Na contramão da reflexão sobre os inúmeros problemas criados pela improvisação de EaD em tempos de Covid-19, a Escola Politécnica adotou “ordem unida” e deu início imediato às aulas a distância, impondo obrigações para docentes e estudantes. EACH, FORP e IFSC, entre outras unidades, adotaram conduta semelhante

Ao contrário do que vem ocorrendo em diversas unidades, no Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) a rejeição às pressões da Reitoria para conversão improvisada de disciplinas presenciais em disciplinas a distância conta com total apoio da direção e da Comissão de Graduação (CG). Em mensagem dirigida em 30/3 às e aos estudantes, os professores Miguel Antonio Buzzar, diretor, e Fábio Lopes de Souza Santos, presidente da CG, não apenas reafirmam posições já anunciadas uma semana antes, como rejeitam enfaticamente a utilização de EaD, “porque ele corrói o que caracteriza a Universidade, a sua dimensão crítica, na qual a formação profissional está associada e potencializada com as dimensões espaciais e sociais do convívio público”.

Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), a firme resistência manifestada nas últimas semanas por vários colegiados da unidade levou a direção da unidade a tomar uma posição mais definida, comunicada aos docentes nesta quarta-feira (1º/4). “Considerando a diversidade que há na nossa Faculdade, não só entre as cinco grandes áreas bem como entre os onze departamentos sob o ponto de vista de nossas dinâmicas acadêmicas e práticas didáticas e observando as condições diversas de nossos alunos, a direção [...], tendo ouvido os chefes de departamento, recomenda que, enquanto durar esse momento de exceção e incertezas, os docentes mantenham contato remoto com seus alunos, mas que não se sintam compelidos a atribuir frequência e avaliações que resultem em notas conclusivas”.

Embora redigido em “linguagem diplomática”, o anúncio da direção, sinaliza apoio aos docentes que se opõem à conversão de disciplinas presenciais em a distância. O comunicado, porém, é mais vago no tocante às questões do calendário escolar e da reposição de aulas: “Em momento oportuno, a direção envidará esforços a fim de discutir nas instâncias competentes ações que, amparadas pelos devidos diplomas legais da USP, nos conduzam à conclusão deste primeiro semestre letivo de 2020”.

No Instituto de Psicologia (IP), a CG emitiu, já em 23/3, um comunicado conciso no qual, após declarar que são desejáveis atividades a distância de caráter não obrigatório, “como dispositivos de cuidado, manutenção dos vínculos afetivos, canal de comunicação com os estudantes e até mesmo como forma de manter uma rotina saudável para docentes e discentes”, frisa: “atividades remotas não substituem as atividades presenciais” (destaques no original).

A decisão, esclarece a CG, levou em conta o “acesso desigual à Internet”, “a necessidade de, oportunamente, ser proposto um calendário de reposição, tendo em vista o cuidado com a formação de nossos estudantes”, “a necessidade de nos debruçarmos em atividades e serviços à comunidade em função da pandemia”, que implicam cuidados com a “saúde mental da população e dos profissionais de saúde frente à pandemia e isolamento social”, e por fim “a alteração de rotina de discentes e docentes, que, em seu cotidiano, no trabalho remoto, vão se deparando com questões diferenciadas na organização da vida, da casa”.

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), por sua vez, foi uma das primeiras unidades a tomar firme posição contra a conversão de ensino presencial em virtual, embora sem rejeitar a interação a distância com o alunado no período de suspensão das aulas. O Comunicado da Diretoria 13/2020, de 24/3, assinado pela diretora da unidade, Ana Lucia Duarte Lanna, e pelo presidente da CG, Luís Antônio Jorge, e dirigido a docentes, discentes e funcionários técnicos e administrativos, relembra o teor do comunicado 10/2020, de 16/3 — “estão suspensas as atividades presenciais em todas as disciplinas. Não haverá disciplinas não presenciais. Assim que a situação for regularizada avaliaremos acerca da reorganização do semestre letivo. Os docentes devem manter contato com os alunos sugerindo leituras e atividades que possam ser realizadas de forma não presencial” — e reitera os seguintes princípios: “1. Suspensão por tempo indeterminado das aulas presenciais; 2. Realização de atividades que mantenham conectados alunos e professores”.

Dentre as várias atividades possíveis, o comunicado sugere “a) conversas por meio de diversos dispositivos como Google Meet; b) propostas de atividades correlatas às disciplinas, tais como: leitura de textos, assistir a documentários, filmes, entrevistas nas diversas plataformas disponíveis (Youtube, Netflix, Mubi, TED etc.); e c) realização de exercícios com acompanhamento virtual de docentes e monitores” etc. E diz que os docentes “estarão atentos a eventuais dificuldades por parte dos estudantes, fazendo ajustes em suas propostas, sempre que necessário”.

O que há de especial no documento da FAU é que ele rechaça a hipótese de discutir, em plena epidemia, questões como reposição de aulas, “manutenção ou perda do semestre”, e outras correlatas: “A realização de atividades a distância, nesta situação excepcional, não se configura como cursos na modalidade EAD. A realização destas atividades, além de manter nossos vínculos com a FAU (e entre nós), tem como finalidade essencial dar continuidade aos estudos, mantendo-nos ativos nesse período de isolamento, facilitando, ainda, mecanismos de reposição quando pudermos nos encontrar novamente. Reiteramos que as reposições, a retomada de aulas presenciais, a manutenção ou perda do semestre não são temas em discussão neste momento; por esta razão, não existe nenhuma deliberação sobre estas questões no âmbito da FAU e da USP” (destacado no original).

Outra unidade que fechou questão contra a migração açodada de ensino presencial para virtual foi a Faculdade de Educação (FE). Seu entendimento foi definido de modo lapidar em anúncio feito por seu diretor, Marcos Neira, após lembrar que no complexo cenário atual é impossível definir encaminhamentos didáticos que atendam todas as singularidades: “Tampouco se trata de ser a favor ou contra EaD. Estamos certos de que a mera conversão de disciplinas presenciais em disciplinas a distância trará prejuízos. O momento exige cautela, e principalmente práticas de acolhimento. Por essa razão, enfatizamos a impossibilidade de quaisquer atividades serem usadas para fins de avaliação, bem como a inviabilidade de interações síncronas com as turmas. Ambas as ações implicariam iguais condições de acesso e de realização das propostas pelos estudantes, o que sabemos não ser a nossa realidade”.

“Sala de Aula é o locus por excelência da própria Universidade”, diz IAU

Nenhum dos documentos acima citados (ou declaração, no caso da FE) cita as pró-reitorias de Graduação (PRG) e Pós-Graduação (PRPG), as quais vêm assediando as unidades para que adotem aulas a distância para substituir aulas presenciais, suspensas em razão da Covid-19. No entanto, por duas vezes o diretor da unidade de São Carlos e o presidente da CG fazem referência ao comunicado inicial do reitor Vahan Agopyan, em que este sugere a adoção de atividades a distância.

“O que guiou o início das atividades foram as palavras do reitor, a saber: as atividades remotas podem minimizar a reposição das aulas que será necessária (com o controle, ou arrefecimento da pandemia)”, dizem Buzzar e Santos em referência ao comunicado anterior (de 23/3) do IAU, sendo que “esta decisão levou em conta, também, para não dizer sobretudo, o propósito de estabelecer um vínculo social entre docentes e alunos durante o período da pandemia”. Porém, enfatizam, “continuamos sendo contrários ao EaD para a formação em Arquitetura e Urbanismo”, e “a avaliação, ao final do processo, será geral, o que interessa é o curso e não o resultado de uma ou outra disciplina (por melhor que o resultado possa vir a ser)”.

O documento traça uma série de considerações em defesa do ensino presencial. “Em nosso entendimento, a Sala de Aula é o locus por excelência da própria Universidade. É, sobretudo, nela que os nossos objetivos maiores são propiciados: formar cidadãos e profissionais aptos a intervirem criticamente na sociedade, tanto a partir do conhecimento disciplinar específico, como a partir das dimensões culturais e sociais que regem a vida em sociedade”. Sala de Aula, prosseguem, “entendida como o espaço físico comum onde as relações entre alunos e professores são estabelecidas sem a intermediação de qualquer processo tecnológico”, e que, “enquanto espaço de aprendizado”, pode assumir várias formas, mas, destacam, “é no debate entre professores e alunos realizado na Sala de Aula que o ensino pode se realizar de forma plena”.

O texto lembra que o ensino na Universidade não é dissociado da investigação, a qual, por sua vez, alimenta o ensino produzindo ou aperfeiçoando conhecimento. “Uma ou outra disciplina, dependendo da sua natureza, pode transmitir parcialmente os seus conteúdos na modalidade remota. Quanto a isso, não há dúvidas. Mas o que seria esta parcialidade, em termos do ensino como associado à produção do conhecimento? É algo muito discutível. Além disso, perseguimos a interdisciplinaridade, o que parece menos viável na atomização que as atividades remotas estabelecem. Um curso é mais do que a somatória das disciplinas que o compõem”.

Neste ponto, Buzzar e Santos explicitam sua total rejeição ao EaD. “O que queremos deixar claro é que não somos contrários ao EaD porque temos disciplinas de projeto. Somos contrários, também, por conta das disciplinas de projeto, de representação e linguagem, mas somos contrários ao EaD porque ele corrói o que caracteriza a Universidade, a sua dimensão crítica, na qual a formação profissional está associada e potencializada com as dimensões espaciais e sociais do convívio público. Sabemos que na Universidade há colegas que defendem o EaD. Há posições de todo tipo, a partir de várias concepções e interesses. Incomoda, por vezes, o tratamento que é dado ao assunto, como favas contadas e, durante e após a pandemia, esta posição poderá ser externalizada com mais frequência”. Diretor e presidente da CG convidam a Universidade a “abrir claramente a discussão sobre o tema, para que as posições se expressem e o debate franco, sempre ele, possa conduzir à melhor reflexão”.

A atual situação é inusitada, diz o documento ao referir-se à necessidade de suspensão das aulas para combater a Covid-19. “Nunca antes a Universidade suspendeu as suas aulas. Se o fizesse 10 ou 15 anos atrás, elas seriam suspensas e mais nada. Em função das novas tecnologias de comunicação e sua disseminação, existe a possibilidade de uma interação entre professores e alunos. A nossa opção, nesse caso de acordo com a orientação da direção da Universidade, foi utilizar essa possibilidade nas disciplinas para minimizar a reposição de aulas e conteúdos, que se fará necessária quando do retorno à normalidade”.

Na reunião dos docentes que discutiu esse tema, prossegue a mensagem, houve dúvidas e questionamentos quanto à aplicação das atividades remotas. “De nossa parte gostaríamos de esclarecer que elas não substituem as aulas, desta posição decorreu a definição abaixo, enviada na correspondência já citada [de 23/3]: ‘não se trata de adaptar as aulas para a modalidade remota, visando substituir as aulas normais, mas sim criar interações com os alunos, tendo sempre o programa da disciplina como base, definimos que as atividades poderiam ser complementares, inéditas, etc. O importante é que as atividades propostas estabeleçam vínculos com os temas da disciplina’”.

O documento censura, discretamente, unidades da USP que, no afã de contornar as dificuldades de parte dos estudantes de acesso à Internet e a equipamentos, estariam oferecendo salas com desktops: “Algumas unidades, por considerarem as atividades como (quase) substitutas das aulas normais, estão disponibilizando nos seus ambientes computadores para os alunos que não os possuem. De nossa parte, justamente porque não consideramos as atividades como substitutas das aulas, e porque estamos cientes do distanciamento social, preferimos não correr o risco de abrir uma dependência que pode vir a ter de quatro a cinco alunos presentes, fora um servidor e a circulação pela cidade que essa ação pressupõe. Não que não possamos rever essa determinação no futuro, dependendo da evolução dos fatos, mas, no momento, não a consideramos a melhor resposta”.

Colegiados da FFLCH unificam respostas a formulário da PRG

Na FFLCH, a recomendação da direção aos docentes, de que “não se sintam compelidos a atribuir frequência e avaliações que resultem em notas conclusivas”, foi precedida por uma ampla movimentação do corpo docente e dos colegiados no sentido de rechaçar as insistentes pressões da PRG e PRPG. 

Os coordenadores de cursos receberam, em 28/3, uma planilha da Comissão de Graduação, em nome da PRG, solicitando que indicassem, até 30/3, para cada disciplina sendo ministrada neste semestre, uma ou mais das seguintes opções: “1. a disciplina está completamente suspensa ou 2. estão sendo enviadas orientações de estudos ou 3. a disciplina está sendo ministrada à distância com participação da totalidade dos estudantes ou 4. a disciplina está sendo ministrada à distância com falta expressiva dos estudantes ou 5. a disciplina está sendo ministrada com falta parcial dos estudantes”, e também “6. as orientações de estudo em grupo estão sendo enviadas via e-mail 7. outros : especificar”.

Em troca de mensagens com a chefia de Departamento, coordenadores e vice-coordenadores das Comissões Coordenadoras de Cursos (CoCs) decidiram, “em concordância com a resolução da Plenária virtual da semana passada, colocar para todas as disciplinas a opção 2, especificando ‘orientações de estudos enviadas por e-mail e/ou plataformas de compartilhamento’”. A deliberação reflete uma posição clara, de rejeição da orientação da PRG para converter disciplinas presenciais em EaD.

Outro documento na mesma linha foi enviado em 28/3 pela Comissão Interdepartamental de Letras (CILE) à diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, e à presidenta da Comissão de Graduação (CG), professora Mona Mohamad Hawi, a propósito da pesquisa sobre as reais condições e necessidades de acesso a ferramentas de EaD, anunciada pela direção da unidade e pela CG. Os signatários são os chefes de departamento Adrián Pablo Fanjul (Letras Modernas), Betina Bischof (Teoria Literária e Literatura Comparada), Mamede Mustafa Jarouche (Letras Orientais), Manoel Mourivaldo Santiago Almeida (Letras Clássicas e Vernáculas) e Ronald Beline Mendes (Linguística).

De acordo com os membros da CILE, a iniciativa “é muito bem-vinda”, e a decisão de que eventuais avaliações e registros de presença sejam suspensos até a conclusão da pesquisa contribui para a tranquilidade de todos. “No entanto, a partir do que já percebemos nos nossos departamentos, cremos que essa pesquisa precisa ser elaborada com o cuidado de diferenciar os seguintes fatores na análise das atividades propostas pelos docentes: caráter síncrono ou assíncrono dos procedimentos empregados, obrigatoriedade ou não de presença, e caráter avaliativo ou não das atividades já desenvolvidas”.

Caso contrário, advertem os autores, “corre-se o risco de que atividades e modos de contato ativo que muitos professores planejaram com seus alunos sem concebê-los como disciplinas a distância (e que estão sendo desenvolvidos partindo-se do pressuposto de que haverá um calendário presencial de reposição) sejam contabilizados como uma continuidade regular, a distância, do semestre letivo”. Por esse motivo, explicam, a solicitação da PRG para que os departamentos informem “aulas e disciplinas online”, enviada em 27/3, “parece-nos improcedente, já que propicia confundir a aplicação de recursos a distância com a caracterização de um tipo de disciplina que pode vir a substituir os cursos presenciais”.

Portanto, informam os membros da CILE, “não responderemos a essa solicitação [da PRG], dado que, com os documentos enviados pelos departamentos, a CG conta com informação suficiente para constatar que a maior parte da faculdade não substituiu os cursos presenciais por disciplinas online”. Diversas manifestações individuais e coletivas de professores e alunos, acrescentam, “vêm mostrando como principal empecilho a não factibilidade de acesso sincronizado às mesmas tecnologias por parte de muitos deles”. Porém, advertem, tais “diferenças de acesso e de disponibilidade, que tendem a crescer à medida que a crise sanitária se agrava, já deram como resultado reclamações dignas de atenção que não encontram amparo, por enquanto, em decisões colegiadas”.

Ainda de acordo com o documento, a situação “resulta particularmente preocupante no Ciclo Básico, no qual apenas uma das quatro disciplinas está sendo precariamente ministrada como disciplina online”, e somente em algumas das turmas. “Vale lembrar que o Ciclo Básico atua como uma concorrência, já que das notas das suas disciplinas resulta um ranqueamento para a escolha de habilitações, que se veria seriamente comprometido em sua legitimidade sem um tratamento isonômico dos alunos”. Considerando esse panorama, a CILE faz duas solicitações à CG e à direção da FFLCH.

A primeira delas é que o questionário a ser enviado a professores e alunos seja submetido, antes, “em prazo breve”, aos membros da CG e aos chefes de departamento, “para que possam opinar sobre seu conteúdo levando em conta a diversidade de efetivas situações que já levantaram nos seus departamentos”. A segunda, que a CG e a direção “promovam uma decisão colegiada, mediante reunião online do CTA e/ou da CG, apoiando-se nas atribuições que o Artigo 67, parágrafo único, do Regimento Geral da USP confere à Unidade para decidir alterações no seu calendário”, para anunciar desde já sua disposição de que, passada a crise, “será elaborado um calendário de recuperação presencial que se ajustará à realidade do momento em que as atividades sejam retomadas”.

Na atual situação em que se apresentam, dentro da unidade, “realidades tão heterogêneas, um anúncio desse tipo permitirá, para a pesquisa projetada pela CG e a Direção, condições muito mais tranquilizadoras, e dará resultados mais confiáveis”, acreditam os autores do documento. “Estamos conscientes de que essa decisão implicará perdas em relação ao que poderia ser um semestre normal, mas também entendemos que a normalidade do semestre já está fora do horizonte de possibilidades como consequência de uma crise sanitária mundial de proporções inéditas e ainda incomensuráveis. As perdas acadêmicas serão menores quanto mais harmônica e isonômica seja nossa atuação, tanto entre os docentes como em relação aos estudantes, mesmo que devamos nos estender mais no tempo”.

Também o Departamento de História (DH) tomou posição firme a respeito da “migração” presencial-online, com base no entendimento da sua Comissão de Graduação, conforme esclareceu o chefe do DH, professor João Paulo Pimenta, em mensagem enviada a estudantes, docentes e funcionário(a)s em 24/3. Nela, Pimenta recupera o modo como se deu a discussão: “No dia 18 de março, a Comissão de Graduação do DH, reunida em ambiente virtual e contando com a participação de 14 de seus 16 atuais membros, definiu por unanimidade a recomendação de que nosso Departamento não deve adotar o Ensino à Distância na graduação como mecanismo para enfrentar a atual suspensão das aulas presenciais. Diante da impossibilidade de realização de uma Plenária Departamental para a apreciação dessa proposta, teve início uma longa troca de mensagens por e-mail, na qual solicitou-se que se manifestassem todos aqueles que fossem contrários a tal posição” (destaques no original).

De acordo com o chefe do DH, a “rica troca de mensagens mantida entre 18 e 23 de março, que resultou em 48 manifestações de vários teores, incluindo duas oficiais da Representação Discente da Graduação e outra da Representação dos Funcionários, indicou a necessidade de sua conversão em legítimo foro de deliberação, diante da situação excepcional em que nos encontramos todo(a)s”. Indicou, ainda, continua ele, “um forte consenso em torno do endosso formal do DH à posição de sua Comissão de Graduação (com apenas uma manifestação contrária)”.

Houve igualmente, prossegue Pimenta, “majoritária convergência quanto à necessidade de desenvolvimento, por parte dos professores, de atividades à distância de apoio à graduação, bem como de que mantenham o corpo discente mobilizado, de modo a minimizar os efeitos deletérios da atual crise no aproveitamento acadêmico deste 1º semestre de 2020. Especial – mas não exclusiva – atenção deve ser dada às turmas que reúnam majoritariamente estudantes de 1º ano”.

Outra área que recusou a orientação da PRPG foi a Pós-Graduação em Geografia Humana. Em reunião virtual, os docentes participantes do Programa decidiram, por consenso, que as disciplinas que não migraram para EaD serão canceladas. Portanto, serão canceladas 8 das 9 disciplinas oferecidas, uma vez que somente um docente migrou para EaD.

Aulas online “começaram imediatamente após a suspensão”, diz Poli

Dados preliminares de um levantamento realizado pela Adusp, ainda em curso, revelam que em muitas unidades prevalece a posição das diretorias de adesão automática às orientações da Reitoria, sem maiores reflexões, sem consulta aos colegiados e contando em geral com o pressuposto da adesão “voluntária”, ma non troppo, do corpo docente. A posição da Escola Politécnica (EP) é emblemática dessa atitude, com o agravante de que ela sequer abre margem para que docentes não queiram se “voluntariar”.

Em documento intitulado “Regulamentação das Atividades Didáticas no Período de Pandemia”, a Diretoria e a CG da unidade vão diretamente ao ponto: “Esta regulamentação trata da continuidade das atividades didáticas da Escola Politécnica da USP [sic]. A Diretoria e a CG continuam acreditando que as aulas presenciais são a grande riqueza que nós temos (ensinamento, convívio, aprender a trabalhar em grupo e desenvolvimento da tolerância). No entanto, este é um momento muito difícil para a humanidade, e devemos por conta disso, utilizar ferramentas alternativas. A Reitoria da Universidade de São Paulo deu autonomia aos Dirigentes de Unidades para estabelecerem diretrizes para a continuidade das atividades didáticas” (destaques nossos). É a senha para o anúncio que virá a seguir.

“As aulas online começaram imediatamente após a suspensão de aulas presenciais para que os alunos não perdessem contato com o conhecimento, pudessem fazer exercícios e dar continuidade à sua vida acadêmica e com isso promover a esperança, acreditando no futuro. Isso é uma riqueza exemplar, se transformando possivelmente em um pilar de sustentação emocional no seu ambiente familiar. Conforme comunicado da Diretoria (Procedimento sobre as aulas da EPUSP) datado de 17/3/2020, espera-se colocar em prática de maneira sistêmica as aulas online a partir do dia 23 de março” (destaques nossos).

Para resolver os problemas de acesso de parte dos estudantes à Internet, os dirigentes da EP resolveram apelar para a filantropia: “Existem alunos vulneráveis que ainda não dispõem de computador ou de Internet, ou de ambos. Para conseguir atender à demanda desses alunos, a Escola Politécnica está trabalhando com a AEP [Associação dos Engenheiros Politécnicos] e com o Grêmio Politécnico e demais agremiações estudantis”. Como decorrência dessas “parcerias”, diz o documento, “duas iniciativas estão em andamento”, a saber: “doações de computadores que serão entregues aos alunos vulneráveis” e licenças de Internet que “possivelmente” serão oferecidas por uma operadora de telefonia móvel para os alunos vulneráveis.

“Solicitamos a todos os docentes que gravem suas aulas, para disponibilizá-las de forma assíncrona ou offline para aqueles alunos que encontrem dificuldades em acessá-las de maneira síncrona”, continua o texto, sem deixar dúvidas quanto ao seu caráter impositivo. “A gravação pode ser feita durante a transmissão ao vivo ou podem ser gravadas antecipadamente e disponibilizadas aos alunos”, explica. O tópico “Horários de aulas e Frequência” ainda adverte: “Os horários de aulas devem ser seguidos rigorosamente, de acordo com o calendário original, para evitar conflitos de horários dos alunos com outras disciplinas”, e o controle de frequência deve seguir as Diretrizes Codage – Covid-19 da USP, “cabendo ao docente o bom senso de levar em consideração todas as dificuldades deste período” (!), destaques nossos. E atenção para o seguinte esclarecimento: “Plataformas virtuais, em especial o e-Disciplinas, têm recursos que possibilitam o rastreamento e auditoria da frequência”.

No tocante às avaliações, ainda que o documento determine que “testes online ou atividades entregues para nota durante o período de pandemia devem aguardar o acesso online de todos os alunos da disciplina, que será divulgado pela Diretoria, possivelmente no início de maio”, fica subentendida a possibilidade de sanções àqueles que não cumprirem tarefas escolares: “O aluno deve encaminhar por escrito ao docente da disciplina as justificativas referentes à impossibilidade de realizar entrega de atividades ou testes online no prazo estabelecido pelo docente. O docente fará um parecer que deve ser encaminhado à CoC para uma decisão oficial”.

EACH adota EaD porque “não se compromete o semestre”

A Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) adotou linha semelhante à da EP. “Seguindo as sugestões da Pró-Reitoria de Graduação e de instâncias governamentais, indica-se a realização de atividades on-line como alternativa às atividades didáticas presenciais. Desta maneira, não se compromete o semestre das disciplinas para as quais o uso desses recursos é possível. Existe uma série de ferramentas que permitem a realização de webconferências, atividades virtuais e várias outras possibilidades. Tutoriais sobre o uso destes recursos serão disponibilizados, bem como a CG se colocará disponível para auxiliar nesta transição. Para disciplinas que dependem exclusivamente de uso laboratorial, atividades de campo e viagens, alternativas serão analisadas”.

O professor Marcos Bernardino de Carvalho, do curso de Gestão Ambiental, descreve a situação na unidade, que não tem departamentos: “Uma enxurrada de materiais, tutoriais, no espírito da campanha ‘A USP não vai parar’ tomou conta das comissões colegiadas, especialmente no nível da graduação. Na Pós, cada CCP está tocando suas particularidades e com menos pressão EaD. Meu programa (Mudança Social), por exemplo, optou por não adotar tal prática. Embora todos estejamos mantendo algum nível de contato com discentes, inclusive com orientações de atividades, leituras etc”. Em tese, explica ele, a adesão dos docentes às atividades a distância é voluntária, “mas a pressão é evidente, a começar pela própria campanha da Reitoria e pró- Reitorias”.

Ainda segundo Carvalho, a situação é confusa: “Os docentes estão divididos e ‘apanhando’ para aprender a manejar as plataformas. Creio que a maioria está [apenas] mantendo contatos e utilizando instrumentos como e-disciplinas, Tidia e fazendo reuniões pelo meet-google”. Ele estima que cerca de um quarto do corpo discente está ausente de qualquer contato.

Docentes e estudantes da EACH, descontentes com a pressão reitoral e suas consequências, tem promovido debates (a distância) sobre a política adotada pela gestão Vahan Agopyan. “Vide, por exemplo, o manifesto divulgado por algumas/uns docentes e uma manifestação de estudantes de GA. Ambos geraram e continuam gerando intenso debate  na unidade”.

Na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP), o presidente da CG, professor Michel Reis Massora, em mensagem dirigida aos docentes em 19/3, explicou que a unidade solicitou “informações essenciais para a adoção de novas medidas no ensino de graduação em consonância com as fortes recomendações da Reitoria e da Diretoria da FORP” (destaques nossos), e pediu desculpas “porque essas solicitações exigiram respostas na maior brevidade possível”, ponderando no entanto que “vivemos algo sem precedentes e que exige de nós neste momento a tomada de decisões difíceis e prontas respostas”. Em seguida transmitiu uma visão otimista da migração do ensino presencial para o virtual.

“O que vejo neste momento é o engajamento da grande maioria de nossa querida FORP no apoio ao novo, na abertura ao uso de ferramentas virtuais diversas para que o prejuízo decorrente da suspensão de atividade de ensino presenciais possa ser minimizado a todos os nossos discentes”, diz o presidente da CG. “Segundo o levantamento realizado pela CG, 81% das disciplinas do 1° semestre de 2020 utilizarão ferramentas virtuais para ministrar, excepcionalmente, a disciplina parcialmente ou completamente à distância. Além disso, 26% das disciplinas deste semestre possuem apenas atividades clínicas ou de estágio, o que inviabiliza o oferecimento de atividades à distância”.

Depois de ressaltar o compromisso com “a qualidade do processo ensino-aprendizagem” e a “autonomia plena” de cada docente “para verificar quanto da carga teórica de nossas disciplinas pode dar-se por cumprida com o uso de ferramentas virtuais”, Massora emendou: “Assim como nossos alunos, não estamos de férias neste momento. É possível estarmos conectados neste momento de crise. As plataformas virtuais encurtam nossas distâncias. Se possível, estejamos todos online juntos com nossos alunos semanalmente nos horários programados para nossas atividades teóricas. Se você é responsável por disciplina, coordene essas ações juntamente com seus colegas”.

Apesar da retórica engajada desse discurso, o perfil da FORP desfavorece a conversão “fortemente recomendada” pelos dirigentes. “Nosso curso é muito prático, e assim, somente conteúdos teóricos estão sendo repassados, até em aulas gravadas”, esclarece docente da unidade. “A adesão [ao EaD] existe, porém apenas com alguma parcela de conteúdo teórico. Não a disciplina toda”. A seu ver, a orientação institucional é equivocada: “Nada deveria ser feito de afogadilho!”.

O Instituto de Física de São Carlos (IFSC), por sua vez, declarou que “os docentes foram incentivados a ministrarem atividades remotas, inclusive com aulas online em tempo real e gravadas” (destaques nossos). Na opinião do professor Esmerindo Bernardes, as aulas virtuais de graduação e pós-graduação deveriam ser suspensas imediatamente. “Já suspendi as minhas aulas, embora continue colocando atividades no Moodle com a finalidade de ajudar quem quiser. A universidade precisa concentrar seus esforços na reconversão, aproveitando seus docentes, técnicos, laboratórios e hospitais para o combate desta pandemia. Em tempos de guerra, Einstein estava aprimorando sistemas de radares e Turing decifrava códigos inimigos, para citar dois exemplos. As universidades paulistas possuem recursos humanos altamente capacitados, que podem fazer a diferença na luta contra esta pandemia.”

Ele também questiona a Reitoria: “1) A USP suspendeu as atividades dos conselhos departamentais, congregações e do Conselho Universitário? 2) Diretores e pró-reitores e o próprio reitor trabalham para nós, isto é: eles existem para viabilizar nosso trabalho. Desta forma, quem tem de decidir sobre aulas são estes conselhos: congregações e Conselho Universitário”.