Preocupado com a crise provocada pela pandemia do novo coronavírus e com os seus efeitos no bairro do Butantã e seu entorno, na zona oeste de São Paulo (região que concentra o maior número de infectados na cidade), o Coletivo Butantã na Luta encaminhou neste domingo (5/4) uma carta ao governador João Doria (PSDB) na qual manifesta seu espanto com “a situação de inércia expressa na manutenção de leitos não utilizados (cerca de 88) e insuficiente atendimento prestado pelo Hospital Universitário (HU) da USP”.

“É inadmissível que um equipamento de saúde desta relevância (...) esteja com sua capacidade de acolhimento de 258 leitos subutilizada (atualmente, apenas cerca de 170 estão ocupados)”, que “não assegure acesso a Equipamentos de Proteção Individual (EPI) às pessoas que lá trabalham, na quantidade necessária”, que “continue postergando a efetivação das imprescindíveis e inadiáveis contratações de emergência para responder às necessidades concretas da população num momento crítico como este”, diz o documento —enviado também ao ministro da Saúde, aos secretários municipal e estadual da Saúde e ao Ministério Público do Estado.

O documento cita nota divulgada pela Reitoria da USP no dia 2/4 segundo a qual o HU “posiciona-se, neste momento, como um centro de apoio ao Hospital das Clínicas da FMUSP [Faculdade de Medicina], referenciando a ele os casos de internação de pacientes com a Covid-19, e foca suas atividades nos demais tipos de atendimento, tais como Obstetrícia, Neonatal, Oftalmologia, Clínica Cirúrgica Geral, Otorrinolaringologia, Neurologia e outros”.

“Ora, se a própria Reitoria reconhece que em função desta nova e dramática realidade haverá um expressivo aumento da demanda, o que pode justificar a subutilização de leitos e a não contratação de profissionais em caráter de emergência?”, pergunta o Butantã na Luta.

A gravidade a urgência da situação levaram o movimento a recorrer a “autoridades de esferas superiores”, diz o documento, porque “infelizmente, a atual gestão do Hospital e da Universidade têm se caracterizado pela absoluta falta de transparência e indisposição ao diálogo, mesmo no tratamento de questões tão sensíveis somo essas”.

“Os dados epidemiológicos apontam que nas próximas semanas a crise do coronavírus tende a se agravar muito no Brasil, com possível aceleração descontrolada do vírus no Estado de São Paulo”, prossegue o texto. “Portanto, o momento não permite omissão e nem negligência criminosa contra a saúde do povo brasileiro”.

O documento é finalizado com a afirmação de que “é inconcebível que até o presente momento o Hospital Universitário da USP”, referência para 500 mil moradores da região, com enorme contingente de pessoas socialmente vulneráveis, “não tenha apresentado um Plano de Contingência transparente e que maximize os recursos humanos e de infraestrutura”. Entre outras lideranças do Coletivo Butantã na Luta, o documento é assinado pelo professor João Zanetic, docente do Instituto de Física (IF) da USP e ex-presidente da Adusp.

Carta aberta cobra providências e faz 11 perguntas à Reitoria e direção do HU

Na sexta-feira (3/4), o Butantã na Luta divulgou Carta Aberta na qual cobra esclarecimentos da Superintendência do HU sobre as medidas que está tomando para enfrentar a Covid-19.

“Nossa posição é que o HU deve assumir a liderança na estratégia de combate ao novo coronavírus na região oeste da capital, em articulação com outros equipamentos públicos de saúde do Butantã. Para tanto, é necessária a imediata compra de instrumentos, contratação de pessoal e implantação de medidas de segurança sanitária, a fim de evitar contágio entre pacientes e trabalhadores”, defende o movimento.

O Coletivo Butantã na Luta afirma que a falta de diálogo da Superintendência do HU com o próprio movimento e com as entidades representativas da universidade —Adusp, Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme” e centros acadêmicos —“é uma grande irresponsabilidade” e uma situação que gera “insegurança e desconfiança da população com relação às medidas concretas que os gestores do HU e da USP estão tomando para o enfrentamento da pandemia”.

A Carta Aberta é encerrada com uma sequência de onze perguntas dirigidas à Reitoria da USP e à Superintendência do HU, que o Informativo Adusp reproduz a seguir:

  1. Todos os moradores da região do Butantã que chegam ao HU com sintomas da doença causada pelo novo coronavírus passam pela triagem médica e estão sendo atendidos?
  2. Como está sendo feita a triagem dos casos suspeitos do novo coronavírus (Covid-19) no HU?
  3. Qual o protocolo de atendimento, verificação e encaminhamento dos casos confirmados e descartados?
  4. Como está sendo realizada a proteção dos trabalhadores do Hospital, incluindo o afastamento daqueles que integram o grupo de risco por idade e comorbidade?
  5. Quais são os testes a serem usados para a verificação da doença e quanto ao uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI), desde o atendimento inicial, por todos os profissionais que atuam no hospital, incluindo portaria, segurança, secretarias, técnicos, médicos e enfermeiros?
  6. Qual o atual estágio da contratação dos 179 profissionais de saúde cujo processo seletivo foi realizado em 2019? Quantos deles já estão em atividade no hospital e quantos ainda não estão?
  7. Qual o planejamento para novas contratações, seja com as verbas destinadas pela Alesp [Assembleia Legislativa de São Paulo] após a atuação do CBL, seja a partir de novas verbas a serem solicitadas às autoridades municipais, estaduais e federais para o combate à Covid-19?
  8. Qual o número de leitos para atendimentos tanto de pacientes com Covid-19 quanto para outros casos, incluindo urgência e emergência, UTI ou observação?
  9. Há expectativa de adaptação para criação de novos leitos emergenciais para atendimento de novos pacientes?
  10. Qual a estratégia de articulação com os equipamentos públicos de saúde da região, como as Unidades Básicas de Saúde (UBS), o Pronto Socorro Bandeirantes e o Hospital Maternidade Mário Degni?
  11. Há um protocolo para a realização de testes que permitam descartar casos suspeitos e encaminhar ao HU casos confirmados, os quais serão submetidos a tratamento adequado?

Aluna da ECA tem diagnóstico positivo

Na sexta-feira (3/4), a diretoria da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP informou que uma aluna do curso de Relações Públicas foi diagnosticada com a Covid-19, de acordo com nota publicada pelo Centro Acadêmico Lupe Cotrim (CALC) em sua página no Facebook.
Nos últimos 28 dias, diz a nota, a aluna esteve presente nas aulas de Linguagem Verbal III do CCA (6/3) e de Leitura e Produção Textual do CJE (9/3). O CALC pede que colegas que compareceram a essas aulas redobrem sua atenção em relação aos sintomas e permaneçam em isolamento social.

Outros casos de alunos contaminados já foram confirmados na USP – o primeiro na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e o segundo na Escola Politécnica. No dia 28/3, um aluno de 56 anos do Instituto de Química (IQ) morreu no HU vitimado pela Covid-19.