“Por favor fiquemos em casa”, afirma o professor Marcos Neira em vídeo disponível no site da FE. “Deixemos de lado o cronograma das aulas e criemos alternativas para tornar este período menos angustiante. Todos nós podemos fazê-lo”

A Faculdade de Educação da USP, que fechou todos os seus prédios no dia 23/3, sob a consigna “Todas as vidas são importantes”, acaba de criar, no seu portal digital, a página “Educação em tempos de isolamento”. A apresentação consiste de um pronunciamento do diretor da unidade, professor Marcos Garcia Neira, gravado em vídeo, no qual ele reafirma os princípios aprovados na semana anterior pelo colegiado de crise constituído pela direção da FE, presidentes de comissões estatutárias, CCInt, coordenadores de cursos e chefes de departamentos.

Desde o fechamento dos prédios, explica Neira, a maior preocupação dos membros do colegiado tem sido atender e acompanhar estudantes e docentes. “Esse foi o tema principal da reunião não presencial de ontem [25/3?], quando, diante das manifestações recebidas, reforçamos os princípios estabelecidos pelo colegiado e encaminhados à comunidade no dia 18/3”.

Prosseguindo, o diretor afirma que, no complexo cenário atual, é impossível definir encaminhamentos didáticos que atendam todas as singularidades: “Muitos dispõem apenas de seus celulares para conectarem-se. Nem todos possuem condições ou conhecimentos suficientes para operar ferramentas virtuais. Muitos são responsáveis por crianças e idosos. Há pessoas que estão perdendo os meios de subsistência”. Como complicador, acrescenta, a faculdade reúne turmas numerosas e oferece disciplinas com e sem estágio.

“Tampouco se trata de ser a favor ou contra EaD”, continua Neira. “Estamos certos de que a mera conversão de disciplinas presenciais em disciplinas a distância trará prejuízos. O momento exige cautela, e principalmente práticas de acolhimento. Por essa razão, enfatizamos a impossibilidade de quaisquer atividades serem usadas para fins de avaliação, bem como a inviabilidade de interações síncronas com as turmas. Ambas as ações implicariam iguais condições de acesso e de realização das propostas pelos estudantes, o que sabemos não ser a nossa realidade”.

A proposta do colegiado de crise, informa o diretor, é a criação de um repositório no site da FE, no qual serão colocados à disposição dos interessados vídeos, textos e podcasts.“Acreditamos que esta pode ser uma forma de contribuir para a análise dos tempos que vivemos, estimular discussões dentro e fora da comunidade e servir de alento num momento que talvez seja o mais difícil das nossas vidas. Este é um convite para cuidarmos uns dos outros”.

Por fim, conclama: “Por favor fiquemos em casa. Deixemos de lado o cronograma das aulas e criemos alternativas para tornar este período menos angustiante. Todos nós podemos fazê-lo”.

Impossível converter presencial em virtual, avalia Dedic/FFCLRP

O Departamento de Educação, Informação e Comunicação (Dedic) da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) realizou reunião em 16/3 com a participação de “30 docentes e funcionários, além de representantes de cada uma das quatro turmas de graduação do curso de Pedagogia”. Na ocasião, o Dedic chegou à conclusão unânime de que, nos cursos de graduação de Pedagogia e de Biblioteconomia, Comunicação e Informação (BCI), “não seria possível a realização das atividades didáticas, passando da modalidade presencial para a modalidade à distância ou virtual”.

A deliberação foi comunicada em 19/3 à presidente da Comissão de Graduação da FFCLRP, professora Ana Paula Ramos, por meio de documento assinado pelas professoras Katia de Souza Amorim, Chefe do Dedic, Andrea Coelho Lastoria, coordenadora da Comissão Coordenadora (CoC) do curso de Pedagogia, e Deise Maria Antonio Sabbag, coordenadora da CoC BCI.

Tal impossibilidade decorre, por um lado, do fato de que 12 disciplinas incluem estágio, das quais cinco no curso de Pedagogia, três na licenciatura de Biologia, duas na licenciatura em Química e duas na licenciatura em Música. “Com a suspensão das aulas nas escolas públicas, as disciplinas explicitadas não terão como ser conduzidas de modo a contemplar, coerentemente, os projetos políticos e pedagógicos dos referidos cursos”, esclarece o documento. “Diante deste aspecto, temos doze situações que não serão possíveis de serem superadas, por meio de aulas ministradas de modos e formas alternativas, ou seja, disciplinas em que o aluno desenvolve estágio supervisionado”.

Avalia ainda o Dedic que “considerando o tempo que o Ministério da Saúde e especialistas preveem para o andamento e finalização desta dramática crise, entende-se que aquelas disciplinas terão que ser, necessariamente, deslocadas para o segundo semestre de 2020”, porém, adverte, “não é possível fazer um simples deslocamento” de tais disciplinas, “já que a carga horária do segundo semestre é fechada”. Não há maneiras de sobrepor os dois blocos de disciplinas. “Além disto, a disciplina Ação Pedagógica Integrada: Educação Infantil I, por exemplo, é pré-requisito necessário para outra disciplina com estágio supervisionado no segundo semestre e o simples deslocamento não soluciona a questão. O que se entende é que haverá, necessariamente, a extensão de, pelo menos, mais um semestre para solucionar os impasses que estão colocados a partir da pandemia”.

Na mesma reunião, realizou-se “extenso debate sobre as disciplinas que não têm estágio, considerando a possibilidade de ministrá-las virtualmente”, chegando-se no entanto, após exame das condições existentes tanto para alunos como para docentes, à conclusão de “impraticabilidade da migração imediata da modalidade de ensino que ofertamos para a modalidade à distância”.

O documento elenca as seguintes questões, entre outras:

  • “Como ofertar um ensino puramente a distância, sem preparação prévia dos programas e sem que maioria dos docentes tenha domínio técnico para conduzi-lo? Vários pontos foram abordados pelo coletivo do Dedic. Eles envolvem as condições reais dos nossos alunos, professores e funcionários, além da infraestrutura técnica e de apoio. Nesse sentido, vale aqui destacar que a organização e a condução de um ensino a distância (seja semipresencial ou não) pressupõe uma alta complexidade. Um programa para tal tipo de proposta de curso é bastante diverso de um programa presencial, pois ele exige uma série de ferramentas, que não estão presentes em nossas atuais condições. Precisa-se, basicamente, ter uma plataforma virtual de trabalho e um corpo docente com domínio da mesma. Mas, o uso de uma ou outra plataforma envolve conhecimento prévio das diferentes possibilidades oferecidas por cada uma das ferramentas e, no geral, não há domínio dos docentes nesse sentido e nem tempo para eles as explorarem frente à proposta da Pró-Reitoria de Graduação. A indicação de links com tutorial disponibilizado para o docente aprender a manejar uma plataforma traz a ideia equivocada de que tal abordagem de trabalho é fácil.
  • Para funcionamento dessas plataformas, tem-se a necessidade de técnicos de suporte para a preparação da estrutura do curso e até para seu acompanhamento, pois a parte técnica usualmente apresenta problema entre a fase de planejamento e o acesso do aluno. Não dispomos de suporte técnico especializado. Nessa linha, as aulas precisam ser videogravadas com o básico de qualidade para se garantir, minimamente, uma adequada mediação dos conteúdos para os alunos. Na atual condição, o que se teria como possibilidade seria os docentes fazerem gravações de forma amadora e de modo absolutamente caseiro. Como resultado, teríamos grande chance de não ser eficaz, ou seja, poderíamos não sustentar uma disciplina, com a devida qualidade almejada por todos.
  • Ainda, para um adequado acompanhamento de alunos, regularmente, tais cursos a distância contam com tutores. Profissionais treinados para uma finalidade específica que nós também não temos. Essa necessidade de apoio é fundamental para o acompanhamento, regular, dos alunos por meio de trocas via e-mails e chats. para discussão de temáticas, além do esclarecimento de dúvidas, organização e preparação dos projetos e auxílio para as avaliações. Estas, também, são específicas para cursos EAD. Na atual proposta, o docente deverá trabalhar sozinho, o que é, por si só, inviável pelo elevado número de demandas que terá a resolver, para além do que os docentes já têm de tarefa regular. Essa situação é ainda mais complicada para vários docentes que ministram mais de uma disciplina nesse semestre, podendo haver até 100 alunos a serem acompanhados por um único docente, mostrando a fragilidade e inviabilidade da proposta.
  • Além do exposto, nosso aluno está matriculado em um curso presencial e, para ele, a alteração para a modalidade a distância pode ser um grande problema. Essa questão nos preocupa muito porque temos vários alunos com sérias condições socioeconômicas, tendo-se até alunos cuja renda familiar é de um salário mínimo. Isso é indicativo para afirmarmos que nem todos terão computadores que os possibilitem acessar, cotidiana e regularmente, as videoaulas, as plataformas virtuais e outras ferramentas indicadas. Para além disso, mesmo que usassem celulares, temos conhecimento de que muitos alunos não têm internet em suas residências, o que os levaria a fazer uso de “dados móveis” da telefonia, com um custo alto para a realização das atividades esperadas numa proposta de ensino à distância. Mais ainda, nem todos os alunos têm celulares que possibilitem acesso 4G. Os alunos não tendo possibilidade de ter instrumentos que possibilitem o acompanhamento mínimo das videoaulas e atividades seriam, por nós, levados a um processo de exclusão silencioso.

Além disso, há o caso de duas disciplinas, ambas intituladas de Introdução à Língua Brasileira de Sinais, oferecidas nas licenciaturas da Biologia e da Música e que já foram foco de debates anteriores, tendo sido amplamente entendido, em diferentes instâncias da USP, “a impossibilidade de elas serem ministradas a distância”.