Situação é crítica: os blocos necessitam de iluminação e reparos de todo tipo nas cozinhas e lavanderias e a maioria dos apartamentos não tem wi-fi. Além disso, falta segurança

Os estudantes que são moradores do Conjunto Residencial da USP (Crusp) estão exigindo da Reitoria providências imediatas de combate à Covid-19. Em “carta à mídia”, eles elencam uma série de medidas que consideram indispensáveis para evitar a propagação do coronavírus no Crusp e assegurar atendimento médico adequado no Hospital Universitário (HU), além de garantir os reparos necessários nos prédios e apartamentos, bem como segurança (contra furtos) e alimentação.  

“Nós, moradores do Crusp, viemos solicitar medidas imediatas e em caráter de urgência com relação à pandemia do novo Corona Vírus/Covid-19”, diz a carta. “Frente à evolução em progressão geométrica da doença na última quinzena no Brasil, os crescentes casos confirmados na comunidade USP, a precariedade do Hospital Universitário, a quarentena em curso, calamidade pública declarada há poucos dias e a situação dos estudantes residentes no Crusp (vulnerabilidade econômica e social, crianças, idosos, imunossuprimidos, com doenças crônicas e patologias de base), exigimos, mais uma vez, ações imediatas, uma vez que a Universidade de São Paulo e o Estado têm por obrigação cuidar de seus estudantes enquanto abrigam os mesmos em apartamentos na moradia estudantil”.

As principais reivindicações são a colocação de dispensers de álcool em gel nos blocos do Crusp, “preferencialmente um por andar, com reposição diária”; entendimento da Superintendência de Assistência Social (SAS, órgão responsável pela permanência estudantil) com o HU, “determinando o atendimento adequado a quem apresenta sintomas compatíveis à Covid-19 e sem negligência para qualquer outro tipo de atendimento necessário, quebrando a hierarquização do SUS imediatamente”; participação de um representante do Crusp no Comitê Permanente USP Covid-19.

O documento pede, ainda, uma série de medidas necessárias para resolver as péssimas condições atuais de blocos, apartamentos e equipamentos: “manutenção imediata das cozinhas: troca de lâmpadas, tomadas, manutenção nos dutos e religamento do gás encanado, fogões funcionando, instalação de torneiras e manutenção nas pias/encanamento possibilitando, assim, alternativas seguras de alimentação; manutenção nos blocos: reparos elétricos/hidráulicos, instalação de luz nos corredores, mobília mínima nos apartamentos, dedetização contra pragas, lavanderias com máquinas de lavar e secadoras funcionando, reabertura das salas de estudos/vídeo e instalação de Internet nos apartamentos, para garantir permanência mínima e em condição salutar”.

Outras reivindicações: a “garantia de distribuição dos medicamentos de uso contínuo e controlado, tais como insulina, benzodiazepínicos, ansiolíticos, antihipertensivos, anticoagulantes, moduladores de humor, anticonvulsivantes, entre outros”; o aumento da segurança, mediante a designação de porteiros nos blocos, “uma vez que, com o campus esvaziado, ficamos mais suscetíveis a furtos e invasões de apartamentos (como já ocorrido no último recesso em dezembro de 2019)” e a “restrição total” de acesso da comunidade externa à Cidade Universitária do Butantã.

Os moradores do Crusp pedem ainda a “dispensa imediata dos trabalhadores terceirizados para que possam cumprir a quarentena, e a manutenção de seus salários, garantindo que se cumpram todos os seus direitos”, bem como propostas de alternativas de alimentação, frente ao fechamento dos restaurantes universitários, “seja através da distribuição de alimentos, marmitas ou auxílio financeiro”.

Além de apresentar reivindicações, o documento questiona a postura adotada pela Reitoria durante a epidemia: “Gostaríamos de saber se a forma [com] que a universidade lida com os residentes nela — sem manutenção básica e sem resolutividade de problemas há tempos reportados — é compatível com o propósito do Programa de Permanência Estudantil, e, principalmente, se durante a pandemia existem condições humanas de mantermos nossas atividades acadêmicas como está sendo proposto pela Reitoria, uma vez que ela fere o princípio de excelência da Universidade expressos em seu tripé de ensino, pesquisa e extensão”.

A “carta à mídia” lembra que, no início de sua gestão (em 2018), o reitor Vahan Agopyan afirmou que a USP “não é entidade assistencialista”, declaração claramente endereçada aos movimentos engajados na defesa do HU, das creches e da permanência estudantil. “Viemos acompanhando sua conduta desde então: retirada da meia tarifa para os moradores do Crusp alegando acúmulo de benefício, total descaso com as crianças e suas famílias que residem aqui (num bloco próprio na moradia e que não comporta todas as famílias nessas condições), curto-circuito em apartamentos, falta de manutenção no campus, auxílios financeiros (moradia e outros programas de permanência) que há anos não são reajustados no valor de R$ 400, aulas sendo assistidas no chão por oferta limitada de disciplina/turma devido a falta de professores”.

Os moradores denunciam que, no dia em que foram avisados do primeiro caso de Covid-19 confirmado na USP, “os moradores do Bloco F ficaram sem água e o fornecimento só foi normalizado seis dias depois”. “Exigimos o cumprimento dos deveres da Universidade para com os estudantes contemplados pelo programa de permanência estudantil da Universidade, não em caráter assistencialista, uma vez que pedimos o básico. Já foram protocoladas três cartas na SAS e Reitoria, foram realizadas reuniões e só recebemos cinco e-mails respondendo a uma quantidade reduzida das reivindicações e apresentando prazos — que não foram cumpridos”.