Neste artigo o professor Adrián Fanjul (FFLCH) critica a decisão do Conselho de Reitores das Universidades Paulistas (Cruesp) quanto à epidemia de Covid-19, anunciada após reunião em 12/3, de “seguir as recomendações do Ministério da Saúde e da Secretaria de Estado da Saúde, que não preveem, neste momento, suspensão de aulas”. O professor considera que a Unicamp agiu corretamente ao suspender as atividades, dentro de um planejamento de emergência, ao passo que a Reitoria da USP prefere alinhar a instituição aos interesses do governo Doria “reitor e vice-reitor divulgaram um recado público sem nenhuma informação, só para dizer que os porta-vozes da instituição são eles [...] enquanto acreditávamos que estavam desenhando um plano emergencial, estavam reunidos com o reitor da Unicamp para convencê-lo a recuar e ficarem todos quietos obedecendo Doria”

A decisão de ontem do CRUESP (que não impediu que a UNICAMP mantenha a suspensão de atividades presenciais), e o modo como está sendo abordado o coronavirus pelas altas autoridades da USP, me parecem lamentáveis. A UNICAMP tinha decidido uma suspensão temporária de atividades, ordenada, racional, com um planejamento de emergência. E as reitorias da USP e da UNESP tentaram fazer seus colegas da UNICAMP recuarem para subordinar-se juntamente ao governo Doria. Por que o maior saber em Saúde Pública do país vai se sujeitar a uma gestão estadual que tão pouca preocupação tem mostrado? Quem são esses médicos consultados por Doria, que recomendam não suspender atividades universitárias para não complicar atividades econômicas imediatas, como foi revelado ontem pelo UOL?
 
Poderíamos estar fazendo um planejamento, como fez a UNICAMP, resolvendo com os funcionários técnico-administrativos como continuar as atividades imprescindíveis desde casa, e suspender as atividades presenciais a partir de uma data certa. Poderíamos ter esse calendário tentativo e não a debandada que vemos hoje, em que cada docente se vê na situação de decidir individualmente e extraoficialmente como agir. Teríamos clima e boa vontade para isso porque, contra o que Doria  parece acreditar já faz tempo,  trabalhamos muito, de mais, com um acúmulo de obrigações cada vez mais duro, com funcionários que realizam as tarefas que antes eram de duas pessoas, com monitores que fazem trabalho de funcionário. Mesmo assim, temos todas as condições e a vontade para organizar harmonicamente as tarefas inadiáveis.
 
Porém, mais uma vez, a reitoria da USP, faz a opção pelo conflito, só para reafirmar "aqui mandamos nós". Na quarta-feira, a reitoria divulgou uma nota desmentindo a suspensão de aulas e qualificando como unilateral publicamente o Departamento de Geografia por tê-las suspendido. Durante a manhã de ontem, o reitor e vice-reitor divulgaram um recado público sem nenhuma informação nova, só para dizer que os porta-vozes da instituição são eles. Sobra dizer, num fórum como este, os sentidos que essa combinação de não informação nova e reafirmação do enunciador traz como fato discursivo.  E a nota do CRUESP parece indicar uma pressão sobre a UNICAMP para que recue e se alinhe ao governo do Estado. Ao que parece pela página da UNICAMP, essa tentativa fracassou.
 
A nota que o reitor enviou às 13h de hoje mantém as atividades presenciais de menos de 100 pessoas, e chama a atenção sobre a página criada pela USP, coronavirus.usp.br Ontem precisamente observei bastante essa página, e creio que todos nós temos bagagem crítica para apreciá-la e perceber o quanto ela diz como ação institucional. Creio que  é um verdadeiro raio x, talvez um grande ato falho, sobre o  comportamento da reitoria nesta crise, principalmente sobre a centralidade da palavra do porta-voz. Entrem, vejam.
 
Não há em destaque, ao entrar nessa página, nenhuma indicação preventiva, nada que, em um primeiro olhar, direcione um professor, aluno ou funcionário para suas perguntas principais, para aquilo que o motiva a abrir a página. Ao entrar, os quatro posts principais, os únicos em destaque são declarações normativas da reitoria e/ou do CRUESP, cujo tema não é a prevenção, mas a reafirmação da autoridade e do alinhamento com o que faça o governo estadual. O leitor de uma página anunciada como síntese do coronavirus na USP espera um espaço informativo, instruções, algum desenho, mas encontra apenas a repetição oca e administrativa da palavra reitoral. Só o post de hoje, também dentro do comunicado reitoral, traz algumas medidas administrativas, bem-vindas mas insuficientes, mas a denominação do link não orienta sobre o que se encontrará, apenas "mensagem do reitor". Depois da tetralogia reitoral, sob o subtítulo "Leia também", próprio para a  introdução de assuntos conexos ou secundários, há dois links. Um deles vai para várias reportagens sobre o coronavirus, de 3/2 a 12/3, muito interessantes, mas que não dão, de modo sistemático,  indicações específicas para um membro da comunidade. O outro conduz a uma declaração da Sociedade Brasileira de Infectologia, e é o único lugar onde aparecem recomendações, embora diluídas no conjunto da nota. E nenhuma das apreciações da SBI justifica a decisão de manter as atividades presenciais na universidade. Os alunos da USP não são crianças que teriam que ficar com os avós, por isso não se aplica o único trecho sobre instituições de ensino: "Neste momento da epidemia no Brasil não está recomendado fechar escolas ou faculdades ou escritórios. O fechamento de escolas pode levar várias famílias a terem que deixar seus filhos com seus avós, pois seus pais trabalham. Nas crianças, a COVID-19 tem se apresentado de forma leve e a letalidade é próximo a zero; já no idoso, a letalidade aumenta muito. No idoso com mais de 80 anos e comorbidades, a letalidade é em torno de 15%. Portanto o fechamento de escolas em cidades em que os casos são importados ou a transmissão é local (ver definições no fim deste informe) pode ser prejudicial para a sociedade! "
 
Enfim, lamentavelmente as autoridades da USP parecem estar com as prioridades no  Palácio dos Bandeirantes e na reafirmação circular da sua própria palavra.  Em função disso, se direcionam para uma defasagem cada vez maior com o que a comunidade realmente está fazendo. Lamentável, porque vai ser muito mais difícil tomar decisões por acordo e em harmonia com funcionários e estudantes se este comportamento néscio dos gestores tiver como consequência protestos, e pior ainda se tivermos novos casos.  É urgente uma mudança de atitude e que a reitoria siga o exemplo da UNICAMP, porque precisamos planejar em harmonia com todos as atividades inadiáveis, sem previsão de outra dificuldade que não seja a pandemia, que já é bastante.