Em declarações ao Jornal da USP o professor Gerson Tomanari, responsável pela Superintendência de Assistência Social e ex-chefe de Gabinete do reitor, admite que os cortes de pessoal afetaram os serviços de zeladoria dos prédios da moradia estudantil

Centros acadêmicos (CA’s) de diversas unidades da USP lançaram um abaixo-assinado pela Internet por meio do qual defendem a paralisação de todas as atividades não essenciais na universidade e repudiam a adoção do ensino a distância (EaD), que vem sendo implementado na universidade a partir da pressão exercida pela Reitoria e pelas pró-reitorias sobre as unidades e departamentos.

Partimos do entendimento de que a Reitoria da USP não apresentou soluções para que os estudantes sem condições materiais mínimas participem das aulas nessa modalidade. A falta dessas condições mínimas pode ser determinante no adoecimento e agravante das desigualdades dentro da universidade durante o duro período de isolamento. Os estudantes do Crusp [Conjunto Residencial da USP], por exemplo, passam por dificuldades de tal magnitude que assistir aulas online está fora de questão”, diz o manifesto.

As entidades lembram que trabalhadores da USP estão com sua saúde colocada em risco “devido à falta de posicionamento das diretorias que ignoram a gravidade da situação em que nos encontramos exigindo que continuem comparecendo às unidades, principalmente o setor terceirizado da universidade, em sua maioria negras e negros, já precarizados pelas políticas de ataque do governo”. “A quarentena é um direito de todo estudante, trabalhador e professor. Respeitar esse direito é fundamental para garantir a saúde coletiva”, prossegue o texto.

O documento cita a opinião defendida pela professora Maria Silvia Betti, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), em artigo publicado no site da Adusp: “As atividades presenciais e em tempo real são fundamentais para todos os processos formativos dentro da universidade pública e de pesquisa, voltada para o aprendizado e a investigação transformadora”. A Adusp tem reiterado a sua posição favorável à suspensão imediata do semestre e de que a adesão às atividades online seja voluntária, sem que haja punições de qualquer ordem para estudantes e docentes.

No abaixo-assinado, as entidades estudantis reivindicam, entre outros itens, que as aulas online “só aconteçam se for garantido que 100% da turma tenha acesso a elas, caso contrário, que sejam suspensas”; “que as atividades a serem entregues não sejam obrigatórias”; “que as atividades avaliativas sejam adiadas no retorno pós-isolamento social”, que haja reposição das aulas após a quarentena, “principalmente as de caráter prático”, “que em hipótese alguma a modalidade EaD se mantenha após o pleno retorno das atividades na USP”; e “que as bolsas de monitoria, PUB [Programa Unificado de Bolsas de Estudos para Apoio e Formação de Estudantes de Graduação] e de extensão sejam mantidas mesmo com a suspensão das atividades devido à falta de acesso à internet por parte de estudantes e impossibilidade de cumprimento de carga horária pessoalmente em laboratórios, sala de docente ou unidade de saúde e afins”.

Assinam o documento o Centro Acadêmico Emílio Ribas (CAER, da FSP), o Centro Acadêmico do Instituto de Física (Cefisma), o Centro de Estudos Químicos Heinrich Rheinboldt (CEQHR, do IQ), a Associação Atlética Acadêmica XXXI de Agosto (FSP), o Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO, de São Carlos), o Centro Acadêmico Iara Iavelberg (CAII, do IP), o Centro Acadêmico Lupe Cotrim (CALC, da ECA), a Secretaria Acadêmica de Arquitetura e Urbanismo (SAAU, do IAU), o GT de Mobilização da Faculdade de Saúde Pública (FSP) e a Jabuteria (bateria dos alunos da FSP).

Moradores do Crusp “cruelmente abandonados” durante o isolamento social

Outra iniciativa tomada em forma de abaixo-assinado na internet é uma nota de repúdio à Reitoria da USP por conta da negligência em relação aos moradores do Crusp. Os signatários ressaltam que, em carta enviada à Reitoria no dia 19/3, apontaram vários problemas que inviabilizam a quarentena e colocam em risco a saúde de cerca de 1.700 moradores do conjunto: cozinhas inutilizáveis, sem peças, torneiras e gás; quantidade muito reduzida de recipientes com álcool gel; inexistência de rede Wi-Fi, o que inviabiliza a comunicação durante a quarentena e a continuação das atividades acadêmicas via EaD; ausência de lavanderias e rede elétrica em mau estado.

Reiteramos que a situação se agravou durante a pandemia Covid-19. Sem acesso à internet, os alunos estão cruelmente abandonados durante esse período de isolamento social (o que representa enorme risco à saúde mental dos estudantes)”, aponta o texto, que também lembra a primeira morte de um aluno da universidade por conta da doença, ocorrida no dia 28/3.

Responsável pela Superintendência de Assistência Social (SAS) da USP, o professor Gerson Tomanari reconheceu, em entrevista ao Jornal da USP, que o conjunto tem “problemas antigos” que “voltam com mais destaque” em função da pandemia do novo coronavírus. Entre esses problemas estão o próprio histórico dos prédios, sua “estrutura precária e antiga” e “a constante necessidade de manutenção e limpeza”.

O superintendente e ex-chefe de Gabinete da Reitoria admitiu também que a política de redução do corpo de funcionários técnico-administrativos por meio do incentivo às “demissões voluntárias” (PIDV) — sem nenhuma reposição — adotada pela universidade nos últimos anos agrava os problemas: “Segundo o dirigente, a SAS está atuando na entrega de kits de produtos de higiene para que os próprios moradores possam realizar a limpeza de seus dormitórios e espaços comuns, visto que o corte de pessoal também afetou a zeladoria dos prédios”. Tomanari informou que os kits contendo água sanitária, sabão e saco de lixo foram entregues nos apartamentos na semana passada.

Petição contra aulas a distância na EACH aponta precarização 

Outro abaixo-assinado publicado na internet pede a suspensão das aulas a distância na Escola de Artes, Ciência e Humanidades (EACH) da USP. “EaD é precarização”, diz o texto, que adota o mote #suspendeEACH.

“Devemos nos opor àqueles que o colocam como alternativa às aulas presenciais e não pensam nos estudantes que não têm acesso à Internet ou computador, estudantes esses que se matricularam em cursos presenciais e, portanto, não têm obrigação de acompanhar atividades online”, prossegue a petição.

De acordo com os signatários, “é preciso seguir o exemplo das diversas universidades do país que suspenderam suas aulas”, como as universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), de Minas Gerais (UFMG) e de Pernambuco (UFPE), entre outras. Unidades da USP, como a Faculdade de Educação (FE) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), também adotaram a mesma medida.