão possam ser ministradas na modalidade presencial.