“Preocupam-nos as orientações da Reitoria e de alguns dirigentes acadêmicos que, insistentemente, tem nos premido a usar ferramentas de ensino e atividades a distância em substituição ao ensino presencial. Como destacamos, a USP abriga uma comunidade diversificada e não há como desconsiderar que há professoras e professores com aptidões e até mesmo pontos de vista variados acerca do uso de tais tecnologias, em substituição aos encontros presenciais”, diz manifesto assinado por 21 professoras e professores da Escola de Artes, Ciências e Humanidades

Um grupo de docentes da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH-USP) divulgou manifesto intitulado “Considerações sobre as propostas de utilização de ferramentas de ensino e atividades a distância para aulas de graduação e pós-graduação”, que chama atenção para a contradição entre, de um lado, a proposta da Reitoria de executar uma migração atropelada de ensino presencial para ensino a distância, com a finalidade de reduzir desde já a reposição de aulas que virá ao final da epidemia; e, de outro lado, os projetos pedagógicos dos variados cursos da USP, em todas as áreas do conhecimento, que contemplam contextos formativos do corpo discente e que envolvem uma construção histórica.

O documento adverte para a magnitude da situação criada pela Covid-19. “Além do exposto, é fundamental considerarmos que tanto para estudantes como para professores este período traz compromissos familiares extras (cuidado de idosos, crianças e doentes), um forte cenário de ameaça e um contexto de incerteza que abala a saúde física e mental. Não é possível atravessar uma pandemia de tal gravidade como se estivéssemos em contexto de normalidade”, assinalam os signatários.

Os meios digitais se tornam uma ferramenta muito valiosa em situações de isolamento, reconhecem. “No entanto, preocupam-nos as orientações da Reitoria e de alguns dirigentes acadêmicos que, insistentemente, tem nos premido a usar ferramentas de ensino e atividades a distância em substituição ao ensino presencial. Como destacamos, a USP abriga uma comunidade diversificada e não há como desconsiderar que há professoras e professores com aptidões e até mesmo pontos de vista variados acerca do uso de tais tecnologias, em substituição aos encontros presenciais”.

O problema, avisam, não se resume à necessidade de tempo para treinamento em EaD, porque “há, como já indicamos, os projetos que definem nossa prática, integrados por métodos e estratégias que compõem parte fundamental do processo formativo das e dos estudantes, nos quais o ensino presencial, considerando as possibilidades que tal interação promove, não é apenas um meio de realização das aulas, mas parte do processo de formação que estas proporcionam”. Prescindir do ensino presencial, esclarecem, “significa também deixar de desenvolver o conjunto de condições e atividades práticas e teóricas previstas como necessárias ao processo de formação profissional, do qual cada uma das disciplinas que ministramos é tributária”.

Os autores fazem referência ainda a outro aspecto fundamental, que vem sendo levantado por setores docentes de muitas unidades da USP e por universidades públicas federais, no tocante ao EaD, que é “a diferente realidade social e cultural das/os estudantes”, considerando que nem todos têm acesso garantido à Internet ou equipamentos. “As estratégias não devem privilegiar somente uma parcela do alunato. Elas devem ser democráticas, universais e inclusivas, garantindo a mesma qualidade de ensino a todas e todos”.

“Reiteramos nosso compromisso com a formação de pessoas e, por isso, gostaríamos de solicitar que as decisões contemplem todas as formas de ensinar e aprender, com liberdade, como um fundamento básico, na forma como isso se expressa no próprio texto constitucional”, dizem. Em seguida lembram que o artigo 206 da Constituição Federal assegura que o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: “I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; VII - garantia de padrão de qualidade”. Defendem ainda a autonomia pedagógica das/os docentes e o respeito ao livre exercício das atividades acadêmicas, seguindo preceitos de qualidade no processo ensino-aprendizagem.